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A tristeza de domingo à noite

Ou: O drama da segunda-feira.

Uma das memórias marcantes da minha infância é de quando eu e minha família nos sentávamos no sofá no domingo à noite para assistir televisão, mais especificamente o Fantástico, que nós gostávamos muito. Sempre que eu lembro desse programa, a vinheta ressurge nos meus ouvidos e posso literalmente ouvir com a minha imaginação o dito “É fantástico!”. Porém o que mais me marcava, creia, não era o programa, mas a sensação de que o domingo acabara e que no próximo dia, segunda-feira, eu deveria levantar cedo e estudar. Não preciso dizer que isso contagiava toda a família. Essa sensação tragicômica não é um bom sinal para nós e, com uma pequenina reflexão, eu gostaria de partilhar com vocês a inversão do título deste texto. Gostaria que nós estivéssemos falando sobre a alegria de domingo à noite – sobre a epopeia de segunda-feira. 

Durante muito tempo e, infelizmente, para a maioria dos trabalhadores atualmente, o trabalho tem sido pensado como uma tortura e , de fato, até mesmo a palavra em sua origem traz essa ideia. Algumas fontes indicam que a palavra trabalho vem do latim tripalium, um instrumento romano de tortura, no qual eram supliciados os escravos; outras indicam como origem também o adjetivo trabalis,-e que significa “prego sólido, que prende com firmeza.” Até mesmo na Sagrada Escritura podemos compreender a ideia de trabalho como castigo divino. “Ao homem, ele disse: Porque escutaste a voz de tua mulher e comeste da árvore que eu te proibira comer, maldito é o solo por causa de ti! Com sofrimentos dele te nutrirás todos os dias de tua vida. Ele produzirá para ti espinhos e cardos, e comerás teu pão até que retornes ao solo, pois dele foste tirado. Pois tu és pó e ao pó tornarás.” (Gn 3, 17-19) Mas como nos diz Carlos Ramalhete, em seu livro Doutrina Social da Igreja: uma introdução, “não é assim, felizmente. A primeira menção ao trabalho que temos na Bíblia também está no Gênesis, no capítulo anterior ao relato do Pecado Original. “O Senhor Deus tomou o homem e colocou-o no jardim do Éden para cultivá-lo e guardá-lo.” (Gn 2, 15) Para cultivá-lo: desde o princípio, Deus quis que o homem, pelo trabalho, participasse da sua obra da Criação, que O ajudasse a cultivar este mundo, que saiu bom das suas mãos. (cf. Gn 1, 31) Os sofrimentos associados ao trabalho vieram do Pecado Original, mas não tiram a sua dignidade intrínseca: quem não trabalha não se desenvolve plenamente, não se torna tudo aquilo que Deus quer que ele seja.” 

Convém lembrar, meus amigos, que a dignidade do trabalho se baseia na pessoa humana e que a dignidade da pessoa humana se baseia no Amor. No início, disse que gostaria de chamar este texto de a epopeia de segunda-feira justamente porque o gênero chamado de epopeia é uma ode a um herói, uma ode a um povo, sempre enaltecendo uma personagem e seus grandes feitos. O que foi a Odisseia senão um grande enaltecimento ao povo grego e ao herói Odisseu por retornar ao seu lar depois da Guerra de Tróia? Digo então, meus amigos, o que é o nosso trabalho senão uma magnânima ode à bondade divina, uma ode para a glória de Deus, uma ode à Trindade Santa? “O grande privilégio do homem é poder amar, transcendendo assim o efêmero e o transitório. Por isso, o homem não deve limitar-se a fazer coisas, a construir objetos. O trabalho nasce do amor, manifesta o amor, orienta-se para o amor. Reconhecemos Deus não apenas no espetáculo da natureza, mas também na experiência do nosso próprio trabalho.” (São Josemaría Escrivá de Balaguer. “Na oficina de José”, É Cristo que passa.) 

Hoje, depois de ter amadurecido, mesmo que com muitas dificuldades para deixar-me conduzir por Deus no amor devido ao meu próprio orgulho, percebo a diferença entre trabalhar pensando nas coisas terrenas e trabalhar para amar. Como trabalho numa escola, o reconhecimento de tal feito é sempre imediato. As crianças respondem imediatamente e com sinceridade. O amor, seja no momento de afago ou no momento de correção, é sempre mais eficaz do que a dureza. Quando busco participar da formação humana dessas pessoas, penso que daqui a alguns anos, quando forem adultas, elas não poderão dizer que nunca viram o amor de Deus. Quando corro e me desgasto para não chegar atrasado, quando tento ser o mais competente possível, quando tento realizar todas as tarefas olhando para Deus, contemplando-O, busco eu mesmo ser esse canal de amor. Busco eu mesmo ser o Cristo que passa. Diga-se aqui, meus amigos, não sou santo. Mas se eles conseguiram, nós também podemos! Levante a cabeça. Ajoelhe-se em seu quarto. Faça seu exame de consciência e diga sim a Deus. Melhore-se por e para Deus. Seja para Deus. Trabalhe em Deus.

 

Daniel Saldanha – Oficina de Valores

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