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Consciência do outro

Sempre que pensamos num conceito amplo, ele carrega consigo variações. Não é possível, por exemplo, falar em Psicologia. Falamos em psicologias, em diferentes correntes psicológicas, portanto sempre que alguém disser: “na Psicologia isso se chama…” o que a pessoa está querendo dizer na verdade é: “na corrente psicológica isso se chama…”. Então, os dois primeiros pontos para pensarmos qualquer questão em Psicologia é entendermos qual é o conceito de corrente psicológica e de qual corrente está partindo o ponto de vista.

Toda corrente psicológica é um conjunto teórico e prático de técnicas que são utilizadas para a prevenção de doenças psíquicas, o tratamento de transtornos e neuroses e a promoção de saúde mental. Toda corrente psicológica parte de dois pontos: 1 – Uma visão de ser humano; 2  – uma filosofia de vida. Ou seja, ela busca responder quem é em essência o ser humano e do que ele precisa para ser feliz!

A Psicologia que vai iluminar a nossa reflexão sobre o outro é a Logoterapia, que tem como pressuposto a concepção de que o ser humano é constituído de 4 dimensões: biológica, psicológica, social e espiritual. O grande diferencial para a maioria das outras correntes é essa ideia da dimensão espiritual, que o pensador proponente da corrente chama no original de dimensão noética, que vem da palavra grega “nous”. Com espiritual aqui, não fazemos referência simplesmente à espiritualidade religiosa, ou a profissão de uma fé. É uma dimensão espiritual no sentido da transcendência da matéria, o ser humano é dotado de alma, de espírito.

É fundamental compreender essa base, porque só a partir dela entenderemos que o ser humano não se basta. A compreensão de que existe em nós uma dimensão social e uma dimensão espiritual nos coloca constantemente num processo de saída de nós mesmos. Em essência, o ser humano vai se realizar quando ele se der conta de que ele não se basta, mas que a sua vida é para o outro. Já parou para pensar que tudo que temos e somos é para os demais? Que dom, talento ou capacidade não aponta para o outro? De que adianta cantar apenas para si? Ou ter o dom da oratória sem alguém que o escute? Ou o dom do aconselhamento sem alguém que lhe peça conselhos. O outro é, e sempre será, o nosso parâmetro para a compreensão da realidade.

O principal paradigma do amadurecimento humano é exatamente a saída do ensimesmamento para uma vida de autotranscendência. Falando de forma bem simples, é a transição do desejo de ser servido, para a constatação de que a vida é um grande serviço. O outro sempre será um mistério para nós, afinal de contas em cada pessoa há uma história, mas na medida em que nos abrimos a conviver, interagir e servir, vivemos a descoberta de que o outro ajuda a me revelar a mim mesmo. Gosto de pensar em como somos dependentes. Nascemos sem a menor condição de sobreviver sem a presença de outro ser humano, não conseguimos aprender as coisas mais básicas, como andar sobre as duas pernas ou falar, sem que um outro ser humano nos ensine.

Gosto de pensar nas coisas mais nobres e profundas também. Nascemos para amar e ser amados; nenhum ser humano se realiza de verdade, se no cerne da sua vocação não estiver estabelecido um vínculo de amor e comprometimento com alguém (que seja uma esposa ou um esposo, um filho, uma comunidade etc.).

Em resumo, desde as questões mais rasas e simples, até as mais complexas e profundas da existência, o ser humano depende do outro e é essencial ao outro. Finalizo com três pistas relacionadas exatamente à filosofia de vida que se  desdobra a partir dessa compreensão de ser humano. O psiquiatra Viktor Frankl, fundador da Logoterapia fala em 3 formas de encontrar sentido na vida, poderíamos também pensar em 3 formas de se realizar enquanto pessoal:

1 – Os valores de criação, produzindo algo, lançando mão da criatividade a serviço das pessoas;

2 – Os valores de vivência, encontrar alguém. Amar uma pessoa. Pode ser o nascimento de um filho, o encontro do grande amor, uma dinâmica de envolvimento com alguma comunidade;

3 – Os valores de atitude. São as decisões que eu tomo diante dos sofrimentos inevitáveis que me atingem ao longo da vida.

Repare que nos 3 pontos eu preciso sair de mim, seja para fazer algo por alguém, seja para me comprometer com alguém, seja para entender que o sofrimento que me afeta não tem o poder de me paralisar! Afirmo, sem medo de errar, que o outro é a nossa única saída (literalmente). Sem um outro, ficamos presos em nosso egoísmo sufocante que frustra e provoca ansiedade. Lidar com o outro não na perspectiva da comparação, mas do serviço, é o que realiza a potência da nossa alma de transcender!

Rodrigo Moco

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