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Diga-me quem admiras e te direi quem serás

 

Não sou psicólogo. Li algo de Viktor Frankl, um pouco de Freud e alguns manuais. Digo isso para evidenciar que minha formação em tal área é mínima. Além disso, nunca fiz nenhuma pesquisa para justificar o que vou defender aqui hoje. Sou movido apenas pelo olhar que lanço sobre mim e sobre os outros. E pelo bom senso também… A partir destas fontes chego a conclusão de que a admiração é um dos principais motores na construção da personalidade.

Como muitos que leem o blog já sabem, sou professor. E, como profissional, admito que minhas aulas refletem mais as práticas dos professores que me marcaram do que as disciplinas de didática que tive na universidade. Não sou uma mera cópia deles e, para falar a verdade, acho que meus mestres foram melhores do que sou, mas mesmo assim é possível reconhecer que há algo assimilado: posturas, algumas estratégias, talvez até frases e ideias.

Minha tese é simples: tendemos a nos tornar aquilo que admiramos. Essa transformação possui, a meus olhos, dois níveis. Um que, para usar o jargão comum aos psicanalistas, chamaremos de consciente. Imitamos nossos heróis e isso fácil de ser observado. Basta ver pessoas que buscam fazer novas experiências apenas porque foram inspiradas por aqueles a quem ofertam sua admiração.

O segundo nível – que podemos chamar de inconsciente – não pode ser reduzido a um mero imitar. Acontece sem que percebamos. Parece que somos mudados pela ação de admirar. Se alguém nos disser que parecemos com nossos paladinos favoritos, diremos que essa pessoa se engana. Nos julgamos distantes daquele ideal…e no entanto ele nos tocou. Quando admiro uma qualidade é porque de alguma maneira ela já está em mim mesmo que ainda não apareça. Aquilo que está fora ativa minha potencialidade. Nesse sentido aquele que é admirado me ajuda a encontrar a mim mesmo.

É interessante pensar nessa dinâmica da auto revelação que a admiração oferece. Meus heróis dizem quem sou. Sendo assim, é importante para observar aqueles que admiro de verdade e as qualidades que me fazem ovacioná-los. Todos perdoam os defeitos dos heróis por suas qualidades. O problema é que, por vezes as qualidades podem não ser tão boas assim e os vícios perdoados (e imitados) graves demais para serem deixados de lado.

Não julgo que as transformações ocasionadas pela admiração seja “falta de personalidade”. É um mito afirmar alguém se torna quem é sem ser influenciado por outros. Todos somos influenciáveis e saber disso só nos torna mais livres. Todos precisamos de heróis, todos somos inspirados por outros e, como já disse um grande poeta, nenhum homem é uma ilha.

Cabe ainda dizer que a admiração pode ser uma espada de dois gumes. Muitos se deformam ao imitarem aqueles que admiram. Isso ocorre quando eles deixam de ser heróis e se tornam ídolos. Um herói é grandioso, mas não perfeito. Ele perde batalhas e, é justamente isso que o torna tão heroico. O ídolo é a deformação do herói e a idolatria a deformação da admiração.

Penso que há dois tipos de ídolos. Aquele que tem por base um herói que é desumanizado por quem o admira e aquele que nada tem de admirável, mas que mesmo assim é admirado. Pensem por exemplo nas pessoas que são famosas por serem famosas. Não é difícil lembrar de uma…São cada vez mais comuns. De nada entendem, mas falam de tudo. Não são nada, e mesmo assim não deixam de ser imitadas.

A motivação para escrever este texto veio de uma questão teológica. Nós cristãos julgamos que Deus nos chama a adorá-lo. “Adorarás somente ao Senhor teu Deus”, diz o Antigo Testamento. Algumas vezes cheguei a perguntar por que Deus pede algo assim. Em um primeiro contato com tal mandamento parece que aquele que o formulou sofre de um grave problema de autoestima.

Com o tempo passei a entender a adoração como questão de justiça, mas não é isso que pretendo desenvolver hoje. Na verdade desejo trabalhar uma pequena intuição que tive um dia desses quando estava perdido nos meus pensamentos. A adoração nada mais é que a forma suprema de admiração. Uma admiração oferecida não mais a um herói, mas a um Deus. Por que Deus quer que o admiremos? Porque nos criou para sermos divinos e, como disse acima, tendemos a nos tornar aquilo que admiramos.

A adoração diminui o peso da lei. Quando temos contato com valores morais elevados tendemos a julgar impossível a aplicação e, as vezes, os vemos como um fardo. Quando admiramos quem possui tais valores começamos a vivê-los mesmo sem perceber. Admirar a Deus torna nosso caráter parecido com o dele. E isso acontece, por assim dizer, mais naturalmente.

Todo o drama da idolatria no Antigo Testamento também está relacionado ao fato de que a adoração de Baal tornaria os seguidores de tal pseudo-divindade cruéis como ela. O homem cria deuses menores que ele mesmo e depois se dobra até o tamanho de tal Deus. A solução apresentada pelas Escrituras parece ir na contramão e apresentar um Deus ao qual o homem deve se elevar.

Antes de terminar, cabe ainda dizer que só somos capazes de adorar porque a há algo de Deus em nós. Diga-me quem admiras e te direi quem és…e também quem serás. Diga-me quem adoras e saberei ainda mais. Simples assim.

Sobre Alessandro Garcia

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5 Comentários

  1. Que isso Dideco…eu agradeço pela correção. esse foi eu mesmo que revisei e sempre que reviso um texto meu deixo coisas de fora.

  2. Diego Gonzalez

    Nunca tinha encarado esse “Adorarás somente ao Senhor teu Deus” dessa forma, sempre pensei só nessa questão da justiça. Gostei de ver esse outro ponto.
    E Alessandro, se "Meus heróis dizem quem sou" não esqueça que "grandes poderes trazem grandes responsabilidades". Haha,
    Abraço!

  3. Não posso esquecer isso nunca Diego…Tio Ben nos deixou uma grande lição. 🙂

  4. parabens, alessandro
    como sempre, intuição, sacada e percepção acuradíssima. muito esclarecedor e elucidativo, alem de tranquilizante e esperançoso…!

  5. Anderson Dideco

    Este comentário foi removido por um administrador do blog.

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