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O erro faz sentido

Por que é difícil reconhecer que erramos? Orgulho, teimosia? Também. Mas há um problema anterior: é difícil, literalmente, reconhecer um erro, simplesmente porque o erro faz sentido. Quero dizer que por trás de todo erro há uma lógica, e é isso que o torna perigoso.

Por exemplo: dificilmente você verá alguém trocar “ç” por um “p” e escrever algo como “excepão” ou “justipa”, pois seria totalmente ilógico — o recurso a absurdos desse tipo é, geralmente, proposital e artístico, podendo ser de maior ou menor qualidade. Mas você pode ver muitas pessoas trocarem “ç” por “ss”: ambas soam da mesma forma, mas, em cada caso, só uma delas está gramaticalmente correta; a outra é um erro absolutamente coerente, mas um erro. 

Substituir os nossos erros, especialmente os habituais, por escolhas novas e mais acertadas tem a dificuldade de que, em nossas cabeças, nossas velhas escolhas fazem todo sentido. Eu poderia defender todas as minhas, por horas, diante de qualquer tribunal (sair vencedor dependeria da capacidade de quem as estivesse questionando). Eu poderia, como faço frequentemente, rebater todas as críticas e conselhos que recebo contra os meus erros, de gente muito interessada no meu bem, com uma lista de argumentos previamente pensados e estocados na ponta da minha língua. Todos muito coerentes, claro. Com eles, poderia inclusive convencer as pessoas que meus erros não são erros, estando eu mesmo absolutamente convencido disso.

Eu poderia, sim, e assim morrer abraçado com meus erros.

Justificativas e explicações. Essas são as nossas defesas contra aquele sentimento de desorientação diante do mundo quando um erro (por muito que evitemos chamar assim) nos faz questionar as nossas convicções — em busca de confirmá-las ou substituí-las. É nossa defesa contra aquele “limbo de dúvidas” que existe no caminho entre as certezas da ignorância e as certezas do esclarecimento, a travessia mais difícil que uma pessoa pode empreender.

É dessa maneira que se torna escravo de velhos esquemas de pensamentos, de preconceitos antigos, de enganos fundamentais que nos acompanham desde os princípios da formação da nossa visão de mundo. É horrível não saber, nós preferimos errar com razão.

Digo “preferimos”, mas é só modo de dizer. Na maioria dos casos, isso é algo que se dá de maneira inconsciente. Acredito que se erra muito menos por arrogância ou desonestidade do que pelo fato simples de que nossos erros fazem sentido, o que é confortável para nós. Mas a tomada de consciência sobre isso pode ser realmente revolucionária.

O conselho para fazer essa revolução pessoal é sair de si e procurar nos outros outras formas de pensar. Dificilmente encontraríamos em nós mesmos, dentro do nosso círculo (e um círculo é necessariamente fechado) de pensamento, muito lógico, o que nos esclarecesse sobre o erro na lógica dos nossos erros. Tanto quanto seria difícil chegar sozinho à conclusão de que aquele “ss” não cabe em “exceção”. Nós precisamos de quem nos aponte qual é o limite da coerência das nossas escolhas, de quem nos diga porque nosso erro é erro. Em resumo, precisamos de diálogo constante para trocar os erros, coerentes via de regra, por escolhas e convicções que, para além de fazerem todo sentido, sejam acertadas.

“Não estou preocupado com o Sr. Bernard Shaw como o homem vivo mais brilhante e um dos mais honestos; estou preocupado com ele como um herege – isto é, um homem cuja filosofia é muito sólida, muito coerente, e muito errada.” – G.K. Chesterton, sobre o debate filosófico que travava com um de seus melhores amigos.

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