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O que é moralismo?

Hoje, eu estava lendo Chesterton e me deparei com um trecho (transcrito no final desse texto, valeria até a pena pular direto até lá) que me fez refletir mais que os outros trechos – quase todos fazem. E me fiz essa pergunta: o que é moralismo?

A leitura foi o gatilho, mas não a única causa da minha reflexão. Sou católico e, frequentemente, ouço essa acusação (“moralista!”) quando defendo minhas convicções. Na era dos slogans e dos lugares-comuns, ela tornou-se um “argumento” fácil, faça ou não sentido, porque o tom pejorativo encerra a questão: ninguém cogita concordar, defender ou sequer ouvir um moralista. Mas, de novo, o que é moralismo?

Antes mesmo de defini-lo, preciso afirmar, para não deixar dúvidas da minha posição: o moralismo é mal. O problema é que hoje rotula-se toda e qualquer defesa de uma convicção moral de “moralismo”, e os dois não são a mesma coisa.

Sabendo ser uma maneira de ver, um raciocínio entre tantos possíveis, posso seguramente afirmar que o moralismo é uma versão secular do farisaísmo. Este, de fundamento bíblico, refere-se ao fanatismo de um grupo religioso fortemente combatido por Jesus. Os fariseus eram extremistas que tratavam a Lei como um fim em si, um valor absoluto: ela deveria ser cumprida “porque sim”. Ignoravam que a razão de ser de qualquer regra, qualquer lei, qualquer norma é o bem que resulta do seu cumprimento. Quer dizer: correção moral não é fim, é meio. Jesus — profundo entendedor disso — não combate a Lei, mas combate o esvaziamento do seu sentido (Além de Chesterton, uma citação de Jesus, também colocada ao fim do texto, provocou-me recentemente a essas reflexões).

O moralismo, portanto, é isso: a regra pela regra, o costume preservado “porque sim”. Um moralista, na falta de consciência do sentido das regras de moral que defende, vai argumentar que “no meu tempo as coisas eram assim”, “de onde eu venho…”, ou “fui educado assim”, ou ainda que “está na bíblia” – há muitos moralistas dentro e fora das Igrejas, sim. Mas ele não vai saber explicar porque essas normas morais, esses costumes que pretende conservar são melhores que as inovações progressistas que se lhe opõem. Confrontado, o fariseu diria que “está na Lei”; o moralista, “é assim que as coisas têm que ser”.

A verdadeira moral tem uma razão de ser e, por isso, aponta para além de si. As regras morais são boas na medida em que resultam num bem, na maior intensidade e ao maior número de pessoas possível – quero dizer, elas tanto não são absolutas que, ocasionalmente, conflitam-se entre si, e o “tamanho” do bem que provocam é o critério da sua hierarquia. A moral analisa os muitos caminhos à frente e procura ver onde dão para escolher o melhor; não faz escolhas cegas e arbitrárias. Uma pessoa de convicção moral sabe dizer porque acredita no que acredita – você pode não concordar com ela, mas, se for honesto, saberá reconhecer que isso é bom e viabiliza o diálogo. O moralista, porque desconhece as razões, não argumenta: impõe.

Eu disse que a Lei – a regra, a norma – é boa na medida do bem que provoca. Logo, o bem é seu objetivo. E tudo o que visa o bem é amor. Quero dizer: a moral tem um sentido (o amor) e um objetivo (o bem) que dele emana. Portanto, a autêntica moral aponta para algo maior que si mesma e reconhece que se, circunstancialmente, uma das suas regras, em vez de favorecer, fere este valor maior, então há razão para exceção. O moralismo não reconhece justas exceções, nem admite exceções de natureza alguma, porque a Lei, seu deus, não prevê exceções.

Outro contraste indispensável: a moral visa o bem e, porque a ignorância é naturalmente contrária ao verdadeiro bem, a moral se dá a explicar. Ela tem razões e dá a conhecer essas razões. Argumenta e ouve, dialoga. Como dito, reconhece as exceções justas. Não impõe. A moral não é moralista: uma pretensa moral sem os porquês e consequentemente impositiva é que é moralismo.

Sou uma pessoa de convicções morais fortes. Em tempos de relativização absoluta, sinto-me seguro e norteado por elas. Não tenho medo de dizê-lo; pelo contrário, sinto dever fazê-lo. E baseado mesmo nestas convicções é que afirmo: o moralismo é essencialmente imoral, justamente porque coloca as regras morais no trono em que a moral (e suas regras como seu meio) pretende colocar o seu sentido: o amor e o bem comum a que ela aspira.

Não sei se fui útil. Se não fui, seguem as citações.

“[…] todo mundo moderno, ou pelo menos toda a imprensa moderna, tem um perpétuo e esgotante terror da pura moral. Os homens sempre tentam evitar condenar algo apenas por argumentos morais. Se eu espancar minha avó até a morte amanhã no meio de Battersea Park, podem ter certeza de que as pessoas dirão tudo sobre isso exceto o fato simples e bastante óbvio de que é algo errado. Alguns chamarão de insanidade; isto é, o acusarão de uma deficiência de inteligência. Isto não é necessariamente verdade. Vocês não poderiam dizer se foi um ato pouco inteligente ou não, a menos que conhecessem minha avó. Alguns o chamarão de vulgar, repugnante, e coisas assim; isto é, o acusarão de falta de educação. Talvez demonstre mesmo uma falta de educação; mas dificilmente é seu maior defeito. Outros falarão sobre o asqueroso espetáculo, e a cena revoltante; isto é, o acusarão de uma falta de arte ou de beleza estética. Também isso depende das circunstâncias: para ter certeza absoluta de que a aparência da velha senhora definitivamente deteriorou-se no processo de ser espancada até a morte, é necessário de que o crítico filosófico esteja bem certo de quão feia ela era antes. Outra escola de pensadores dirá que o ato é pouco eficiente: que é um desperdício pouco econômico de uma boa avó. Mas isso só poderia depender do valor, que é notavelmente um assunto individual. O único ponto real que vale a pena mencionar é que é um ato perverso, pois sua avó tem o direito de não ser espancada até a morte. Porém o jornalismo moderno tem, dessa simples explicação moral, um persistente medo. Chamará a ação de qualquer outra coisa – louca, bestial, vulgar, idiota, antes de chamá-la pecaminosa.” – G. K. Chesterton, na crônica “O garoto”.

“O sábado [a Lei] foi feito para o homem, e não o homem para o sábado” – Jesus, em Marcos 2, 27.

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