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Entre calúnias e perseguições: o verdadeiro sentido

 

“Que é a verdade?” (João 18, 38). Esta pergunta feita por Pilatos a Jesus simboliza um anseio contínuo do homem em querer encontrar a verdade e é o que vemos em diversos pensadores ao longo da história quando buscaram um caminho seguro para responder tal pergunta, transitando entre respondê-la de forma apenas abstrata, com conceitos e teorias das mais diversificadas, mas ao mesmo tempo, em criar éticas que abarquem os melhores atos morais ou os atos mais corretos a serem inseridos universalmente no mundo.

Nos dias atuais, essa pergunta é respondida (em grande parte) pelo modo de ser de cada pessoa, como se a verdade estivesse dentro de uma existência autêntica, onde é necessário, a todo custo, darmos sentidos próprios e concretos à nossa vida.  Essa exigência de que todos devemos buscar viver uma vida “verdadeira” pode ter grandes deturpações em suas construções – por mais que em primeira instância seja coerente para os objetivos que queremos traçar em nossa existência, fazendo sentido colocá-la em nossa prática cotidiana.

Isto ocorre quando colocamos a perspectiva do encontro do verdadeiro sentido de agir no mundo nas nossas medidas, ou poderíamos dizer, na medida humana, que é muitas vezes limitada e nos afasta do ato de transcender a experiência da verdade. Pois, ao defendermos uma questão da nossa vida amparada em nossas próprias condições humanas, podemos, em algum momento, nos frustrar e não encontrar condições de administrá-las por nossas próprias forças, e o exemplo mais claro disso é quando somos caluniados ou perseguidos por elas. Por mais que todo ato bom de cada ser humano seja nobre e deva ser defendido, estamos em um meio social em que há diversas interpretações de como agir no mundo, à mercê de críticas que podem ser injustas e nada edificantes. E quando olhamos para nós mesmos e vemos que somos a única base ou que um grupo de pessoas é a única referência para nos defendermos dos ataques de outrem, nem sempre conseguimos permanecer de pé.

Além disso, essa medida humana pode deturpar o verdadeiro sentido em saber lidar com as calúnias e perseguições que sofremos, levando-nos frequentemente a defender nossos pontos de vista a todo custo, mesmo que para isso percamos o equilíbrio, enfrentando tudo como se fosse uma “guerra”, uma “disputa” para se ganhar contra aquele que ameaça o nosso “verdadeiro modo de ser”. Por mais que possamos defender uma vida coerente, nem tudo o que fazemos está dentro da lógica da vida do outro. Por isso, constantemente precisamos nos abster de entrar em disputas para convencer o outro da “minha verdade”, e aprender a sofrer a injustiça, a perseguição e a calúnia. O meu sofrimento, em muitos casos, é um mal menor do que levá-lo ao outro.

Todavia, como dito acima, apenas pelas nossas perspectivas nem sempre vamos saber transformar esses aspectos negativos em positivos. A autêntica busca por vivermos a verdade em nossa vida e lidar com todas as adversidades que se seguem dela está amparada em uma das bem-aventuranças proclamadas por Jesus: “Bem-aventurados sereis quando vos caluniarem, quando vos perseguirem e disserem falsamente todo o mal contra vós por causa de mim.” (Mt 5, 11) O sofrimento, a angústia, as perseguições, as calúnias só terão sentido se for por Aquele que nos conhece mais do que nós mesmos, nosso Senhor.

O sentido desta afirmação se dá, antes de tudo, porque Jesus é o maior exemplo de saber transformar o sofrimento das perseguições e calúnias em felicidade, em sentido para a verdadeira vida; traz o paradoxo de conciliar a felicidade com a dor. No final das contas, como diz Jaques Philippe*: “tornar-se capaz de acolher o sofrimento por Cristo como uma felicidade, de acolher a cruz como um presente. Este é o grau último da maturidade e da liberdade espiritual, bem como o mais forte dos testemunhos dado aos olhos do mundo.”

Ao assumir viver nossa vida amparados por esse paradoxo de conciliar coisas antagônicas como felicidade e vida autêntica, com as perseguições, calúnias e injúrias, o sofrimento, para a maioria de nós, não virá em forma de martírio como os santos viveram ou como infelizmente muitos cristãos perseguidos vivem, mas como uma espécie de perseguição silenciosa contra os valores e ensinamentos, vocações e direções de vida que Cristo nos apresenta no Evangelho. Como Jesus nos diz: “Mas, antes de tudo isso, vos lançarão as mãos e vos perseguirão, entregando-vos às sinagogas e aos cárceres, levando-vos à presença dos reis e dos governadores, por causa de mim. Isto vos acontecerá para que vos sirva de testemunho”. (Lc 21, 12-13).

O nosso sofrimento para viver aquilo que Cristo nos pede, aceitando a rejeição e a perseguição, só faz sentido porque é para que possamos testemunhar o que Cristo faz na nossa existência; aquilo que nos ensina como verdadeiro caminho que vai além de todas as contradições e dúbias interpretações que nos levam a insegurança, e que somente Ele, o próprio Deus, pode nos mostrar o caminho, a verdade e a vida.

Esta vida de sofrimento, no entanto, está longe de ser um testemunho triste, mas sim de alegria e certeza do verdadeiro sentido de sacrificar sua vida por um bem maior e o alcance das graças prometidas por Jesus. Novamente Jaques Philippe nos ajuda a enxergar isso com as seguintes constatações sobre o nosso “martírio por Cristo”: “Conduz a uma decisão, a uma ruptura radical e definitiva com o mundo do pecado. Faz entrar diretamente na santidade de Deus.” E “é também um ato supremo de amor ao próximo: o mártir cristão perdoa, reza por aqueles que o fizeram sofrer e oferece sua vida por sua salvação. Ele leva ao extremo o amor pelos inimigos a que o Evangelho exorta.” Neste sentido, é um sacrifício que nos aproxima do próprio Deus, nos levando a uma busca pela santidade – o verdadeiro sentido para a nossa vida – e ao mesmo tempo, levando àquele que nos ofendeu a testemunhar um ato de perdão e de amor.

Além disso, toda essa experiência de graça e felicidade paradoxal do sofrimento por Cristo, nos leva a uma certeza que Ele mesmo proferiu logo depois desta última bem-aventurança citada acima: “Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus, pois assim perseguiram os profetas que vieram antes de vós.” (Mt 5, 12) Nós, como os profetas, muitas vezes seremos rejeitados por viver e apresentar a verdade que Cristo nos ensina, mas teremos, assim como eles, a certeza de que essa experiência de rejeição aqui, nos levará, e a cada irmão alcançado pelo testemunho de sacrifício, à recompensa de estar na Jerusalém Celeste.

 

*Trechos do autor retirado de seu livro “A felicidade onde não se espera – uma meditação sobre as bem-aventuranças”.

 

Ângelo Rodrigues

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