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O que aprendi com os quadrinhos

 

Sou leitor e colecionador de quadrinhos há pouco mais de 17 anos. Lembro a revista com que iniciei meu hobby: Homem-Aranha 149. Ela foi publicada em abril de 1995 e até hoje lembro a banca de jornal em que a comprei. Ainda frequento tal banca e o jornaleiro que lá trabalha se tornou um amigo. Infelizmente não tenho mais esta edição na minha coleção; emprestei e não me devolveram. Não importa, a revista se foi, mas a recordação permanece.

Embora tenha começado oficialmente a ler quadrinhos no ano de 1995, essa forma de arte já havia despertado meu interesse antes. Lembro que, quando criança, um vizinho do meu tio me emprestava algumas revistas em preto e branco de um personagem inspirado no Tarzan que, salvo engano, chamava-se Akin. Também tive contato com o TEX, mas o pistoleiro nunca me cativou. Logo depois encontrei um gênero de histórias que me marcaria para sempre: os quadrinhos de super-heróis.

Esse contato na infância foi breve, mas marcante. Em 1994, a então rede Manchete começou a exibir em sua programação o desenho “Cavaleiros do Zodíaco”. Assisti com afinco este anime e comecei a comprar revistas que trouxessem matérias sobre eles. A principal revista do gênero na época era a Herói. Nesta publicação havia também matérias sobre diversos outros personagens de desenhos e quadrinhos. Li todos aqueles artigos até que um dia tomei a decisão de comprar uma revista do personagem que se tornaria meu favorito: o espetacular Homem-Aranha.

Depois disso, fui lendo cada vez mais quadrinhos. Não tinha dinheiro para ler tudo que queria e, com o passar do tempo, encontrei dois amigos que gostavam como eu dos universos super-heróicos. Estabelecemos uma sociedade com cada um comprando parte dos títulos que saíam em banca. No fim do mês emprestávamos uns para os outros as revistas que havíamos comprado e todos acabavam lendo tudo. Bons tempos! Bons amigos!

Não contei este pedaço de minha vida apenas por contar. Embora me dê prazer falar sobre minha história com o hobby que tantos bons momentos me trouxe, o objetivo do presente texto não é apenas narrar minha relação com os gibis, mas dizer o que aprendi com eles. E não foi pouco…

Devo dizer que a primeira coisa que aprendi com os quadrinhos foi ler. Não que tenha sido alfabetizado com eles, mas foram através das “revistinhas” que desenvolvi a leitura como hábito. Lembro como algum tempo depois que comecei ler as “HQs” conheci um rapaz que tinha uma coleção enorme. Dele posso dizer duas coisas: seu nome era Rodrigo e era bastante generoso. Ele me emprestou literalmente centenas de revistas de sua coleção e, por isso, sempre tinha algo em estoque para ler. Nessa época aprendi a gastar, no mínimo, duas horas por dia lendo por prazer e movido apenas por minha livre escolha.

Quem me conhece sabe que amo ler; o que muitos talvez não saibam é que o Batman e o Quarteto Fantástico me prepararam para Chesterton e Aristóteles. As aventuras imaginativas me treinaram para as discussões abstratas. Não que não tivesse lido nada antes das intrigantes narrativas sobre os “supers”, mas foram os quadrinhos que me disciplinaram.

Acredito firmemente que ler é um dos grandes hábitos que podemos adquirir. Correndo o risco de repetir o que tantas vezes já foi dito e de melhores maneiras, quero afirmar que a leitura abre janelas que nos ajudam a transcender o nosso mundo. E o mais fantástico: os mundos imaginários que encontramos nos ajudam a pensar melhor a realidade em que vivemos. Não penso que ler seja útil apenas por nos trazer informações (e isso por si só já não é pouco), mas também porque acrescenta uma nova dimensão à vida.

Quando comecei a ler quadrinhos aprendi também como é fazer parte de uma minoria. Não quero que me entendam mal e julguem que penso ter sido perseguido por meu hobby. Dizer isso seria um grande exagero. No entanto, no início não conhecia ninguém que partilhasse de minha nova descoberta. Muitos diziam que aquilo era coisa de criança, outros que era algo legal, mas meio bobo, a maioria simplesmente ignorava.

Gostar de algo que os outros não valorizam pode nos fazer soberbos – e isso é um risco. Fico triste quando vejo, por exemplo, pessoas que se julgam superiores porque conhecem bem desenhos japoneses. Tal atitude acaba apenas por isolar quem a adota em um mundo minúsculo.

Apesar deste risco, penso que gostar de algo que poucos gostam é uma experiência formativa interessante. Percebo à minha volta pessoas que desejam estar sempre com a maioria e não posso dizer que esta seja uma tentação que não me ocorra algumas vezes. Estar com o todo é algo que nos garante a autoestima e dá conforto, mas que pode asfixiar e matar a personalidade. Lembro em tais situações da grande frase de Aristóteles: “Amigo de Platão, mais amigo da verdade”.

Amarmos algo a ponto de admitirmos que julgamos aquilo importante mesmo quando aqueles à nossa volta discordam de nós, significa que alguma coisa se tornou mais importante que o aplauso. E isso, meus queridos, é algo que não tem preço. Muita gente se perde porque, no fundo, não valoriza nada que não seja aprovado pela opinião dos outros. Essa escravidão da opinião alheia é uma amarra tão grande que muitos passam a vida toda frustrados apenas porque não tiveram a coragem de dizer sim quando os demais diziam não ou de dizer não quando todos bradavam sim.

Por fim, quero salientar que os quadrinhos me proporcionaram uma das minhas primeiras experiências de amizade: fiz pelo menos dois amigos por causa desse hobby. Quando, anos depois de ter comprado Homem-Aranha 149, li em “Os Quatro Amores” de C.S. Lewis que amigo é “alguém que vê a mesma verdade que você”, logo lembrei do Igor e do William – meus “sócios” no empreendimento adolescente de leitura de gibis. Nós três éramos (e somos!) muito diferentes, mas algo nos unia. Passávamos horas discutindo superpoderes e incoerências nas aventuras. Com o tempo nos tornamos íntimos e falávamos também sobre nossas vidas…

Conheci o Igor em um sebo e levamos uma bronca do dono porque ele achou que estávamos fazendo um tráfico clandestino de revistas em seu estabelecimento. O William, conheci em uma exposição não lembro de que. Recordo, no entanto que estava com uma revista na mão quando ele chegou perto de mim e disse: você gosta disso? Tempos depois um clã estava formado. E tudo isso porque um dia decidi entrar em uma banca e comprar uma revista estrelada por Peter Parker, o escalador de paredes e amigo da vizinhança.

Embora hoje veja pouco esses amigos, tenho grande consideração e agradeço a Deus por tê-los encontrado. Sua amizade me abriu a outros amigos que comigo enxergaram outras verdades e partilharam comigo outros gostos. Digo que os quadrinhos me ensinaram que amigos são feitos quando partilhamos gostos, sonhos e crenças e que mesmo as menores coisas podem levar a grandes parcerias.

Sobre Alessandro Garcia

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Um comentário

  1. Muito legal o texto Alessandro.
    Partes do texto me fazem lembrar um pouco do que passo por assistir animes e ler mangás. E também me faz lembrar dos amigos que compartilham o mesmo gosto.
    Podemos aprender muita coisa mesmo com os quadrinhos.
    E como você mesmo citou, só porque os outros não gostam deste estilo de hobby, não devemos ser soberbos e nos sentirmos superiores. Todos são diferentes e isso é mais uma coisa que difere um ser humano do outro.
    Parabéns por este texto incrível.

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