BIGtheme.net http://bigtheme.net/ecommerce/opencart OpenCart Templates
Home / Cultura / Jornalismo e Literatura

Jornalismo e Literatura

Quando você está dentro de uma faculdade de Jornalismo e ouve um professor afirmar que a verdade não existe, você começa a compreender a crise de desinformação por que passamos. Se a verdade não existe, a diferença entre uma notícia e um conto — uma reportagem e um romance — é meramente esta: quão longe o autor foi no uso da sua criatividade, depois de extrair alguns dados e personagens da realidade. Em outras palavras, a diferença entre um jornalismo sem verdade e a literatura é apenas de grau de verossimilhança.

Mas quando eu procuro a literatura, espero mesmo que ela me socorra da realidade. Não me importa que ela tenha sua porção de inverossímil, desde que ela me divirta ou emocione. Nas obras literárias, procura-se mesmo o efeito que a leitura possa causar – quanto de verdade há no que o autor vai me dizer para chegar lá importa pouco ou nada. Na verdade, até espero mesmo ser “iludido” pela leitura.

A literatura existe para nos fazer sonhar com como gostaríamos que o mundo fosse; o jornalismo, para nos fazer pensar sobre como ele é de fato.

Por isso, quando abro um jornal, não quero ser “conduzido”. Espero saber o que está acontecendo de fato, e os efeitos dessa leitura sobre mim são consequências com as quais terei de lidar. Os fatos podem me alegrar, entristecer, reforçar minhas convicções ou abalá-las – e tudo isso é necessário. Quem procura o que quer – e não o que há de fato para saber – ao ler um jornal, deveria trocar as bancas pelas livrarias (ou os equivalentes, nesse nosso mundo tecnológico) e ficar atento aos nomes das sessões para levar para casa fantasia ao gosto – romance, ficção científica, terror. A realidade não se encomenda.

É comum, por exemplo, ouvir que “a versão oficial da História não é a verdade, mas aquela contada pelos vencedores”, claro que em tom pejorativo e/ou de questionamento. Mas quando se questiona a “narrativa dos vencedores” e ao mesmo tempo se nega a existência da verdade, o que se pretende, ainda que velada ou inconscientemente, é apenas conquistar o direito de contar as próprias mentiras. É a lógica do oprimido que quer ser opressor.

“Mentiras” é sincero demais. Os acadêmicos da comunicação avessos à verdade falam em “narrativas”, “interpretações da realidade” e afins – quase ao mesmo tempo em que levantam bandeira contra o fenômeno das ‘fake news’. Quando o fazem, estão formando literatos, não jornalistas. E literatos do pior tipo: pragmáticos.

Alguém poderia argumentar que existe diferença muito grande entre um fato absolutamente inventado e uma “interpretação da realidade, uma maneira de contá-la”. Eu concordaria, acrescentando: a distorção é muito mais perigosa que a mera invenção, porque é mais sútil – tanto que pode ser engano sincero do próprio falante. Quando é voluntária, é uma desonestidade, senão maior, mais sofisticada.

Jornalismo sem verdade não vale a pena: para quem busca informação, é enganoso; para quem busca entretenimento, é tedioso. Quer dizer, vale a pena para quem gosta de enganar ou ser enganado – quem procura os fatos nas suas convicções e não o contrário. Também para quem gosta de entediar e ser entediado (existe quem goste do tédio? Deve existir). Jornalismo sem verdade é má literatura.

Sobre Gustavo Lima

Veja Também

Aviso: NÃO contém spoiler!

Em época de grandes lançamentos cinematográficos, após as frases que contém o nome do filme, ...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *