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Não sei, só sei que foi assim

Era um dia como outro qualquer. Céu meio encoberto, um raio de sol pegava ali na rua de vez em quando, podia chover, ou não. Não sei ao certo o que me levou a entrar naquela igreja naquele dia e hora – mas eu precisava contar pra alguém.

Mesmo não sabendo ainda o que contar.

– Cara, eu só escutei uma música, uns barulhos de sino, entrei.

– Como assim?!

A igreja estava meio vazia, a contar pelos espaços vagos nos bancos. Fiquei lá no fundo, não sabia como me portar ali naquele momento. Ainda não sei. Mas por algum motivo, fiquei. Olhava os vitrais, as pessoas, o altar cheio de flores em volta, umas imagens de santo. O teto alto, bem alto, fazia o som viajar bastante e te atingir por todos os lados. O que estava acontecendo ali?

– De repente todo mundo sentou e o padre lá começou a falar umas paradas que parecia que ele estava lendo. Ele estava lendo mesmo.

– Eles não fazem isso todo dia? Já não era pra ter decorado?

As palavras foram ecoando, algumas coisas que me lembravam de algo que não sei o que era. Talvez alguma coisa que minha vó falou perto de mim quando eu era criança, sei lá. Ou em algum filme que vi. Mas conforme as coisas eram ditas, minha atenção foi indo das imagens e cores pra pessoa que estava lá falando as coisas da Bíblia. Primeira leitura, uma carta lá, mas era familiar. Depois algo que o leitor falava e o povo respondia… Lá na última resposta eu respondi também, deu medo de ficar de fora. “Felizes os que temem o Senhor e trilham seus caminhos”.

– Estranho falar de TEMER ao Senhor… Quando eu falei isso, me toquei.

– Meio esquisito. Deus não é amor?

Meu amigo estava falando de outra igreja – dessa diferença eu sabia. Bom, tava na cara: a igreja que eu entrei aqui era… Sei lá, majestosa. Acho que essa é a palavra que define melhor. Quando entrei fui envolvido pelos sons e cores e ares, eu parecia muito pequeno dentro dela. Mas as palavras eram ditas… Pra mim? Como pode? Eu nunca tinha entrado ali antes. Acho que já tinha visto aquele padre num colégio. Mas não tinha como ele saber da minha vida! Depois de lerem o livro, o padre deu uns conselhos pro povo, e fazia sentido, tudinho. Depois, começou outra música, e quando eu ia começar a prestar atenção na letra, vi um pessoal colocando dinheiro num cofre lá na frente. Um cara botou dois reais.

– Dois reais não é nada hoje em dia, pô.

– Eu achava que o povo deixava mais dinheiro na igreja.

Parece que nessa aí não tinha essa pressão, não. E nem todo mundo levantou pra ir fazer isso. Mas todo mundo levantou logo depois, e dessa vez eu me forcei a prestar atenção no que estava acontecendo. Parecia que uma oferenda tinha sido feita pra Deus. Era o dinheiro do povo? Talvez. Mas o padre falou mais e mais e com um olhar diferente ele levantou a hóstia lá.

– Nessa hora eu estava ajoelhado e nem notei!

– Que isso, cara. Estava hipnotizado? Essas coisas existem, cuidado!

Depois, silêncio. Sinos. Eis o mistério. Como assim, mistério? Eu estava vendo tudo, isso não tem lógica. Ou eu não estava vendo tudo? Falou-se dos mortos, dos vivos, dos santos, do Papa, isso acontece sempre? Esse povo tá SEMPRE rezando por tudo isso? Depois teve o pai-nosso, esse eu sei inteirinho. Mas só agora eu percebi, não sei por que, o peso de cada palavra que eu estava rezando junto com o povo todo. E estava tudo ali, naquela oração que eu já tinha repetido várias vezes com minha vó! Ter o sustento de cada dia, perdoar as pessoas, ficar longe do mal. Não era pra ser só isso a vida?

– Ia ser mesmo muito mais legal se as pessoas fizessem isso sempre…

– Eu e tu também somos “as pessoas”, seu “mané”!

Depois o pessoal foi lá receber a hóstia e comê-la. Depois silêncio. Cada um na sua oração particular, me pareceu. Depois o padre terminou tudo lá e o povo saiu. Eu fiquei assistindo essa sequência de acontecimentos, quieto, em pé onde eu estava lá no fundo, como quem assiste a um filme muito bom, num momento muito bom, em que você torce pra ninguém te interromper. E ninguém me interrompeu. Eu só olhava. Cada um foi ali, deu um pouco de si, levou um pouco de Jesus. É isso? Parecia.

– Tinha umas senhorinhas lá bem velhinhas. Acho que a tua tia tava lá!

– Ela vai sempre. E me chama pra ir de vez em quando.

Pior que me deu MUITA vontade de chamar esse meu amigo pra ir lá outro dia. E também deu MUITO medo de parecer “caretão”. Mas agora eu já contei a história pra ele, convidei pra ir lá depois do trabalho amanhã, e terminei tentando colocar em palavras não a descrição dos momentos, mas o que eu senti ao estar lá. Uma mistura de volta pra casa depois de uma viagem longa e cansativa, um jantar com a família toda em volta da mesa (com uns tios e primos distantes junto), um momento de olhar pra dentro de mim mesmo e achar coisas que eu nem sabia ou lembrava que estavam lá, e uma… conversa? Com Deus? Que estranho.

– Cara, não tô entendendo direito esse jeito que você se sentiu, não.

– Então vou falar que nem o Chicó, do “Auto da Compadecida”: “Não sei, só sei que foi assim.”.

E assim foi mesmo.

 

Adriano Reis

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