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O dia em que a Terra parou

E se a Terra parasse? E se, letárgicos, entregues a uma rotina muitas vezes asfixiante, de repente, tivéssemos a chance, ou melhor, a obrigação de desacelerar o nosso ritmo de vida? E se fôssemos dispensados dos compromissos sociais? Ainda haveria desculpas para ignorarmos o espetáculo da vida diante dos nossos olhos? E os mistérios do castelo da nossa própria alma? Pois é, o inimaginável aconteceu! A humanidade, com toda a sua capacidade e seus feitos, recuou diante de um mísero vírus, um ser minúsculo, invisível. Temos, agora, a oportunidade de sair melhores disso.

Você bem sabe que não era incomum, antes deste momento excepcionalíssimo, dispararmos aquele famoso “vamos marcar” como resposta para as oportunidades de encontro com nossos amigos e familiares. Agora, queremos marcar e não podemos! Mas este tempo é muito propício para um outro encontro, muitas vezes indesejado e que sempre postergamos; o silêncio, o distanciamento, lembram-nos do principal encontro que precisamos ter: aquele com nós mesmos.

Certo é que é chegado o momento de olharmos para o nosso interior, na tentativa de entendermos quem somos, qual o nosso papel no mundo e a nossa meta. Sem dúvida, o “conhece-te a ti mesmo” de Sócrates nunca foi tão imperativo para as gerações mais recentes, tendo sido as desculpas mais comuns para fugirmos do encontro com as pessoas mais importantes de nossas vidas – nós próprios – repentinamente dissipadas.

Bem viver a solidão, como nos ensinam, por exemplo, o poeta Rilke e o Pe. Sertillanges, escritores tão habituados à interioridade, constitui, decerto, o primeiro passo dessa jornada pelo autoconhecimento. Se o isolamento nos retira a humanidade, esterilizando-nos, a solidão – o relacionamento com o nosso eu – bem vivida, ao contrário, nos expande, na medida em que permite, além do conhecimento do nosso interior, o trabalho daquelas questões, até então, deixadas de lado. Por que não sermos sinceros conosco, aproveitando, ainda, as falhas observadas para crescermos?

No olhar lançado sobre a própria vida, com disposição para enxergar a verdade do que somos e temos feito, examinamos a sala da nossa consciência, nos conhecemos. Neste momento de lockdown exterior, voltamos a perceber alguns de nossos porta-retratos, lembramos do armário bagunçado e daquela poeira embaixo do tapete; ou seja, reparamos naquilo que passava despercebido na correria do dia a dia, nos deparamos com qualidades nossas desconhecidas ou pouco exploradas, mas, também, com aquilo em que precisamos melhorar, como, a título de exemplo, a necessidade de sermos mais pacientes, estarmos mais presentes em nosso meio familiar, mais conectados à vida real.

A vivência do momento atual mostra que é impossível ser feliz longe da virtude e que distrações rasas, aquelas que desviam nosso olhar daquilo que, agora, a solidão evidencia, não são capazes de preencher nosso vazio. Mas comecemos pelo simples, aproveitando as diversas oportunidades que o maior tempo disponível e convívio familiar nos oferecem. Se nos falta paciência, que reservemos alguns minutos do nosso dia apenas para ouvir aqueles de nossa casa; se nos falta constância, comecemos, agora mesmo, a manter o nosso ambiente arrumado, ou coloquemos, todo dia, nossas chaves, nossos sapatos no mesmo lugar. Bem, certamente já surgiu alguma ideia na sua mente!

Anote no celular ou em uma folha as suas metas e propósitos (existem inúmeros habit trackers disponíveis na internet) e controle todos os dias. Fazendo isso, já vencerá a inércia e começará a desenvolver a virtude da perseverança. Não será muito bom, daqui a um tempo, com a vida voltando ao normal, ver que, a partir de uma situação ruim, conseguimos extrair tanta coisa boa? Urge assumir que somos seres humanos, e nossas imperfeições nos acompanharão até o túmulo, mas que, perseverando a partir das quedas, nos tornaremos indivíduos melhores. Como dizia o Pe. José Tissot, em A arte de aproveitar as próprias faltas, a perfeição, em grande parte, é fruto de recomeços (sobre esse livro, confira esse nosso texto!).

Parece que o absurdo sonho relatado por Raul Seixas na música O dia em que a Terra parou está mesmo acontecendo. Quantas vezes mais a Terra deverá parar para que percebamos estar alheios à nossa própria vida, esquecendo no nosso principal encontro? Será que, ao final disso tudo, voltaremos a esconder poeira e bagunça, a ignorar nossa consciência e a nossa missão no mundo? Quem somos nós? Quem é você?

Thaís Baltar e Adilson Brand – Oficina de Valores

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