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É impossível conciliar fé e ciência

O título do texto por si só pode gerar alvoroço interior em algumas pessoas. Para as pessoas mais religiosamente ativas, pode vir a causar um sentimento de descontentamento e até mesmo parecido com uma revolta. Já para os que não têm uma religiosidade muito desenvolvida, ou ainda para aqueles que negam qualquer tipo de religiosidade, pode causar um sentimento de indiferença ou mesmo de algo parecido com euforia. Em todos os casos, espero que cause curiosidade o suficiente para irem além do título. No entanto peço que, ao seguirem a leitura, o façam despidos de pré-conceitos e que tenham uma verdadeira vontade de uma espécie de “diálogo intelectual”. Pois bem, vamos lá.

Para começarmos nosso “diálogo” é preciso ter claras na mente as definições do que vem a ser a fé e do que vem a ser ciência. De uma maneira geral, podemos definir a fé como o atitude de crer em algo ou alguém que possua qualidades que permitam um ato de confiança por excelência. A esse ato chamamos fé. Assim, podemos perceber que a fé não é uma exclusividade de crenças religiosas, mas uma atitude comum do cotidiano de todos nós. Quando você ouve uma história de como foi o final de semana de carnaval do seu melhor amigo, sem qualquer tipo de comprovação, você tende a acreditar que a narrativa é verdadeira. Fazemos isso porque o narrador é digno de confiança de tal forma que acreditamos ser verdade o que ele conta. Esta é uma atitude de fé na palavra do seu amigo. Quando uma criança pequena, explorando o mundo que a cerca, sobe alguns degraus e olha seu pai ou sua mãe dizendo com os braços abertos: “pula que eu te pego”, geralmente a criança se joga na confiança de que seus pais não a deixarão se machucar. Essa também é uma atitude de fé. Poderíamos multiplicar exemplos com as mais variadas situações para exemplificar, mas acredito, porque tenho fé na capacidade intelectual do nosso leitor, que vocês mesmos podem multiplicar os exemplos na cabeça de vocês. O importante é que a partir de experiências pessoais, construímos as nossas crenças, seja em algo ou alguém, que podem ser desconstruídas caso novas experiências pessoais nos mostrem o contrário. A nossa fé em um amigo de infância pode simplesmente acabar, quando um ato de traição é descoberto. Essa experiência negativa desconstrói em nós uma boa parte ou talvez toda a fé que tínhamos naquela pessoa. Então a fé é um método pelo qual construímos nossas crenças através de experimentações pessoais.

Também de uma maneira geral, podemos definir a ciência como um ato de acreditar. Porém, desta vez a crença é construída com base em experimentações materiais, nas quais os resultados dizem se algo é verdadeiro ou falso. Podemos dizer então que a ciência se apoia no conhecimento palpável existente, para tentar explicar o que ainda não se conhece de forma palpável. A ciência faz isso tomando o que se sabe e formulando uma hipótese sobre o que não se sabe. Então cria-se um experimento para testar se o que se supôs está certo ou não. Se estiver, a hipótese é verdadeira, caso contrário, a hipótese é falsa. Nesse processo é preciso ter muita clareza que novas descobertas científicas podem modificar, aprimorar ou até mesmo invalidar, de forma definitiva, descobertas anteriores. Por exemplo, acreditava-se (e alguns ainda acreditam) que a Terra era plana porque, com base nos conhecimentos existentes na época, essa era uma hipótese perfeitamente plausível. Com o avanço da civilização e diante de novas descobertas, percebeu-se de forma muito confiável que a Terra não é plana e essa hipótese foi anulada. Nos dias atuais, nossa nova hipótese testada de diversas formas, é que a Terra é esférica, e até que surja alguma outra descoberta com uma experiência prática que diga o contrário, continuaremos a acreditar que a Terra é uma esfera.

Percebam meus caros leitores, que existe semelhança em como a fé e a ciência se constroem, com um ponto em comum que é crucial para ambos que é a busca pela verdade que gera uma crença. Tanto para a fé quanto para a ciência é preciso ter elementos necessários para se crer, seja em algo ou alguém. O que diferencia as duas, e aqui começamos a entender porque são inconciliáveis, é o objeto sobre o qual a crença é construída. O objeto sobre o qual a fé é construída é a experiência pessoal e, portanto, imaterial, abstrata. Já o objeto sobre o qual se constrói a crença científica é a experimentação material a partir de conhecimentos prévios também materiais.

Como são construções que passam por processos semelhantes, não é de se estranhar que se queira por os dois em confronto, porém, o mesmo ponto que aproxima a fé da ciência é o que os coloca em caminhos totalmente diferentes. Perceba que a expressão utilizada foi “caminhos diferentes” e não “caminhos opostos”. Fé e ciência caminham na mesma direção, a busca pela verdade. Porém fazem isso explorando dimensões diferentes de mundo.

Desta maneira, podemos entender melhor a fé religiosa e como, quando ela é bem construída, não se opõe de forma alguma à ciência. A experiência da fé religiosa é uma experiência pessoal e não é possível negar a fé religiosa por meio de experiências científicas. Assim como a ciência, a religião é pautada na prática. O conhecimento religioso se vai construindo ao longo da vida a partir de experiências, só que experiências pessoais imateriais, ao invés de materiais. A fé precisa usar da razão tanto quanto a ciência, porque só a razão é capaz de avaliar se uma experiência conduz a uma verdade que possa se tornar uma crença. Não é atoa que o saudoso Papa João Paulo II escreveu uma encíclica na qual ele afirma que a fé e a razão são duas asas que nos levam ao céu. Não é possível voar com apenas uma delas, para que sua fé seja verdadeira, ela precisa estar alicerçada na razão. Portanto, não é nada surpreendente dizer que a fé e a ciência são, ambas, métodos racionais de se chegar a um mesmo resultado, a verdade. Por fim, podemos dizer que a fé e a ciência não podem ser conciliadas, porque na verdade sempre estiveram conciliadas, ambas em busca da verdade que cabe a cada uma delas descobrir.

Sobre Cleber Kraus

Biólogo, Mestre em Ecologia Pela UnB (like a jedi). Futuro Doutor em Ciencias Ambientais pela UnB (ser mestre é mais legal que ser Dr.). Participou da Oficina de Valores de 2011 a 2015. Atualmente morando em Anápolis/Brasília, acompanha o blog desde o início e de vez em quando escreve... bem de vez em quando mesmo.

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