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G. K. Chesterton e o homem comum

Em 1910, o escritor inglês Gilbert Keith Chesterton (1874-1936) escreveu o livro O que há de errado com o mundo, com o intuito de lançar luz sobre uma questão que ocupava a mente dos intelectuais e políticos da época. A questão era: Qual é o problema do mundo? Naquele período, havia um consenso de que as condições de vida enfrentadas pela maioria dos homens eram insustentáveis. As cidades, sujas e repletas de subúrbios superlotados, giravam em torno das indústrias. A população era composta sobretudo por operários mal remunerados, que enfrentavam dificuldades para garantir o sustento de suas famílias. Às custas desses trabalhadores, alguns poucos indivíduos, os proprietários das fábricas, enriqueciam.

Nesse contexto, muitos pensadores buscaram analisar as sociedades com o objetivo de formular um diagnóstico que apontasse com precisão qual seria a causa de todos os males sociais. A partir destes diagnósticos seria possível sugerir os respectivos remédios. Os socialistas, por exemplo, apontaram na propriedade privada e na desigualdade que resultava dela a causa de todas os problemas sociais. Como solução, indicaram uma revolução, que guiaria os homens rumo a uma sociedade igualitária.

A Igreja Católica, através da encíclica Rerum novarum, de Leão XIII, indicou erros em muitos dos diagnósticos apresentados até então. Também julgou como falsos e insuficientes as soluções já apontadas. Na visão do papa, a causa dos males sociais que se abatiam sobre o mundo estaria no fato de as pessoas estarem cada vez mais distantes da moral cristã. Assim, Leão XIII sugeriu que valores como a solidariedade e a justiça fossem retomados para fundamentar a organização das sociedades e as relações humanas.

Chesterton, em seu livro, endossou as ideias de Leão XIII. Para o pensador inglês, a verdadeira solução estaria não em uma revolução aos moldes daquelas pretendidas por muitos de seus contemporâneos, mas sim em uma restauração que considerasse as bases morais há muito ignoradas. Com efeito, Chesterton defendeu que era preciso resgatar o ideal cristão, que não havia sido julgado e descartado por se mostrar deficiente; mas deixado de lado apenas por ser considerado difícil. No centro desse ideal para o qual Chesterton chamava a atenção está o homem comum.

Não seria exagero dizer que a valorização do homem comum ocupa um papel de destaque na obra de G. K. Chesterton. O escritor inglês era um admirador das coisas ordinárias. Maravilhava-se com elas. Livros como Tremendas trivialidades, compostos por textos que louvam objetos simples, dão provas disso. Já o entusiasmo com o qual Chesterton escrevia sobre o homem comum aparece em frases como: “a coisa mais extraordinária do mundo é o homem comum, a mulher comum e seus filhos comuns”.

O homem descrito como comum por Chesterton é aquele sujeito simples, que experimenta o mundo por meio de seus próprios sentidos; que busca conhecimento na realidade; que valoriza as experiências acumuladas por seu grupo social e familiar. É o João, é o José, é a Maria. São todos aqueles que sonham com uma casa comum e uma família comum.

Chesterton valorizava de tal forma o homem comum e seus desejos por um lar e uma família que compreendia que uma boa organização social seria aquela que oferecesse as condições para que todos alcançassem essas coisas. As sociedades industriais do início do século XX erravam ao não conferir as possibilidades para que os homens concretizassem esses sonhos.

Já as ideologias modernas, tanto as conservadoras quanto as progressistas, falhavam por sequer considerar o homem comum e seus desejos nos momentos de produção de seus diagnósticos. Para Chesterton, os ideólogos primeiro formulavam suas teorias e só depois percebiam o distanciamento existente entre elas e os homens comuns. Diante desse distanciamento, os formuladores das ideologias buscavam adaptar os homens às teorias. Com isso, criavam aberrações sociais incapazes de propiciar a felicidade às pessoas.

Ao criticar os ideólogos, vistos como inimigos do homem comum, e ao chamar a atenção para uma restauração moral, Chesterton sugere que só uma sociedade baseada na moral cristã seria capaz de conferir a completude aos homens. Só o Cristianismo, ao tomar o homem como criatura mais perfeita, feita à imagem e semelhança de Deus, considera todas as suas especificidades e preocupa-se com a sua dignidade.

Apesar de O que há de errado com o mundo completar 110 anos em 2020, a proposta do livro ainda é atual. As ideologias condenadas por Chesterton ainda estão na ordem do dia. E o homem comum, ah, este segue perseguido por ideólogos que tentam convencê-lo a abandonar seus sonhos comuns em prol de um futuro glorioso ou do resgate de um passado que nunca existiu. Enquanto passado e futuro pressionam o homem comum, ele só quer desfrutar do presente, na companhia de sua família comum.

Aliás, a visão de Chesterton sobre a família comum é o tema do próximo texto.

Rhuan Reis

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