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Aborto – Perspectivas de uma mãe

 

Dizer que passei uma semana digerindo esse assunto seria mentira. Ouvi falar, vi do que se tratava e decidi esquecer um pouco. Uma das coisas que a gravidez me deu foi, além da péssima memória, a capacidade de optar mais ou menos sem culpa com o que vou me preocupar seriamente. Decidi que seria inútil e não me faria bem o envolvimento nas discussões e assim fiquei.

Mas, parte de mim, escreve. Ferreira Gullar (que infelizmente faleceu esses dias) falava sobre se traduzir em linguagem, e minha cabeça não sossegou enquanto não decidi largar o outro texto pra lá e escrever este.

Isso se deu com mais força quando me deparei com a seguinte postagem na internet, que dizia, com ironia: “você sabia que a legalização do aborto não te obriga a abortar? É contra? Não aborte. Simples assim”. Isso me causou um mal estar maior do que eu gostaria de admitir. Não, não é nada simples.

Duas coisas que eu quero deixar claras é: 1 – somos contra o aborto em qualquer circunstância, mesmo quando a ciência não chama de aborto (explico: há linhas na medicina que chamam de aborto a gravidez interrompida e só reconhecem que há gravidez depois de o embrião estar implantado no útero. No nosso entendimento, desde a concepção existe vida, um ser humano em desenvolvimento como eu e você já com seu DNA próprio e todas as características que definem a vida humana, mas em estágio inicial). 2 – somos a Igreja de Cristo, que nos pede que amemos e não julguemos ninguém, o que inclui aqueles que não se opõem à descriminalização ou que já participaram de situações como essa.

Difícil dizer que qualquer um é capaz de entender a dor e a angústia de mulheres que passam por esse tipo de procedimento, muitas vezes sem higiene e sem preocupação com sua saúde física e mental. Sabemos que quem não passa por uma situação dessas não tem condições de apontar dedos – o que propomos são condutas de acordo com os ensinamentos cristãos para evitar que se chegue a esse ponto de desespero.

Dito isso, a questão principal que me motivou a escrever este texto foi a do “você não é obrigada”. O que nos dói não seria uma suposta obrigação de abortar. Nós não o faríamos de qualquer maneira, ilegal ou não. O que nos dói são os bebês de milhares de mulheres terem suas vidas interrompidas agora de maneira facilitada, colocando o aborto como opção viável.

Sim, bebês. Não são parte do corpo da mãe. Não é direito dela decidir se ele vive ou não, como não é direito de ninguém decidir sobre a vida dos já nascidos. Um embrião é tão outra pessoa que existem estruturas para que o corpo da mãe não o expulse como corpo estranho. Ele tem em si tudo que eu e você temos, mas ainda não desenvolvido o suficiente para viver fora do útero – assim como um recém nascido não sobrevive sozinho, assim como uma criança de 2 anos não desenvolveu a coordenação motora de um adulto pintor e assim como um idoso não tem mais a agilidade de um atleta. Fases. Da vida.

O que nos preocupa e machuca não é que vão nos arrancar nossos filhos do ventre, e sim que inocentes sem chance de defesa não terão a oportunidade de continuar vivendo. O que nos dói é que uma gestão de um país prefira legalizar o aborto em vez de investir em educação reprodutiva e condições de vida digna. O que nos desespera é que as pessoas vejam como opção o aborto, quando outras são possíveis. A descriminalização não nos obriga a abortar, mas apresenta uma escolha perigosa para mulheres que, muitas vezes desamparadas e com medo, não veem outra. E existem outras. A Igreja mesma mantem várias instituições de manutenção de órfãos e muitos casais esperam anos por adoção (muito também por culpa da já citada infeliz gestão do Brasil).

A situação dos abortos ilegais nos dói muito. Mulheres submetidas a humilhações, doenças, desespero, morte. Não desejamos isso para ninguém. Nossa proposta vai muito além de fechar os olhos para essa situação – ela existe. Ser contra a descriminalização não é, jamais, ser a favor disso. Somos a favor de que nenhum aborto jamais ocorra – que jamais alguém precise sequer pensar nisso. O que desejamos é que mais e mais pessoas possam conhecer essa outra proposta e que, através dela, não seja necessário nem mesmo cogitar isso tudo.

Acima de tudo, o amor. Mas não um amor egoísta que sentiria alívio por não ser obrigado a abortar. Quando nos dói, não dói porque machuca em nós, que sabemos que não vão nos obrigar a nada. Atinge porque o limiar do nosso amor é o próximo. Não mexeram com a gente: mexeram com as pessoas. Mas, como Jesus nos ensinou, amamos (ou, pelo menos tentamos amar) as pessoas como amamos a nós mesmos.

 

Joyce Scoralick
Mestre em Literatura

Sobre Joyce Scoralick

É formada e fez mestrado em Letras. Gosta muito de literatura, séries, comida japonesa e escreve no blog da Oficina (e na vida) pra tentar dar conta do que incomoda.

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