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O ‘outro’ é um divino mistério. Mas eu já sei disso?

Coincidência ou não – há quem não compreenda a palavra –, metade dos (com este) cinco textos que escrevi para a Oficina surgiu a partir de polêmicas nas redes sociais!

Tenho percebido que esta moderna forma de, chamemos, relacionamento dá uma espécie de contrapé em seus usuários desavisados: quando pensam estar-se protegendo por trás do “escudo virtual”, acabam por mais se revelar; “quanto maior a armadura, menor a estatura de quem se esconde dentro dela” – vide desenhos animados do Pica-Pau e similares.

Estava mesmo com intenção de escrever sobre uma esquecida virtude humana, que poucos conhecem ou a que não dão a devida importância: a BENIGNIDADE. Faltava-me, porém, o gancho. Pelo menos para mim, o “gancho” faz toda a diferença num texto. No momento em que o descubro (ou recebo do Alto?), este valioso utensílio é tal um anzol, que sai “pescando” as ideias, que nadavam dispersas pelas águas turbulentas da minha mente; e me vejo com o barco abarrotado de “peixes”! Basta, então, sentar e escrever, tentando organizar os pescados por ordem de prioridade (nem sempre com sucesso, diga-se).

No caso em questão – da BENIGNIDADE –, o mote me foi dado por uma dessas polêmicas muito comuns de acontecer nas redes sociais. Deu-se assim: uma amiga postou uma frase, que alguém lhe enviara e lhe agradou. Outro amigo se agradou também, e a comentou. Ingênuo, achei que era o caso de dar minha opinião. Afinal, pensava eu, redes sociais existem, democraticamente, para esta finalidade; concluo que estava enganado. Encurtando o caso: mesmo procurando ser delicado, ao opor minha discordância do conteúdo da frase, e apresentando os motivos, parece que eu (ao contrário da frase) não agradei.

Situações como esta me sugerem tantas considerações! Vou ver se dou conta.

Primeiro: percebo que não gostamos de ser contraditos, principalmente em “público”. É natural. Todos (uns mais, outros menos) sentimos necessidade de ser aceitos pelo(s) grupo(s) de que fazemos ou almejamos fazer parte. Nossa carência de aceitação e afeto, maior ou menor, há de fazer-nos supor que, se não concordam com o que pensamos, é porque não gostam de nós. Mas não necessariamente, concordam? (Espero que sim, rs.)

Às vezes, é justamente porque gostam de nós que nos contradizem. Para, por exemplo, nos alertar sobre determinados aspectos daquilo que cremos ou expressamos e que não estaria sendo levado em conta. Quando reagimos mal àquele pensamento contrário, aferrando-nos às nossas opiniões, fechamo-nos a possibilidades que, talvez, esclarecessem nosso pensar, ajudando-nos a decidir com mais liberdade. Mesmo que a favor do que contradizem, não é?

A segunda consideração que me ocorre é a seguinte: gostar de certas coisas, e acreditar nelas (sejam pessoas, obras, frases, pensamentos, conceitos, doutrinas, o que for!) não nos deveria impedir de ter um olhar crítico para essas mesmas coisas. Afinal, tudo é passível de reinterpretação. Vivemos sob o “reinado” do relativismo e, entanto, queremos que nossas opiniões sejam aceitas como absolutas. (Deus, único Absoluto, continua sendo questionado por muitos. Talvez alguns nem terminem de ler este texto só porque O citei!). Saber, por exemplo, que determinado pensamento provém de uma escola ou doutrina que, por sua vez, nega a fé que eu digo ter, não me obriga a discordar deste pensamento; mas deveria, ao menos, me fazer “pensar duas vezes” naquilo – o que cuido ser muito salutar.

Bem, teria muito mais a dizer; mas quero chegar na BENIGNIDADE.

