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As dificuldades do recomeço

Com esse texto, eu volto a escrever para o blog da Oficina de Valores. Talvez, para quem esteja chegando agora, isso não vá significar nada. No entanto, os que já acompanharam o blog ou que me são próximos sabem que escrever para este site foi algo cotidiano na minha vida durante alguns anos.

O blog da Oficina me ajudou a refletir muito sobre o mundo à minha volta e foi um instrumento através do qual pude dividir muito do que carregava dentro de mim. Sem querer fazer média, esse pequeno blog foi um dos maiores empreendimentos dos quais já participei. E sou bastante grato por isso.

Acontece que já faz um bom tempo que não escrevo para ele. Para ser mais preciso, o blog passou por um período sem textos novos e foi, por assim dizer, descontinuado. Para minha surpresa, esses dias fui procurado por um membro da equipe da Oficina e recebi as notícias de que o blog voltaria e de que eu estava sendo convidado para voltar a escrever para ele. Sem nem pensar, respondi que sim. É claro que eu aceitaria!

Acontece que depois desse sim apareceram os desafios para sustentá-lo. Arrumar tempo para escrever, saber sobre o que escrever, deixar de fazer outras coisas para escrever…Enfim, a empolgação inicial da aceitação foi seguida por certa preguiça em colocá-la em prática. Além da preguiça, havia também uma sensação de estar perdido. Demorei pensando sobre o que escreveria, consultei a lista de temas disponibilizada para os escritores e…nada! Sentei na frente do computador e durante uns bons minutos só vi uma tela em branco.

Decidi então que essa dificuldade seria o tema do meu primeiro texto. Ao reiniciar essa empreitada falaria sobre as dificuldades do recomeço. E, já tranquilizo o leitor, se você me acompanhou até aqui, pode ficar tranquilo e continuar lendo! O texto não será sobre a dificuldade de ser blogueiro. Mas sobre o recomeço em geral…Talvez algumas ideias nem mesmo se apliquem a esse meu momento no blog, mas foi ele que me fez pensar nelas.

Depois de ter dado tantas voltas, acho que é necessário ir direto ao ponto que vou desenvolver: recomeçar é mais difícil que começar. Mas tão necessário quanto.

Vários são os motivos do recomeço ser mais difícil que o começo. O primeiro deles é o fato de ser comum que o recomeço seja precedido por uma derrota ou por uma desistência. Quando começamos algo há a empolgação pela descoberta ou a ignorância dos desafios, mas não o sentimento de impotência ou a sensação de que falharíamos novamente.

Para explicar melhor, vou contar uma situação da minha vida e um diálogo que se seguiu a ela. Pouco menos de um ano após terminar o mestrado, fiz a prova para o doutorado. Passei nas primeiras etapas e fui até a entrevista. Julguei que a entrevista foi bem e fiquei esperando o resultado. Eu estava confiante e o passar dos dias não abalou essa confiança. Quando chegou a data de divulgação do resultado… o meu nome não estava na lista dos selecionados. É difícil explicar como essa notícia me abalou. Eu atualizei a página algumas vezes torcendo para haver algum erro no site e meu nome aparecer. E ele não apareceu…

No mesmo dia, fui conversar com um amigo (o querido Dom Gilson), contei a situação e ele disse algo que nunca mais esqueci:
– Ano que vem você deve fazer essa prova de novo! Você tem que fazer de novo. A tendência vai ser você não querer fazer. O que você está sentindo agora é ruim e você vai ter medo de sentir de novo.

Devo dizer que ele tinha razão! Eu não queria fazer a prova de novo para não correr o risco de novamente não ser aprovado. A dor do tropeço faz com que não desejemos mais caminhar.
A segunda grande dificuldade em reiniciar é que aquele que vai recomeçar é diferente daquele que começou. E a diferença não é apenas a derrota enfrentada. São várias! As relações são outras, o tempo é outro, as aspirações podem ser outras…Enfim, como ensinou Heráclito, não é possível banhar-se duas vezes no mesmo rio. Afinal, o rio terá mudado e o banhista também será diferente. A ingenuidade dos primeiros passos não existe mais, a noção dos custos é mais clara; há também a percepção de que os resultados podem demorar e de que as expectativas talvez não sejam atendidas. Tudo isso pesa na balança…

Há ainda o hábito perdido e a frustração por não rendermos como já rendemos. Um relacionamento, por exemplo, que recomeça, dificilmente estará no seu auge. Nesses contextos, a comparação com o ápice, em vez de motivar, com frequência, desanima.

Sim, recomeçar é difícil. Com frequência não temos os consolos do começo, mas sim a desconfiança de quem acha que vai falhar (e também de outros que julgam que “vai ser do mesmo jeito”).
Acontece que, para a maior parte das pessoas, a trajetória não será uma linha reta formada por contínuas vitórias. Parece óbvio, mas a derrota faz parte do caminho. Ao menos do caminho que a maioria de nós percorrerá. Claro que escrever isso é mais fácil que experimentar isso. Mas a realização dos nossos grandes ideais consiste em continuar a persegui-los mesmo após não termos conseguido. Mesmo após termos perdido. E, ouso dizer, mesmo após tê-los traídos.

Para isso é importante compreender a lógica do recomeço. Ela envolve paciência. Paciência conosco, afinal somos pessoas reais que possuem limites e defeitos. Nossos passos, com frequência, são débeis. Além disso, nem sempre as situações da vida permitem os vôos que gostaríamos de dar. Isso é frustrante, mas não poder voar no momento não pode impedir que saltos, mesmo que pequenos, sejam dados.

O reinício também envolve novas descobertas. O caminho trilhado até agora não apenas dificulta; ele também ajuda. Ele não só desanima e cega, mas pode possibilitar que a visão seja ampliada e que o recomeço na verdade seja um novo começo. Não, as expressões não são sinônimas… O que desejo dizer é que a retomada do caminho pode implicar na descoberta de um novo caminho com possibilidades até então ocultas. Isso já aconteceu comigo mais de uma vez.

Certa vez, grande sábio disse que uma grande jornada começa com o primeiro passo. E quem disse isso não seria um grande sábio se não tivesse dito uma verdade. Hoje, eu, que sou beeem menos sábio, quero chamar atenção para outras verdades que podem ser resumidas mais ou menos da seguinte maneira: para que a jornada continue, todos os passos são tão importantes quanto o primeiro. Alguns serão até mais difíceis. E, com frequência, um dos mais desafiantes será aquele que deve vir após um tombo. Esse passo é bem menos empolgante que o primeiro. Com frequência, ele deverá ser dado por alguém manco que só deseja ficar sentado na beira do caminho e que tem medo da próxima queda. Mas só quem anda após cair, um dia poderá olhar para trás e ver que caminhou mais do que faria se a poeira da estrada tivesse sido o ponto final da jornada.

Pois bem, eu hoje tive um pequeno recomeço. Esse texto foi meu passo. Vamos ver onde ele vai dar.

Sobre Alessandro Garcia

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