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O Eterno Segundo Dia

Passado o sábado, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé compraram aromas para ungir Jesus. E no primeiro dia da semana, foram muito cedo ao sepulcro, mal o sol havia despontado. E diziam entre si: “Quem removerá a pedra do sepulcro para nós?” Levantando os olhos, elas viram os homens enviados para assegurar que o corpo do nazareno permaneceria ali. Após algum tempo de convencimento, os dois guardas, mesmo sem entender os motivos daquele rito fúnebre, ajudaram a remover a pedra que tapava o sepulcro e permitiram a entrada das mulheres.

A pedra rolou e o corpo lá estava como havia sido deixado no dia da cruz. Os ritos foram feitos e a dor da perda alimentada pelas lembranças trazidas pelo defunto. Elas saíram do sepulcro trêmulas e não falaram com ninguém. Andando com passos arrastados, elas voltaram pelo caminho que vieram. Encontraram Pedro e o jovem que Jesus amava e Madalena os disse: “Fomos ao sepulcro e os guardas retiraram a pedra. Ungimos o corpo do Senhor morto”.

Neste mesmo dia, dois discípulos caminhavam para uma aldeia chamada Emaús, distante de Jerusalém sessenta estádios. Iam falando um com outro de tudo o que se tinha passado. Eles lamentavam por Jesus ter morrido de forma tão vergonhosa. Tardos de coração, após lamentações e silêncios questionadores, quando já estavam no fim do caminho um deles tomou a palavra e disse: “A verdade é que fomos tolos de acreditar que aquele carpinteiro fosse o restaurador de Israel. Suas palavras nos enganaram e seus milagres não passavam de tramoias”. De corações frios, chegaram a Emaús.

Dias depois, estavam juntos Simão Pedro, Tomé (chamado Dídimo), Natanael (que era de Caná da Galileia), os filhos de Zebedeu e outros dois dos discípulos de Jesus. Disse-lhes Simão Pedro: “Vou pescar”. Simão, que antes era Pedro,  questionava-se porque ainda permanecia na companhia daqueles homens. Já não fazia sentido permanecer com eles.

Os outros responderam a Simão: “Também nós vamos contigo”. Enquanto caminhavam na areia, Simão lembrou-se das três vezes que negou Jesus e do olhar que recebeu de seu amigo. Seu coração apertou. Os três últimos anos haviam sido intensos e permaneciam na memória como boas lembranças. Mas ao olhar para tudo que passou, Simão sentia-se como o cego, que tocado uma vez nos olhos, via os homens como árvores.

Eles entraram na barca e durante toda a noite nada apanharam. Pela manhã, o discípulo que Jesus amava sugeriu que lançassem as redes novamente. Simão, incomodado com a tola esperança de João, ignorou pois conhecia muito bem o mar. Voltaram para a praia.

Não apenas Simão, mas também os outros, quando estavam reunidos com Maria, mãe de Jesus, e o clima fúnebre reinava, não entendiam porque nela permanecia um sorriso fácil diante de tudo que passou. Eles – a exceção de João, que os discípulos acreditavam que por ser ainda jovem estava sendo influenciado por Maria – começavam a planejar o seu futuro baseados na vida que tinham antes de Jesus.

Anos depois, Saulo ficou conhecido por perseguir alguns que insistiam em acreditar nas palavras de Jesus. Em suas cartas, que nunca foram lidas pelos Coríntios ou pelos Gálatas, relatou que alguns daqueles que diziam ter sido curados por Jesus permaneciam causando arruaças em protesto pela morte, dita injusta, do carpinteiro. Outros, que apesar de dizerem que tinham experimentado os milagres de outrora, já não lembravam-se bem e agiam com indiferença frente aos protestos. No entanto, ele relatou que não durou muito e o trabalho de perseguição logo terminou. Saulo seguiu sua vida sem passar pelo caminho de Damasco.

Em pouco tempo tudo havia voltado ao normal. Até mesmo os mais entusiastas convenceram-se que Jesus era apenas um profeta e apenas lamentavam a morte injusta. Outros nunca se recuperaram do luto. A incompreensão e a tristeza caminharam com os discípulos – à exceção de João – em suas novas velhas rotinas. Simão voltou a pesca e junto com as redes carregava o peso de ter negado junto à incompreensão da promessa.

Lembravam-se de Lázaro voltando dos mortos, daqueles que foram curados e das palavras sobre o reino dos céus. “Que Reino era esse?”, questionavam-se. À sombra da morte nada podia ser explicado, nem mesmo suas vidas.  

Aos poucos convenceram-se que o Caminho terminava na cruz, a Verdade era a antiga escravidão e a Vida era vencida pela morte. O dia que o Senhor havia feito não brilhou e eles nunca mais gritaram Aleluia.

“Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e também é vã a nossa fé.” Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios – 15, 14

A pessoa de Jesus Cristo nos presenteou com a liberdade, que é fruto da Cruz e da Ressurreição. Se negarmos um destes fatores – seja historicamente, seja existencialmente – perdemos o sentido de nossa fé e retornamos a escravidão.

 

Vicente Alves – Jornalista

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Um comentário

  1. Que texto bom! Gostei demais!

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