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Juntos e Shallow Now!

A expressão que se tornou o mais novo meme das redes sociais, provavelmente foi fruto de um acidente de percurso no difícil processo de se traduzir músicas para a nossa língua. Este incidente que povoou rapidamente as redes sociais, infelizmente também pode ser utilizado como uma espécie de lente para olharmos melhor o tempo em que vivemos. Traduzindo livremente a expressão de língua inglesa, temos a palavra “shallow” que em português significa de forma mais destacada raso, superficial e a palavra “now” que no nosso vernáculo latino significa agora. Juntando as duas temos uma expressão do tipo “raso agora” ou “superficial agora”. Este acidente poderia ser só um motivo para se fazer e criar todas as piadas que temos visto se também não evidenciasse um problema que parece ser crônico nos dias atuais, a falta de profundidade. Não me entendam mal, não estou aqui dizendo que para tudo que fazemos no cotidiano é necessário ser profundo, não MESMO! No entanto, alguns temas no campo das ideias principalmente exigem aprofundamento devido a sua complexidade. Para estes temas será preciso esforço para se aprofundar, um esforço que requer horas, dias, meses e em alguns casos até mesmo anos de profunda dedicação para se poder ter algum vislumbre coerente e razoável sobre o assunto. Como vemos, sair da superficialidade, do raso dá trabalho, muito trabalho.

Quanto mais profundo é um mergulho, maior é o nosso esforço para continuar descendo. Também é igualmente grande o esforço em continuar mergulhado, seja qual for a profundidade. Esse esforço não é diferente quando se trata do debate de ideias. Debater certas ideias com a profundidade que elas merecem pode exigir muito esforço e este esforço é maior a medida em que se aprofunda. Manter um debate em qualquer que seja a profundidade além do raso, da superfície, também sempre demandará esforço e dedicação. Tudo isso é contrário ao movimento que vemos hoje. É realmente impressionante e eu diria até mesmo curioso, que a era da informação seja também a era da superficialidade nos assuntos. Nos dias de hoje, pinçamos informações e nos aventuramos em defender ideias que exigem mais profundidade do que uma simples pesquisa no Google. Voltando a analogia com o mergulhador, é como se você sem nunca antes ter sequer enfiado sua cabeça dentro da água, resolvesse que pode chegar aos 100 metros de profundidade em um mergulho livre. O resultado de tal empreitada provavelmente será desastroso e até mesmo fatal. Só para termos ideia, o recordista mundial de mergulho livre, Willian Trubridge, atingiu em 2016 a marca de 102 metros em um mergulho de 4 minutos sem cilindro de ar.  O curioso é que ele quebrou o recorde que era dele mesmo e mais curioso ainda que a tentativa anterior em que ele tentou quebrar este recorde e fracassou, havia sido em 2014. Percebam meus caros, em 2014 ele fracassou e só em 2016 ele tentou novamente. Foram necessários 2 anos de treinamento e preparo para poder conseguir ir mais fundo do que ele mesmo já tinha conseguido.

Não é possível simplesmente se aventurar em certas áreas sem antes ter algum preparo que nos permita ir além da superfície. Certos temas no campo das ideias exigem de forma inevitável, que detenhamos um preparo prévio de conhecimentos específicos que nos darão a habilidade de ir além da superfície e a medida que desejarmos ir mais fundo, mais conhecimento será necessário. E conhecimento não é jogar no Google um assunto e pegar os links da primeira página como fonte. Para certos assuntos não bastará nem mesmo pegar informações de um autor reconhecido, mas sim de vários e de preferência que sejam antagônicos para nos ajudar a formar nossa opinião de forma crítica. Buscar se aprofundar sem ter esses cuidados e outros, é como querer quebrar o recorde de mergulho treinando sempre em uma piscina de criança com 50cm de profundidade. Para se atingir profundidade de verdade, será preciso sair da zona de conforto da respiração fácil. Será preciso sentir o ar faltar, o aperto no peito, o medo de não dar conta, de estar em um lugar hostil, de não ter treinado o suficiente. Acima de tudo e talvez o mais importante, precisamos entender qual é o nosso limite atual, a que profundidade podemos chegar e qual ainda não alcançamos e reconhecer que a partir deste ponto, eu ainda não posso ir.

Todas esse esforço parece faltar a grande parte da sociedade nos dias atuais. Queremos alcançar os 102 metros em um mergulho tendo passado a vida inteira sentados em uma piscina de plástico de mil litros. Pior são os casos e não parecem ser raros, em que as pessoas fazem afirmações sobre determinados assuntos como fossem as recordistas mundiais sem nunca nem sequer terem posto os pés na água do conhecimento no qual fazem as afirmações. Se nós mantivermos essa postura, se não nos propusermos a olhar com calma e com honestidade intelectual para os diversos assuntos que nos rodeiam, “juntos e shallow now” não será um erro de tradução de alguém que não se aprofundou na tarefa de traduzir, será o reflexo de uma sociedade que escolheu passar a vida em uma piscina de criança. Se assim o for, podemos fazer uma pequena adaptação na tradução, dar as mãos e dizer em alta voz “Juntos estamos/somos todos shallow now”.

Sobre Cleber Kraus

Biólogo, Mestre em Ecologia Pela UnB (like a jedi). Futuro Doutor em Ciencias Ambientais pela UnB (ser mestre é mais legal que ser Dr.). Participou da Oficina de Valores de 2011 a 2015. Atualmente morando em Anápolis/Brasília, acompanha o blog desde o início e de vez em quando escreve... bem de vez em quando mesmo.

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