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Ninguém jamais morreu assim

Querido amigo,

Acredito que vá estranhar muito o conteúdo dessa minha carta. De longe, ela é diferente de todas as outras que já enviei. Creia que só escrevo porque estou desnorteado e preciso dividir com alguém em quem confio os fatos que testemunhei e a forma pela qual eles me afetaram.

Como sabe, faz pouco mais de um ano que vivo em Jerusalém. Vim para a terra dos judeus para aprender sua sabedoria no trato dos moribundos. Nesse período fiz questão de guardar distância de suas polêmicas políticas e religiosas. E os céus sabem quantas delas existem! Esse povo é realmente único em suas crenças e revoltas.

Na última semana, ao voltar do mercado, acabei arrebatado por uma multidão que gritava em torno de um homem. Tratava-se do líder de um grupo religioso local. Pelo que entendi, os seus acreditavam que ele era o messias, uma espécie de enviado de Deus. Os que não professavam tal crença, diziam ser isso uma blasfêmia absurda. “Como ele pode se dizer Filho de Deus? Merece a morte!” – era esse o tipo de declaração que se ouvia naquele aglomerado de pessoas.

Confesso que já há algum tempo, cultivava o desejo de conversar com esse homem. Escutei relatos de grandes curas operadas por ele. Cheguei a conversar com alguém que disse ter nascido cego e ter sido curado por uma mistura de lama e saliva que esse homem haveria aplicado em seus olhos. Ouvi sobre leprosos curados e paralíticos que voltaram a andar. Mesmo que haja exageros em tais histórias, não é possível que todas tenham sido inventadas. Ao menos a do cego que mencionei, tenho convicção de que é verdadeira. Um homem que operou tal prodígio, com toda certeza, domina técnicas medicinais únicas e seria muito útil a nosso povo se eu viesse a aprendê-las.

Prestando um pouco mais de atenção às vozes, percebi que ele já havia sido condenado à morte e que o estavam levando para ser crucificado. Lamentei profundamente não ter tido a oportunidade de aprender com ele, mas resolvi acompanhar o cortejo a fim de colher mais informações e, quem sabe, conhecer alguns de seus discípulos.

Esgueirei-me por entre a multidão e consegui uma posição na qual eu poderia observá-lo. E isso foi minha perdição! Sim, caro amigo! Não consigo tirar as cenas que testemunhei de minha memória. Elas continuam voltando e voltando! E isso não se deve à brutalidade que vi. Com bem sabe, já acompanhei diversos homens a seus desfechos finais. Estive ao lado de condenados pelos homens ou pelas doenças. Sou médico e a morte é minha grande inimiga e companheira. As feridas e pústulas fazem parte do meu cotidiano. Não! Não foi a dor infligida pelos torturadores que me compungiu… Com ela estou mais que acostumado. O que retirou meu chão foi a forma como aquele homem agia frente ao que lhe acontecia. Sim, amigo, é como alguém acostumado a estar com os homens em seus últimos momentos que digo: Ninguém jamais morreu assim!

No caminho até o monte em que seria crucificado, embora o cenário fosse digno de misericórdia, não via nada de tão extraordinário. Um condenado carregando o madeiro. Tropeçou e caiu algumas vezes. O corpo ferido pela tortura não suportou o peso durante todo o caminho e ele teve que ser ajudado durante uma parte do percurso. Além disso, ele era objeto de zombaria da multidão ao seu redor. E não só dela. Os dois homens que com ele seriam crucificados também zombavam, talvez para terem uma distração do próprio tormento.

Ao chegar ao alto do monte, vi sua crucifixão. Você sabe que não sou por demais religioso e nem dado a misticismos, mas juro por nossa terra natal que, enquanto ele era pregado naquele madeiro, eu tinha a sensação de que a multidão ao redor era maior do que a que ali estava. Sentia meu já falecido pai ao meu lado, você também estava comigo. Todos de nosso clã me acompanhavam. E não só vocês. Havia uma multidão maior que as estrelas do céu. Estrangeiros de todos os lugares, os mortos e os ainda não nascidos. Fui tomado pela certeza de que cada homem de ontem, hoje ou amanhã rodeava aquela cruz.

Não me tome por louco. Mesmo que tenha deixado marcas profundas, a sensação durou apenas um momento. Se a conto aqui é para não deixar nada de fora de meu relato. Afinal, foi essa sensação que fez com que não me afastasse do monte durante as horas que aquele homem levou para morrer. Não tirei os olhos daquela cena e ainda hoje aquela cena não me sai dos olhos. Como eu já disse, ninguém jamais morreu assim.

O rosto daquele homem era carregado de sofrimento. Um grande sofrimento. Sofrimento como jamais vi. Era uma dor que parecia em muito transcender o tormento corporal que ele sofria. Para que não julgue que estou imaginando coisas, lembre que havia dois crucificados junto com ele. Um de cada lado. Isso me dava um bom parâmetro de comparação. Os olhos daquele homem traziam uma tristeza mais profunda que os maiores abismos. Parecia que toda a solidão, angústia, medo e vazio convergiam para sua alma.

