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Onde está a Pureza?

Primeiramente, peço perdão pela aparência formal deste texto. Como é o meu primeiro aqui, gostaria de tornar as coisas um pouco mais pessoais, afinal, essa reflexão surgiu a partir das observações que fiz, assim como muitos outros, nos ambientes familiares, nas universidades, nas escolas, nas ruas, nas praças, na internet, enfim. Mas talvez não seja meu estilo literário. Quero começar com um comentário acerca do resumo de um poema que muito me chama a atenção e, claro, a partir dele buscaremos a Pureza — que para alguns está escondida.

“Mirra, princesa cípria, recusa todos os seus pretendentes, pois sofre uma paixão incontrolável pelo próprio pai, Ciniras. Tendo combatido o afeto criminoso de todos os modos concebíveis, não vê solução senão matar-se. Contudo, sua antiga ama de leite interrompe seus planos e arranca dela a verdade, prometendo ajudá-la a conseguir o que deseja, para não vê-la morta. Aproveita o festival de Ceres, em que a mãe de Mirra, junto a outras matronas, abstém-se do leito conjugal, deixando o marido sozinho. Aproximando-se do rei quando o vê ébrio, a velha o persuade a receber em seu quarto uma virgem nobre, cujo nome ela falseia, para não dizer que é Mirra. Como condição, exige que tudo ocorra às escuras. Ciniras aceita e recebe a própria filha, sem reconhecê-la, mais de uma vez. Contudo, curioso por ver seu rosto, o rei esconde uma vela perto da cama, e ao utilizá-la, reconhece a filha. Tenta matá-la, mas Mirra foge na escuridão, vagando por meses até cair exausta, grávida do próprio pai, e implora que os deuses a punam com a remoção de sua essência humana. Uma divindade benigna o concede, transformando-a numa planta.” (OVÍDIO, Metamorfoses. Concreta. Pag. 226)

Os poemas na antiguidade tinham muitos papéis e, dentre eles, o mais importante para a reflexão em questão é o caráter educativo, no sentido de catarse, purificação, metanoia daquele que lia, por meio das diversas camadas de sentido que, ao longo do amadurecimento tanto espiritual quanto literário do sujeito, revelar-se-iam. Um dos poemas redigidos por Ovídio, poeta romano de 43 a. C., em sua obra Metamorfoses foi o mito de Ciniras e Mirra, cujo resumo  apresentei.

Acredito que muitos tenham sido escandalizados apenas pelo resumo do poema, e talvez se perguntem como isto nos levará à Pureza, afinal ela parece estar perdida. Em nossos tempos podemos observar uma síndrome de Mirra. Percebem o que é essencial para compreender a personagem? “Uma paixão incontrolável.” Vivemos tempos em que as pessoas vivem por essa paixão incontrolável, porém essa síndrome consegue demonstrar-se pior que os atos descritos no poema, porque ao menos Mirra, à princípio, luta contra os seus desejos e, após o erro cometido, arrepende-se e clama por piedade a alguma divindade. Infelizmente, há pessoas que nem se importam com a Pureza. Talvez por isso ela tenha se escondido.

Outro dia conversava com algumas alunas do colégio onde trabalho e falávamos sobre a ironia de um status que fora publicado por uma colega delas. Nesse vídeo, havia 3 crianças, que aparentavam ter entre 9 e 12 anos, gravando por elas mesmas um vídeo pornográfico. Obviamente fiquei escandalizado como vocês. Mas, no decorrer da conversa, eu pensava no ambiente em que essas crianças vivem. Quantos lares são hoje adeptos ao espírito da impureza? Quantos não deseducam transmitindo quase que continuamente os maus hábitos e maus pensamentos a seus filhos? De certa forma, não estamos tão diferentes de Mirra e Ciniras. Adentremos um pouco mais na mensagem escondida no poema. Ciniras aceitou o adultério que, por acaso, foi com a filha dele — mediante a devida artimanha. Ressalta-se, porém, que ele aceitou consciente de que cometeria adultério contra a sua esposa. Entretanto, percebam o valor simbólico, tão atual diga-se de passagem, agregado a esse tópico: é uma relação entre a vontade, que quer saciar os desejos do corpo, e de uma paixão desgovernada. Repita-se: isso é muito atual. Certamente o caso que citei acima aconteceu porque há um grupo de pessoas, hábitos e elementos culturais no ambiente dessas crianças, talvez até mesmo os pais, que apoiam essas atitudes, que apoiam a luxúria, que afastam a Pureza. Além disso, como diriam as línguas populares, “não há nada tão ruim que não possa piorar.” Ao final de toda essa narrativa, Mirra perde a essência humana. Vivemos em tempos tão preocupantes que as pessoas estão perdendo aquilo que as fazem humanas: a razão, a dignidade, a liberdade, o amor.

Voltemos nossas atenções a um brilho de esperança que nos cerca. No poema, uma divindade benigna concede, por piedade, o desejo à Mirra. Entretanto, sabendo que temos o Verdadeiro Deus conosco, e que Ele nos quer unidos com Ele pelo suave toque da graça, podemos voltar a encontrarmo-nos com a Pureza. “Resplandecente é a Sabedoria, e sua beleza é inalterável: os que a amam, descobrem-na facilmente. Os que a procuram encontram-na. Ela antecipa-se aos que a desejam.”(Sabedoria 6,12-13).  Se Mirra conhecesse essa doce verdade, tenho certeza que, ao primeiro sinal de tentação, ela pediria socorro ao nosso Deus e venceria o ocaso trágico de sua vida. A Pureza quer ser encontrada. Nossa missão é encontrá-la e fazer com que outros queiram encontrá-la. No Evangelho de São Mateus, Cristo é claro no discurso das bem-aventuranças. “Bem aventurados os puros de coração, porque verão a Deus.” Todo esse espírito de impureza que nos cerca, todas as ações errôneas que cometemos, principalmente quanto a esse pecado, levam-nos a uma cegueira contra Deus. Imaginem que à nossa volta existe uma luz muito mais forte que a do Sol, que não nos cega, mesmo estando tão próxima. Pelo contrário, a Luz Divina, que exige a pureza de coração, toma-nos o coração, transforma e eleva toda a nossa existência, afinal, “por todos os nossos atos Ele se interessa.” Mas apenas uma coisa pode nos afastar desse Espírito Puro de felicidade: o pecado. O mesmo pecado que cometeram Mirra e Cirinas. Não podemos nos conformar com este mundo da maneira que está. Precisamos mudar a nós mesmos e lutar para que o Espírito da Pureza e da Verdade se revele em nós com tamanha intensidade que não passe despercebido nem mesmo pelos cegos. Não esqueçamos as palavras de Santa Teresa D’Ávila: “É justo que muito custe aquilo que muito vale.”

 

Daniel Saldanha

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