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Espiritualidade moderna

Nosso tempo é um em que se fala da superação da religião pela ciência, do fim das crenças que serviram de “explicação” para o que hoje pode ser “de fato” explicado. Isso deveria gerar uma onda de ateísmo, mas não é o que acontece. Pelo contrário, o movimento majoritário é a substituição das crenças tradicionais e religiosas – formais, “institucionais” e coletivas – por qualquer tipo de superstição e espiritualidade subjetiva, pessoal e abstrata. Em outros termos: a fabricação de deuses ao gosto pessoal, deuses que podem ser moldados, controlados e, se desagradarem, substituídos.

Recordo-me de ter lido, não lembro onde, que as pessoas não têm dificuldades de aceitar uma divindade ou um ser superior, têm dificuldade de aceitar um Deus a quem não possam controlar. Repito: não há dificuldade geral em aceitar Deus, a dificuldade é aceitar estar submetido a ele.

Nós odiamos não ter o controle das coisas, ao mesmo tempo nos aflige a ideia de ter. Porque não ter o controle nos parece uma limitação aos nossos direitos. Mas ter o controle é responsabilidade demais para nós. O mais confortável é ter um deus sobre quem pese a responsabilidade de fazer as coisas por nós, mas as coisas que nós queremos que sejam feitas, de maneira que não sejamos contrariados e não tenhamos a liberdade restringida – uma liberdade segundo nossa convicção do que ela seja.

Para tornar concreto: entre suportar a ideia de que o sucesso de um trabalho seja totalmente fruto das minhas escolhas e do meu esforço (responsabilidade) ou aceitar que exista uma divindade que decide o destino das coisas, não importa o que eu faça (submissão), parece que o ideal é acreditar que, com um gesto simples como dizer uma meia dúzia de palavras “mágicas” ou carregar comigo uma ferradura ou um pé de coelho, aquilo que eu desejo será realizado por outra “pessoa” – ou uma energia, não precisamos supor um deus pessoal. Bônus sem ônus.

A diferença entre qualquer religião e o espiritualismo moderno é sobre quem ocupa o centro do culto: eu ou Deus. Em outros termos, se é fé ou superstição, é uma questão de quem manda.

Num tempo em que se opõe, forçosamente, fé e razão, em que se fala de uma vitória da Ciência sobre a Religião – como se a coisa se tratasse, necessariamente, de uma competição – não há nada mais irracional, nada menos científico e menos religioso, que a moda espiritualista. Nesse embate ilusório, ninguém ganha: ambos os lados agora precisam provar o absurdo do relativismo supersticioso.

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