Dessa alma, naquelas horas, brotaram sete frases. Mas ele não falava como um condenado. Já acompanhei vários deles. E neles testemunhei duas reações: ou clamam pela misericórdia do algoz ou o amaldiçoam e dizem ser inocentes. Aquele homem não teve nenhuma dessas atitudes. Em vez de fazer imprecações ou pedir a piedade daqueles que o matavam, ofereceu perdão a eles. Disse na língua dos judeus: “Pai, perdoa-os porque não sabem o que fazem”.

Agora, sinto que as letras não fazem justiça as palavras ditas. Naquele momento, essa frase foi carregada de uma dignidade tão grande que fez com que um dos crucificados que zombavam dele parasse no mesmo momento. E mais: o ladrão crucificado reconheceu naquele homem derrotado, e que sofria o mesmo terrível destino que ele, o messias que o povo judeu esperava. Nunca vi algo do tipo. Em vez de pedir que as autoridades o libertassem da dor, um condenado pediu a outro o paraíso. E mais: teve como resposta que o paraíso lhe seria dado.

Em outras de suas palavras, o homem pediu a um discípulo que cuidasse de sua mãe. Além disso, admitiu ter sede. Embora ele falasse com outros, essas palavras pareciam ser dirigidas a mim. Sim, a mim! Mas como pode ser possível? Sua mãe não poderia ser minha e eu não poderia saciar sua sede. Ou poderia? Oh, querido amigo… Desde aquele dia, não durmo direito pensando que devo dar alguma resposta, mas não sei qual. Tudo me soa tão absurdo e ainda assim tão verdadeiro.

Suas palavras seguintes me desnortearam mais ainda. De sua boca ouvi o brado mais fúnebre que já escutei: “Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?”. Sei que essa frase combina mais com os condenados que amaldiçoam os céus por sua sina…Mas não parecia ser o caso. De todo modo, tal declaração trazia uma solidão e um abandono que não cabem nessa carta. Nela estavam contidas todas as ausências e carências da humanidade. Era mais um lamento que uma maldição. Lamento que parecia ser também meu e por mim. Nessa hora, chorei. Chorei copiosamente, meu amigo. E não apenas por ele, mas também por mim e por ti.

Suas últimas palavras mostraram que não havia revolta no seu lamento, havia apenas entrega. “Pai, em tuas mãos eu entrego o meu espírito”. A confiança no Deus que supostamente o havia abandonado, a certeza de que Ele o recebia. Aquele homem falava não como alguém que havia sido assassinado, mas como alguém que entregava sua vida. Como alguém que, por algum motivo que não consigo explicar, aceitou o sofrimento e via significado no seu suplício. Tudo isso só foi confirmado por sua frase derradeira: Tudo está consumado!

Já se passaram alguns dias desde estes acontecimentos. E até agora não os compreendo. Ninguém jamais morreu assim. Ele morria sob tortura, mas parecia lamentar mais pelos torturadores que por si mesmo. Não se voltou contra os que o faziam sofrer, contra os que o condenaram, mas pediu por eles perdão. Se era rejeitado, ofertava acolhida. Se recebia crueldade, doava misericórdia.
Com medo de parecer por demais sentimental, digo que aqueles braços abertos na cruz pareciam uma tentativa de abraço. Um abraço que chegava a todos e cada um. Ele sofria o mais cruel dos abandonos, mas nisso parecia chamar a si todos que se sentiam abandonados.

Fiquei naquele local até o tirarem da cruz e levarem para algum túmulo. Vi sua mãe tomando nos braços seu corpo morto e alguns transeuntes com um sorriso cínico. Tive dificuldades de ir embora. Parecia que não havia lugar para ir. Odeio a morte e continuo odiando. Sou médico e luto para tirar os homens das garras daquela que encaminha a todos nós para as trevas finais. Naquele monte, estas trevas foram mais escuras do que nunca, mas aquele homem como que as tomava sobre si. Não sei como expressar isso, mas embora aparentemente obtivesse mais uma de suas vitórias, a morte parecia lutar com alguém mais forte que ela. Sim, amigo, sei que agora suspeita que fui traído pela minha imaginação. Pode ser que até tenha sido…Não sei de fato a profundidade do que ocorreu naquela sexta –feira. Só sei o que já repeti algumas vezes nessa carta: Ninguém jamais morreu assim! A morte daquele homem não soou como um término, mas, inexplicavelmente, como o mais grandioso dos começos.

Sobre Alessandro Garcia

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3 Comentários

  1. Esse conto tá incrível! Que baita reflexão!! Obrigada, Alessandro

  2. Sensacional!

  3. Uma ótica linda e profunda!

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