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Consciência do mundo

Uma das perspectivas acerca da consciência do mundo está relacionada à característica transcendente do homem. Dentro desta visão, compreendemos o homem como um ser relacional. Essa característica é intrínseca ao homem, ou seja, faz parte daquilo que constitui sua realidade mais profunda. Entretanto, essa relacionalidade também vai sendo desenvolvida ao longo de sua vida, e no encontro com o outro e com o mundo ele vai percebendo que existe uma realidade para além dele.

A consciência sobre o mundo vai permitindo que o homem perceba que ele é um ser que transcende a si mesmo, nas palavras de Viktor Frankl¹, que ele é autotranscendente. A transcendência então, é uma realidade presente em cada um e leva a abertura em sair de si em prol de algo além.

Entretanto, existem alguns fatores que podem contribuir para o fechamento da pessoa em relação ao mundo, seja o adoecimento mental, em decorrência por exemplo de depressão ou ansiedade, seja uma cultura que cada vez mais promove o narcisismo e o individualismo, na qual temos uma contínua onda de pessoas que acabam no vazio de uma existência fechada em si mesmo.

Outro grave problema de nosso tempo é a crença de que o mundo (ou a realidade) é apenas uma representação subjetiva, muitas vezes tendo tal representação uma influência de um sentimentalismo, acabando por negar a existência do mundo para além de si.

Em sua versão mais radical isso significa, por exemplo, acreditar que o bem e o mal se definem pela nossa experiência emocional positiva ou negativa, negando a existência de uma lei natural para além do homem.

Esse quadro leva a que o homem vá tendo amputada uma das suas mais profundas características: a de um ser para o encontro, um ser transcendente, que sempre aponta para algo além dele, seja algo a realizar, seja alguém a amar, como novamente nos diz Viktor Frankl.

Para o homem que existe nesse mundo pós-moderno, viver estabelecendo relações que vão para além de si mesmo, não viver como se a realidade fosse uma mera representação subjetiva, crer na existência de fatos objetivos, como a lei natural, é um constante desafio, porém, não se desafiar pode contribuir para um caminho onde esse homem se fecha a si mesmo, não encontrando outra saída nos momentos de desespero e sofrimento, construindo uma perspectiva pessimista e desesperançosa do mundo.

A pessoa que se vê imersa na desesperança tende a prever o futuro sem expectativas, perdendo até mesmo a motivação pela vida. Tal como uma nuvem cinzenta que impede de ver o sol, os pensamentos presentes em uma pessoa desesperançosa podem levá-la a acreditar que não tem nada a esperar do mundo, ou que as coisas nunca vão melhorar, ou até mesmo não conseguir perceber melhora na realidade ao seu redor, não encontrando razões para viver.

As distorções em seus pensamentos são capazes de levar a pessoa a se perceber como um peso para os outros, acreditando na falsa solução de deixar de existir. Percebe-se que, com esses pensamentos, a pessoa não consiga vislumbrar outra saída, que não seja acabar com a própria vida, único meio que acredita ter para lidar com seus problemas sem solução.

De acordo com Beck (1997)², a pessoa que constrói uma percepção distorcida do mundo, apresentando uma visão negativa do futuro, parece estar sempre a espera de frustrações ou dificuldades infindáveis. O fracasso está sempre presente. A desesperança, considerada um sintoma central da depressão, é uma cognição especialmente danosa, com comportamentos desadaptativos. Ainda de acordo com o autor, o desejo que uma pessoa deprimida tem de sair dessa vida que está levando pode ser tão forte, que a ideia de suicídio passa a representar um alívio para a situação que está vivenciando.

Apesar disso, existem caminhos de reestruturação de pensamentos que podem levar a uma percepção otimista e esperançosa do futuro, bem como o desenvolvimento de sua capacidade em transcender os momentos de sofrimento. Um passo importante nesse processo é reconhecer que, se existe a permanência de algum sentimento de desesperança, ele pode estar sendo alimentado por um pensamento distorcido, e nesse caso, pedir ajuda é fundamental para identificar e ressignificar tais pensamentos que levam a um sofrimento psíquico.

Outro caminho é contribuir para que a pessoa possa exercitar sua autotranscendência, seja pela dedicação a uma causa (realizar uma obra ou mesmo um trabalho), seja através do amor a alguém ou mesmo  enfrentando de cabeça erguida aquele momento de sofrimento com a certeza de que o mesmo passará. Por fim parafraseando Viktor Frankl, quando a situação for boa, desfrute-a, quando a situação for ruim, transforme-a, mas quando a situação não puder ser transformada, transforme-se.

 

Clara Matuque

 

¹Viktor Emil Frankl foi um neuropsiquiatra austríaco e fundador da terceira escola vienense de psicoterapia, a Logoterapia e Análise Existencial.
² Aaron Temkin Beck é um psiquiatra norte-americano conhecido como pai da Terapia Cognitiva.

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