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Memórias de um cinéfilo

Memórias de um cinéfilo.

 

Eu tenho a lembrança de estar escuro, várias pessoas se reunindo e sentando ao meu lado, um sentimento de inquietação, desconfiança e ansiedade tomava o lugar. O que poderia surgir nesta sala escura, por que tanto alvoroço dos irmãos Lumiere ao convocar essas pessoas aqui reunidas?

Então, de repente uma luz surge na parte de trás da sala, atravessando todo o espaço e parando na outra extremidade, onde imagens de operários saindo da fábrica encantaram aquela população de incrédulos, que não acreditavam que as imagens podiam se mover. Após isso, se amedrontam ao ver que na mesma tela que saiam os trabalhadores, agora aparece A chegada de um trem na estação; nesse momento, o medo foi tanto que algumas pessoas saíram da sala temendo serem pegas pelo grande monstro de ferro.

E assim começou, foi o início de algo misterioso e fantástico – Eu não sabia o que viria no futuro, tudo que aquilo poderia causar e as possibilidades que poderia alcançar, mas havia algo ali, algo que me prendia que hipnotizava a ficar olhando e esperar ansiosamente a próxima imagem que surgiria por aquela luz mágica as minhas costas.

O tempo foi passando, várias imagens surgindo; No início, era tudo preto e branco, depois veio a cor, deixando tudo mais vibrante, mais vivo. A música sempre esteve presente, mas aos poucos o som do ambiente, as conversas, a sinfonia do cotidiano, foram aparecendo na sala escura que eu me encontrava.

As imagens foram se tornando mais complexas, e o que no início era apenas um momento documentado da vida, com o tempo foi se tornando histórias maiores, complexas – Algumas que aconteciam do lado de fora (reais), outras imaginadas nos sonhos e pesadelos daqueles que iam e viam da sala. Com isso, para aqueles que se encontravam ali ao meu lado, junto comigo, eram transportados a essas realidades fantásticas onde poderiam viver aventuras impossíveis, irreais, em terras distantes e inimagináveis.

O que me lembra de um velho camarada que trabalhava como mágico, que nos primórdios desse estranho momento viu uma das primeiras exibições que houvera dos trabalhadores saindo da fábrica e da chegada do trem. Uma figura excêntrica, inquieta, tinha aquilo que chamavam de alma de artista (E também um bigode engraçado que era a moda da época). Seu sonho era viajar até a lua, lutar com seres fantásticos e salvar uma princesa – pensei nesse momento que tinha encontrado um mais lunático que Dom Quixote. Fico imaginando se ele assistiu às imagens que aquele Mélies fez para serem exibidas na luz, ele teria realizado seu sonho, afinal os filmes, como foi chamado as imagens da luz, tem o poder de transformar os sonhos em realidade!

Eu vi que as pessoas na sala riam e choravam, eram banhados de amor e raiva, tensão e alívio. Sentimentos internos eram expostos quando uma cena demonstrava uma verdade dura demais para aqueles mais fechados em si mesmo. Essas mesmas pessoas, uma vez como apenas telespectadores se tornavam personagens, a partir que se entregava a magia que acontecia na sala.

Eu mesmo fui tragado para essas emoções diversas vezes. Foi ali, através dos filmes que tive vislumbre do que poderia ser o amor, a amizade, o ódio, a dor, a vingança, a solidão, a paz… Era instigante ter uma demonstração desses sentimentos, era motivador. Eu via esperanças serem renovadas no olhar daqueles que sentavam ao meu lado e em mim depois de uma explosão de sentimentos que viam da luz e das imagens.

Pessoas aprenderam a ter empatia por aqueles que são considerados vilões, perceberam que o herói nem sempre é tão íntegro, que em alguns momentos nem tudo é tão preto no branco; Descobrimos que mafiosos são bem ligados à família, que o monstro tem sentimentos, que amigos são uma coisa rara e verdadeira, que família pode ser problemática, mas também pode ser sua única fonte de confiança, que há muita crueldade no mundo, mas também muita beleza e que pequenos prazeres do dia a dia tem mais valor que os grandes esporádicos.

Mas teve épocas que algumas pessoas tentaram censurar a magia com medo do que elas pudessem provocar. Vendiam seus ideais de sonho de vida perfeita, mascarando sentimentos e evitando que emoções reais tomassem nossos olhos como antes. Manipulações, interesses econômicos e políticos… Era tudo maquiado, tudo falso. Verdades foram deixadas de lado e tudo era apenas pelo controle, pelo poder e apenas um lado contava a história silenciando vozes, silenciando a verdade presente até mesmo na ficção das histórias. Foi uma época difícil, os olhos ao meu redor ficaram vazios, sem vida, nesses momentos eu mesmo pensei em abandonar a sala – não queria ouvir o que aquele Tio tinha a dizer, não queria ser convocado pra guerra; Não queria que a magia fosse usada para propagar ideais de exclusão, de ódio, de intolerância.

Porém, pessoas corajosas lutaram contra toda essa opressão, contra a mentira e a manipulação, e fizeram o brilho voltar, a luz se recuperar mais forte que antes, e as histórias deles se tornaram imagens para sentirmos o peso da liberdade, conquistada nessas batalhas que até hoje tem resquícios. As suas dores, seus sacrifícios, as vitórias e derrotas, são vistas e admiradas para sempre lembrarmos que a luz e suas imagens são ferramentas de luta contra a injustiça, formas de manifestações contra aquilo que está fora desta sala escura.

Confesso que a partir de um momento, nesses longos anos aqui nessa sala, ficou muito mais interessante observar as pessoas que assistem do que as imagens, pois são elas que fazem a mágica acontecer. A luz, a imagem e a ação são apenas o início como os telespectadores recebem e transformam suas vidas, isso é a grande beleza do evento. Pois, são os filmes uma pequena forma de nos preparar para vida fora desta sala, é um professor que nos ensina e nos joga ao mundo pra usar desses ensinamentos. E assistir essas imagens, essas histórias reais sendo transformadas nas cadeiras, é o que de mais belo toda essa experiência pode provocar.

E a conclusão que chego nesses 126 anos que acompanho essas projeções, é que tem momentos que vamos ficar numa sala escura ansiosos, inquietos, desconfiados… e tudo que precisamos é que uma luz às nossas costas ilumine como mágica a nossa frente, nos tirando da escuridão e não levando para longe, para histórias e mundos fantásticos onde a cada aventura nova conhecemos mais do mundo e de nós mesmos.

Mas agora silêncio, desligue o celular e evite fazer qualquer barulho – quero ouvir só o barulho da pipoca e da projeção. Mais uma história está pra começar e mal posso esperar pra ver…

 

“O cinema é um modo divino de contar a vida!’’ – Federico Fellini

 

Patrick Zillig

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