Por trás de todas essas “reações” talvez esteja somente o desconhecimento, puro e simples, do que seja esta esquecida virtude (na verdade, um fruto do Espírito Santo) e o que ela significa. BENIGNIDADE não é o mesmo que bondade, como podemos pensar. Tanto que são dois frutos diferentes que recebemos do Espírito (particularmente os crismados). A bondade nos torna aptos a “fazer” o bem. Até aí, muitos vão. A particularidade daquele outro fruto é nos fazer “enxergar o bem no outro”.

BENIGNIDADE é, então, essa capacidade de esperar sempre o melhor de cada um; de não ter “o pé atrás” em relação às pessoas; de não imaginar só o pior acerca dos semelhantes. Em outros termos, é dar ao próximo o “benefício da dúvida”; aquele decantado princípio jurídico (nem sempre aplicado): “todos são inocentes, até prova em contrário”. Enfim, é não nos armarmos contra toda e qualquer atitude ou palavra que possa nos advir do outro, como se fosse um perigo iminente e escondesse alguma intenção pouco amistosa.

Tenho visto acontecer (e tenho sido vítima de) situações assim quase sempre, nas redes que frequento. Estamos “defendidos” demais, pouco propensos a ouvir (ou ler) o que outro diz/escreve sem juízos preconcebidos de valor. Jogamos na retranca – e eu nem entendo de futebol, mas é o segundo termo próprio do jargão futebolístico que uso. Pois (foi o que tentei defender, durante a dita polêmica!), de todas as coisas se tira um bem. Até do futebol.

É o fruto da BENIGNIDADE que, uma vez brotado em nosso coração, nos permitirá tornar verdade, em nossas vidas, aquelas exigentes palavras do Evangelho: “(…) amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, abençoai os que vos maldizem e orai pelos que vos injuriam. (…) O que quereis que os homens vos façam, fazei-o também a eles. (…) Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoais, e sereis perdoados; (…) porque com a mesma medida com que medirdes, sereis medidos vós também.” (trecho do Sermão da Montanha. Cfr.: Lc 6, 27-38)

Parece-nos inacreditável que Jesus nos peça uma coisa impossível dessas? Mas Ele já nos concedeu o fruto da BENIGNIDADE para que possamos exercitar esta virtude em nós.

Sim, não se preocupem: eu também já tropecei neste pedregulho, ou “já pisei nessa bola”. Talvez hoje mesmo, na polêmica que gerou meu (será que foi?) inocente comentário: posso afirmar, sem nenhuma dúvida, que não interpretei erroneamente o que me era apresentado pelos citados amigos? Acontece. Nas melhores e piores famílias, como se diz, pode ser que também indevidamente. Tiramos conclusões precipitadas, por falta de maturação (sim, é o que eu quero dizer!): falta de tempo para “maturar” a informação recebida. Negamos aos outros o beneplácito de outra chance. E perdemos a oportunidade de que nos surpreenda.

A grande vantagem de exercitarmos esse fruto da BENIGNIDADE será fazermos uma saudável autocritica de nossas reações, sobretudo as mais impulsivas. O quanto elas, na verdade, revelam de nossas intimidade e personalidade?, e que estávamos tão seguros de poder disfarçar por detrás de uma cortina de fumaça – essa falsa sensação de segurança que nos sugere a suposta informalidade ou impessoalidade das redes sociais… Perguntemo-nos. Como disse o Drummond: “sem medo da resposta pobre ou terrível” que tivermos para dar.

Em nossos relacionamentos (os que merecem de fato esse nome) não-virtuais, precisaremos nos deparar uns com os outros. Se tivermos realmente protegidos por alguns frutos e virtudes – estes que o mundo, de um modo geral, não valoriza, mas que são extremamente necessários para a boa convivência humana –, com certeza sofreremos menos cortes e escoriações a cada contato com o diferente, com o “outro”.

O outro é sempre um (divino) mistério. Mas eu já sei disso?

 

Anderson Dideco
Colaborador do blog – Pastoral da Comunicação – Paróquia de cascatinha

 

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