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G. K. Chesterton e a casa comum

Esse não é apenas um texto sobre Chesterton. Como alguém já disse certa vez, é um texto com Chesterton. Ou seja, não é somente uma exposição sobre o autor, mas uma tentativa de pensar com ele e a partir dele.

G. K. Chesterton foi um homem profundamente inserido no seu tempo. Os debates dos quais participava eram aqueles que o homem comum participava. Seus textos eram sobre a situação política, as polêmicas religiosas, as crises econômicas. Ele era um leitor voraz… Reza a lenda que chegou a resenhar mais de 10 mil livros. Além dos livros, lia vorazmente os jornais. E era principalmente neles que polemizava.

Sua polêmica, no entanto não era vazia. Sua discussão não era palavrório. Ele se levantava contra aquilo que julgava estar errado com o mundo. Mas quem fala sobre o que está errado pressupõe saber que é certo.  Sendo assim, cabe a nós perguntar: Para Chesterton, onde está o que é correto?

A resposta para esse pergunta é, ao mesmo tempo, simples e consoladora.  Para Chesterton, a verdade sobre o certo e o errado está nos princípios que guiam o homem comum. Princípios que tais homens vivem mesmo sem racionalizar. Sei que esse homem comum é objeto de críticas grandes… É tido como ignorante, sem conhecimento das ciências e das artes. Chesterton não negaria tais críticas. Apenas diria que, se o homem comum pode errar (e com frequência erra) no que tange a coisas importantes, mas ele tende a estar certo no que é essencial.

Nesse sentido, Chesterton é profundamente democrático. Para ele não é uma aristocracia intelectual que porta o que é mais fundamental para a humanidade.  Tais gênios podem trazer grandes contribuições, mas se desejarem saber sobre os princípios que devem nortear a vida farão bem em ouvir o quitandeiro ou a faxineira. É através dos simples que a sabedoria se revela. Não à toa Chesterton disse que aprendeu mais com sua babá que com todos os filósofos modernos.

Nos anseios simples das pessoas comuns estão o norte que deve orientar a humanidade. E, segundo Chesterton, um dos maiores desejos desse homem comum é possuir um lar, uma casa. Em nosso país existem ditados que confirmam isso tais como “quem casa quer casa” ou aqueles que comparam o lar a um castelo.  É sobre essa casa que passaremos a refletir agora.

Em Chesterton, há dois caminhos para pensar o lar. Ambos estão profundamente ligados, mas são diferentes. O primeiro deles é aquele que mostra a casa como um espaço de caos criativo, de variedade, de liberdade.  Para testarmos tal hipótese, basta observarmos as famílias que conhecemos e as casas que já visitamos. Não há famílias iguais! Não há lares iguais. Há aquelas casas onde as geladeiras estão cheias de imãs e as mesas cobertas de paninhos; há outras onde copos são organizados por tamanho e cor. Há ainda aquelas nas quais os gatos arranharam todos os móveis.

A variedade é fruto da liberdade que o lar oferece. Liberdade essa que não é encontrada praticamente em nenhum outro lugar. Nas palavras de Chesterton (que são muito melhores que as minhas):

A verdade é que para os moderadamente pobres a casa é o único lugar para a liberdade; mais ainda, o único lugar para a anarquia. É o único recanto da terra em que um homem pode, repentinamente alterar o sistema, fazer um experimento ou ceder a um capricho. Em qualquer outro lugar ele terá de aceitar severas regras: na loja, na taberna, no clube no museu, onde quer que entre. Em sua casa, ele pode fazer as refeições no chão, se quiser. (…)Para o homem comum e trabalhador, o lar não é o lugar tranquilo em um mundo de aventura, mas o lugar selvagem num mundo de regras e tarefas estabelecidas. O lar é o único lugar onde ele pode cobrir o telhado com um tapete e o chão com telhas se assim o desejar.

Essa liberdade deve protegida e incentivada. Ela é o essencial que o homem comum intui mesmo quando não sabe formular. É algo simples…E para Chesterton é o simples que deve julgar o complexo e não contrário. Isso significa que todos os sistemas políticos e econômicos devem ser julgados a partir de questões como “o quanto tal sistema favorece que cada família possa ter e usufruir de uma casa?”.  Com isso Chesterton aposta numa lição antiga que pode ser parafraseada na seguinte sentença: o mercado e o Estado existem para o homem e não o homem para o mercado ou para o Estado.

Enfim, a partir daqui já intuímos o segundo caminho pelo qual a casa é pensada em Chesterton.  E esse segundo caminho está diretamente ligado à ideia de propriedade.  Para Chesterton não basta que uma família esteja debaixo de um teto, é importante que aquele seja o seu teto. O lar não se resume ao prédio, mas ele pressupõe o prédio. Por refletir o ser humano, ele é algo espiritual e material. E não há como negar um aspecto sem afetar o outro.

É justamente o fato de possuir uma casa (e um pequeno terreno) que possibilita a vivência daquela liberdade mencionada acima. Tal como toda nação aspira um território, toda família deseja um lar. Nele, a segurança material permite uma segurança existencial. E é essa segurança que permite a existência de uma maior variedade, de uma resistência aquilo que se julga equivocado, de um olhar mais tranquilo para as situações difíceis.

Foi a partir da simples ideia de que toda família deve possuir uma casa que um punhado de escritores construiu uma proposta econômica chamada distributismo. Mas essa conversa é para outro momento. Por hoje fica apenas a constatação do princípio. E isso, embora pareça pouco, é essencial.  Como diz Chesterton, o que está errado com o mundo é a perda da noção do certo.  E esse certo está no comum. Na casa comum… Que exatamente por ser comum é tão extraordinária.

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