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G. K. Chesterton e a família comum

 

Conheci o G. K. Chesterton por meio de recomendações de amigos da Oficina de Valores, em conversas, ou por meio de citações em palestras. Sempre quis me aprofundar melhor no pensamento desse intelectual. Via um pouco de suas ideias expressas não só em palavras, mas nos atos de pessoas bem próximas a mim. Foi então que, num Retiro de Universitários, comprei o meu primeiro livro dele: “O que há de errado com o mundo”. O título era muito impactante e me causava enorme curiosidade e expectativa! “O que há de errado com o mundo?”, eu me perguntava. Cheguei a ler um pouco do livro na época, mas somente alguns anos depois, no atual grupo de leitura da Oficina, que eu pude concluir a leitura da obra.

A ideia defendida pelo autor no livro é de que, alguns homens de sua época estariam buscando a cura para os problemas da sociedade antes mesmo de compreender os reais motivos de seus sintomas, isto é, sem partir de um objetivo inicial. Em outras palavras, Chesterton acredita que, a fim de solucionar os problemas em determinado período, o ser humano precisaria, primeiramente, ter um ideal com o qual pudesse nortear as possíveis transformações ou permanências na sociedade. Alguns valores e elementos naturais, comuns a todo homem, em toda a história, seriam inegociáveis e fundamentais para que ele possa viver plenamente esse ideal: o conhecimento por meio da experiência (o homem comum), a família comum e a casa comum (o lar). Nesse texto, no entanto, gostaria de destacar apenas a ideia de família comum.

A partir das ideias calvinistas, difundidas durante o período da reforma protestante, unido ao processo de industrialização e consolidação do capitalismo, o mundo começou a tomar outros rumos nos quais o homem começou a se distanciar, aos poucos, do seu ideal. Os camponeses, que possuíam suas pequenas propriedades nas quais podiam conviver com sua família, podendo usufruir de sua terra, da liberdade e da autonomia, sem as regras e exigências impostas da sociedade, acabaram sendo expulsos dela por uma elite que pretendia avançar com o processo de revolução industrial, na Inglaterra.

As pessoas comuns (pequenos proprietários) foram então forçadas a ir para as cidades com uma incerteza de seu futuro. Muitos abandonaram a própria família ou tiveram inúmeras dificuldades para mantê-la. Esse camponês despossuído acabou sendo forçado a viver em habitações paupérrimas (os cortiços), em situações desagradáveis, pois não tinha condição de pagar os altos aluguéis nos centros das cidades inglesas.

Desse modo, ao retirar um bem fundamental do homem comum, que é a propriedade privada (sua casa), vendendo-lhe um sonho de modernidade nas grandes cidades, o capitalista provocou, com o passar do tempo, a própria desestruturação daquilo que o autor chama de família comum.  Para Chesterton, o lar é o único lugar aonde o ser humano se realiza e consegue viver plenamente a sua natureza, educando seus filhos de forma autônoma e educando-os naquilo que ele enxerga como o principal ideal humano, que é se aproximar mais de Deus.

Diante das condições precárias e dos inúmeros problemas enfrentados pelo desenvolvimento do capitalismo, é criada uma polarização entre dois grupos distintos: os capitalistas e os socialistas. Chesterton critica ambos. Enquanto o capitalista, para ele, defende a concentração de terras nas mãos de uma oligarquia, apartando os pobres de seu pedaço de terra, o socialista defende a coletivização dessa terra. O primeiro, diz o autor, acha normal os pobres viverem nos cortiços ou entregues à altos aluguéis cobrados pela aristocracia, sem ter sua própria casa, já o segundo acredita que o homem comum pode viver em uma casa coletiva, dividindo espaços que deveriam ser de uso privado.

Para piorar, as mulheres, no início do século XX, começavam a sair também de suas casas para trabalhar, deixando seus filhos à educação do Estado. Para Chesterton isso seria mais um motivo para que a família fosse desconfigurada, já que a educação deveria vir diretamente dos pais, pois são aqueles que ensinam o tipo de conhecimento mais caro para o intelectual: aquele obtido por meio do senso comum, das experiências cotidianas. O mundo moderno teria trazido diversas ideais que, para o autor, são abstratas, ligadas à uma elite e separadas daquilo que o pobre, o homem comum, vive em sua realidade prática. Em outras palavras, as tradições e experiências criadas pelo homem comum, ao invés de serem aperfeiçoadas, são destruídas ou deturpadas.

A família, o Estado e a propriedade, portanto, são bens inestimáveis e devem ser conservados. A família é a instituição mais antiga, anterior até mesmo ao Estado, e, portanto, os políticos devem zelar pelo seu desenvolvimento e bem estar, auxiliando-a na busca de seu ideal. Simplesmente acabar com o Estado, para o inglês, seria acabar com a propriedade, e acabar com a propriedade seria desestruturar a família comum.

Em nossos tempos, vivemos a crise de pessoas sem lar, com famílias desestruturadas ou com inúmeras dificuldades para viver a privacidade e as particularidades que um lar pode oferecer. Para que haja a manutenção desses princípios fundamentais, diria o autor, será necessário que os políticos “saiam de suas cascas” e comecem a luta pela distribuição das riquezas, das terras e pela manutenção da família.

A nação e as demais configurações modernas poderiam até vir abaixo, se necessário, para preservar tais valores universais. A família, portanto, é uma instituição fundadora, acima do Estado e das demais instituições atuais. Portanto, como diria Chesterton:

“Se quisermos preservar a família, teremos de revolucionar a nação”

Lucas Rodrigues – Oficina de Valores

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