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O Coringa que está em nós

Como prometi em um texto anterior, continuarei tecendo alguns comentários sobre os últimos filmes do homem morcego. Hoje é a vez do segundo filme da franquia, o espetacular “Batman: o Cavaleio das Trevas”.

Antes de fazer qualquer outro comentário, quero deixar bem claro que achei este filme sensacional, maravilhoso e qualquer outro adjetivo hiperbólico que o leitor quiser escolher. Lembro-me que quando assisti o filme no cinema fiquei impactado. Vou ao cinema com freqüência, mas posso contar nos dedos de uma mão as vezes que um filme me tocou tanto quanto este. Claro que ser fã de super-heróis e assistir o melhor filme do gênero feito até o dia de hoje tem bastante peso nesta minha reação.
Em “Batman: o Cavaleiro das Trevas” vemos um novo tipo de criminoso em Gotham City, o Coringa. Falar sobre a interpretação de Heath Ledger é chover no molhado, mas é importante ressaltar que ele deu vida a uma versão bem mais enlouquecida do príncipe palhaço do crime. Este antagonista parece diferente de todos os outros que Bruce já enfrentou porque não persegue os interesses que os bandidos comuns costumam buscar. Dinheiro, por exemplo, não importa e uma pilha enorme é queimada pelo vilão.

O Coringa afirma ser um agente do caos que não faz planos. Mais uma mentira do maligno bufão. Ele é um exímio planejador e consegue prever as ações dos outros com maestria. A suposta ausência de objetivos também é falsa. Um objetivo é perseguido com afinco pelo palhaço: provar que todos são iguais a ele.

Afirmei no meu texto sobre “O Cavaleiro das Trevas Ressurge” que o grande tema trabalhado por Christopher Nolan em sua trilogia é a questão do mal. Acredito ser este segundo filme aquele no qual tal temática é mais evidente. O mal é praticamente sensível no tempo em que passamos diante da tela. Se prestarmos bem atenção chega a ser quase perturbador.

Perturbador porque o Coringa afirma ser a personificação de todos nós. Seu rosto com um sorriso cortado a faca seria uma espécie de tradução da alma humana. A bondade seria então uma mera convenção, um verniz que tapa superficialmente as profundas trevas. “Eu sou vocês e vou provar. Todo o resto é uma piada mal contada.” Resumo assim o objetivo que o Joker nega ter.

O Coringa não se julga melhor que nós, mas não quer que ninguém assim acredite ser melhor que ele. Somos loucos fora do hospício e saber isso, para ele, liberta das amarras que nos impomos por hipocrisia, que no fundo só servem para mascarar o jogo de interesses diário.
Neste contexto devemos entender o conflito com o Batman. Este é, em princípio, o oposto perfeito do Coringa. É alguém que possui valores que não negocia, ainda que isso possa parecer solucionar mais facilmente os problemas. Batman, por exemplo, não mata. Não mata nem aquele que está lançando sua amada Gotham no inferno.

O altruísmo do Morcego é reconhecido por seu rival. Aqui entra um dos pontos mais importantes da motivação do palhaço maligno. O Coringa julga que o louco é o Batman e que ele próprio é a regra. Afirmar o contrário seria assumir que seu caráter é consequência de suas escolhas. O Batman incomoda o Coringa porque mostra tudo o que ele não é. Mostrar que todos são como ele é a única forma de se aceitar, uma vez que a redenção é vista como impossível.

A estratégia do Coringa é praticamente impecável: fazer cair o cavaleiro da luz. Harvey Dent é promotor público e parece ser um dos poucos raios de honestidade em um mar de corrupção. O herói que Gotham precisa. Este bom moço é transformado em uma monstruosidade de duas caras que chega a ameaçar a vida de uma criança inocente. Aqui parece ser realizada a profecia que o próprio Dent enuncia em certo ponto do filme: “Morra como herói ou viva o suficiente para se tornar um vilão”. Embora tenha morrido ao fim do filme, parece que sua vida foi longa o bastante para o heroísmo ser perdido.

Esta vitória do Coringa, no entanto é apenas aparente. Não falo isso porque ele foi preso ao fim do filme. Prisão ou liberdade não fazem muita diferença quando a vitória que se busca é uma vitória moral ou, no caso, uma vitória sobre a moral.

A derrota do vilão não ocorre nas mãos do Batman, mas do povo de Gotham. Como fez em todos os seus três filmes, Nolan mostra a esperança sendo vitoriosa no final. Neste filme em específico isso ocorre na sensacional sequência das barcas.

Gotham está sendo evacuada e dois barcos são mostrados. Um com bandidos de uma prisão, outro com “cidadãos de bem”. Em determinado momento a voz do Coringa soa no autofalante dizendo que as embarcações serão explodidas à meia noite. A única forma de se evitar que uma delas vá pelos ares é apertando um botão que detonará os explosivos que estão na outra. Confesso que prendi a respiração quando vi as pessoas discutindo se deveriam explodir a barca que estava lotada de criminosos. Pensei se não faria o mesmo…

Se fiquei tenso quando vi um homem dizendo que ele faria o que ninguém mais tinha coragem, me senti aliviado quando ele não foi “corajoso” os suficiente para apertão o botão. Sorri quando vi o homem condenado da barca dos prisioneiros jogando o controle da bomba pela janela do barco. Naquele momento o Coringa perdeu… O povo de Gotham disse: Nós não somos como você. Reconheço que, mesmo sendo apenas um filme, devo ter soltado um “graças a Deus”.

Bom…concordo com a afirmação final do filme. Nós não somos o Coringa! Não podemos negar, no entanto, que ele está em nós. Por sorte o Batman também está. Cabe a nós escolhermos quem aflorará. A escolha é nossa e de ninguém mais.

Sobre Alessandro Garcia

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2 Comentários

  1. Anderson Dideco

    "Perturbador porque o Coringa afirma ser a personificação de todos nós. Seu rosto com um sorriso cortado a faca seria uma espécie de tradução da alma humana. A bondade seria então uma mera convenção, um verniz que tapa superficialmente as profundas trevas. (…) O Coringa não se julga melhor que nós, mas não quer que ninguém assim acredite ser melhor que ele. Somos loucos fora do hospício e saber isso, para ele, liberta das amarras que nos impomos por hipocrisia, que no fundo só servem para mascarar o jogo de interesses diário."

    Obrigado, Alessandro.
    Teu texto me fez entender melhor pq minha cena preferida do filme é aquela, inquietante e engraçada ao mesmo tempo, em que o Coringa deixa o hospital em chamas vestido de enfermeira – p mim, a mais emblemática. Abç.

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