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A Inesperada Ressurreição

 

Há um ditado – que não sei dizer se é antigo ou popular – que afirma que o mais
provável de acontecer na vida é um imprevisto. O ditado coloca luz sobre uma das
realidades humanas mais perceptíveis: não somos capazes de manusear o futuro com
nossas mãos e habilidades, não somos capazes de vislumbrar o que realmente está em
curso. O homem que acredita que finalmente está em posição de fazê-lo é “insensato”.
O momento pandêmico que vivemos é uma forte expressão social, econômica e
existencial dessa realidade. Quem seria capaz de prever o que foi o ano de 2020? Quem
é capaz de recolocar as coisas sob controle? Quem ainda se atreve a descrever o que
passará com a saúde de nossos queridos familiares e amigos?

Essa incapacidade é uma das diferenças fundamentais entre nossa condição e a
condição dos anjos, ou do próprio demônio. Há uma anedota dessas de seminário em
que se conta que um novato, recém chegado ao seminário, de tão piedoso rezava pela
conversão do demônio. O que é uma impossibilidade na medida em que a conversão, a
mudança de direção, é uma característica essencialmente humana justamente por que
calculamos mal nossas decisões, não sabemos o que nos espera pelo caminho, e então
arrependidos, retornamos por outros.

Há um personagem intrigante do livro “Silêncio”, baseado em fatos reais, que
conta a história da perseguição e martírio de cristãos no Japão. Ele é um dos membros
da comunidade cristã perseguida pelo imperador e seus cruéis agentes. Kichijiro é pego
pela primeira vez e aprisionado com outros. O protocolo é cruel e exige que para não ser
torturado e morto é preciso renegar a fé publicamente, ofendendo a Virgem, pisando e
até cuspindo em uma espécie de madeira com imagens de Cristo e Maria. Os outros dois
confessam que são cristãos e sofrem sérias consequências por isso.

Kichijiro, por sua vez, pisa e cospe na “fumi-e” (imagem de Jesus e Maria). Nem
precisou de muito, algumas palavras e ameaças foram suficientes. A cena é de uma
covardia gritante, especialmente comparada à altivez e coragem dos outros dois,
martirizados por sua fidelidade. Parece impossível um retorno à comunidade para ele,
mas é o que acontece. O até então covarde pede o retorno e é aceito, inclusive pelo
jesuíta que acompanha o povo. Mas Kichijiro é capturado mais uma vez: pisa, cospe e
pede pra retornar; e mais uma vez, e outra. Pisa, cospe e blasfema contra o Senhor e
Nossa Mãe a qualquer pequena ameaça.

Kichijiro talvez seja um dos personagens mais irritantes com o qual já me deparei.
Chega um momento em que parece que o autor cometeu um deslize, o personagem é muito pobre, ele parece um fio solto em uma história bastante empolgante sobre a fidelidade de muitos cristãos ao seu Senhor, mas aquele miserável que se diz cristão é irritante e pobre, um tanto ridículo. Mas ele sou eu, provavelmente alguns de vocês também. Não temos muito repertório “literário” em nossa existência, quase sempre somos a irritante repetição de negações e retornos.

Hoje é o dia em que o Senhor ressuscitou. Essa é a grande notícia para todos os
pobres, miseráveis e irritantemente covardes que existem nesse mundo. Aquele
personagem é a descrição de muitos santos, a nossa. Como diz São Paulo, sem a
ressurreição de Cristo, todos nós e Kichijiro somos os mais abjetos e dignos de escárnio.
Mas hoje é o dia em que “se fazem novas todas as coisas”: a possibilidade de
renascermos assim como aquele covarde Pedro que se transforma no Pedro que
responde com tranquilidade ao inquérito no Sinédrio.

Para os discípulos de Emaús encontrar-se pelo caminho com aquele sujeito que
não sabia o que tinha acontecido em Jerusalém nos últimos dias era uma coisa
inesperada. Mais inesperado ainda foi perceber que o coração ardia de amor no diálogo
com ele. Mas inacreditável mesmo foi celebrar uma refeição com o Senhor que acabara
de morrer crucificado e humilhado. Percebam que curioso, o que parecia improvável era
justamente a coisa mais óbvia que deveria acontecer: “o mais provável na vida é que
aconteça um imprevisto” e isso por nossa profunda limitação de ver através do tempo e
do espaço, e estarmos profundamente fechados para as verdades espirituais que
permeiam nosso cotidiano. Lucas nos fala que os olhos dos discípulos estavam
impedidos de ver e reconhecer a Jesus e somente no partir do pão é que as coisas
ficaram claras.

Por isso, precisaram contar com a ajuda daquele forasteiro – o próprio Cristo –
que vai explicando a coisa mais previsível e anunciada entre os hebreus: o messias, sua
ressurreição, a salvação do povo. “Começando por Moisés e passando por todos os
profetas” ia reacendendo as esperanças e dando uma visão sobrenatural sobre os últimos
acontecimentos.

Hoje é o dia do mais improvável, o dia em que os fracos se tornam fortes, dia do
renascimento para os mortos, dia de cura para os doentes. Dia em que todo o mal passa
a ser derrotado, pois até a morte e o pecado encontraram o seu remédio definitivo na
ressurreição do Senhor. Cabe a nós percebermos que o mais improvável e difícil de
acreditar é o que, de fato, está em curso nesses dias de Páscoa, e na vida de quem quer
que seja, desde que queira estar ao lado do ressuscitado.

Breno Rabello

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