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Doutrina Social da Igreja: uma famosa desconhecida

Antes de falarmos da Doutrina Social da Igreja (DSI) propriamente dita, comecemos com uma notícia recente.

No momento em que escrevo há uma discussão pública sobre um projeto de lei que versa sobre a difusão de mentiras na internet (PL 2630). Sim, sobre aquele vídeo que você recebe no celular pelo grupo da família e não sabe dizer se é verdade ou não: o jacaré comendo um pescador inteiro, ou a notícia sobre aquele político e suas artimanhas.

Um padre já se manifestou sobre o PL2630, políticos de diferentes partidos e matizes também, além de representantes da sociedade civil. O fato é que um dos claros problemas do projeto é que as empresas donas das redes sociais – onde mentiras são difundidas – seriam responsáveis pela definição do que é falso ou não. Um problema ainda maior é perceber que essas empresas são gigantescas, têm donos, acionistas e essas pessoas têm interesses, a empresa também tem seus interesses. Pronto, já estamos começando a falar de Doutrina Social. E mais, trata-se de um tema em que todos estamos envolvidos: grandes empresas, interesses privados, usuários enganados nas redes sociais e leis que tentam corrigir um erro e que talvez interfira negativamente em seu direito de ver um vídeo ou uma live futuramente.

Vamos a outra questão. Os jovens convivem com um mercado de trabalho mais oscilante, desafiador e incerto que o mundo do trabalho vivido por gerações anteriores. Além disso, os salários estão muito abaixo do padrão de vida exibido por influenciadores digitais. Viagens, carros, celulares, decorações de casa, roupas. Aliás, para muitos, garantir o básico da existência exige mais que oito horas diárias de trabalho dirigindo seu próprio carro ou entregando algo pedalando uma bicicleta, programando no computador ou dando aulas. Atendendo na loja do bairro ou tendo que pegar 2 ou 3 ônibus para chegar à fábrica: aluguel, comida, luz, internet, prestação. Como os jovens conseguem se casar em um mundo como esse? Um dos fenômenos de nossa época, mesmo entre católicos, são os casamentos cada vez mais tardios. A Família e sua sobrevivência com dignidade é um dos temas mais importantes para a DSI. Como educar os filhos e dar atenção ao esposo ou esposa em um mundo onde o trabalho nos consome cada vez mais?

Obviamente que em um mundo em crise, carente de soluções, pipocam pra lá e pra cá ideologias que pretenderam solucionar esses problemas. As ideologias, e suas “fórmulas prontas”, em grande medida, geraram vários dos problemas com os quais ainda estamos às voltas. Mesmo assim, elas sobrevivem em um movimento pendular. São desacreditadas por suas falhas retumbantes em um momento. Mas logo, uma ou duas décadas depois de um grande fracasso, retornam com novos propagandistas e argumentos requentados que acabam nos convencendo uma vez mais. E cá estamos, novamente em um ciclo de problemas passados com pitadas de novos elementos.

O que são ideologias e por que tanto nos atraem? Em primeiro lugar, “ideologias são ideias de como a realidade deveria funcionar, às quais seus adeptos tentam a ferro e fogo adaptar a realidade, na ilusão de que assim construirão um paraíso terrestre. Nunca funciona” (1). Essas ideias nos parecem atrativas pelo caráter de oposição e dualismo que conferem à realidade. Portanto, se sou contra uma ideologia devo aderir à outra, resolvido. Mas não é bem assim. É possível e desejável se opor a todas as ideologias de nosso tempo.

Esse é o primeiro ensinamento propriamente de Doutrina Social de todo esse texto, é preciso ser contra as soluções ideológicas mirabolantes. Trocando em miúdos, é preciso não aderir às formulações prontas de como construir o céu na terra. E daí vem o segundo ponto de porquê as ideologias são tão atrativas: no tempo dos tutoriais de Youtube (muitos deles ótimos, aliás) as ideologias parecem receita de bolo ou um passo a passo de como trocar a resistência de um chuveiro, só que com coisas mais sérias e infinitamente mais complexas. Não encontraremos na DSI esses elementos ideológicos, e aos olhos modernos isso certamente soa como decepcionante.

É impressionante ver Bento XVI criticando o capitalismo e o livre-mercado, é contundente a crítica de João Paulo II ao comunismo que governava seu país de origem, a Polônia. Ao ideológico – especialmente o católico – resta duas opções: ou se finge de bobo e faz que não ouviu ou fica com um olhar perdido de quem não entendeu nada.
Se nessa doutrina não encontramos uma fórmula mágica, o que então encontraremos? A DSI é um ramo da teologia moral aplicada às realidades sociais. Portanto, encontraremos nela uma série de princípios morais que devem servir de critério na condução das regras da internet, na relação das empresas com seus funcionários, na organização dos impostos, em que tipo de propriedade parece ser melhor para homens e mulheres formarem suas famílias, quais as formas moralmente desejáveis e justas para distribuir e consumir os bens materiais, qual a postura moralmente mais próxima do desejável que o Estado deve assumir.

Como chegar à realização desses princípios de forma prática? Isso é tarefa que não cabe a um Papa, bispo ou padre. Os católicos leigos e todos os que estão preocupados com o bem-comum precisam ser criativos e abraçar essa missão.

 

(1) RAMALHETE, Carlos. Doutrina Social da Igreja: uma introdução. São Paulo: Quadrante, 2017. p. 22.

Sobre Breno Rabello

Professor, mestrando em Sociologia pela UFRJ e integrante da Oficina de Valores desde 2008. Escreve para o blog especialmente quando “coisas ruins acontecem no mundo”, dizem as más línguas. Se assim o fosse verdadeiramente, seria o mais assíduo articulista. Ainda assim costuma desconfiar com gosto dos pessimismos exacerbados. Mas e Machado de Assis? Sim, por favor, e cada vez mais!

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