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Palavras neutras

“Isso é incrível!” soa como um elogio. Mas uma coisa pode ser incrivelmente ruim; que não se possa acreditar nela, isso diz pouco ou nada da sua qualidade. Assim como todos adoram ouvir que são “únicos”, mas ser único num grupo de pessoas incrivelmente bonitas ou ricas ou boas, convenhamos, não é muito legal.

Vão na mesma lista: exclusivo, que depende do que ou quem se excluiu; ímpar, porque ter um par pode ser algo desejável; incomparável, afinal, o bizarro é bizarro porque também não encontra parâmetros; inigualável, o que pode estar em nível alto demais para se alcançar ou baixo demais para se querer descer; original, que vale pouco se partirmos do princípio de que coisas podem mudar para pior como para melhor.

Desculpem o espírito literal demais. É lógico que não ignoro os processos de significação que dão às palavras os sentidos que elas têm – afinal, sendo criações e convenções nossas, elas não têm uma natureza senão aquela que lhas damos. Não ignoro a conotação que os termos adquirem no seu uso corriqueiro. Apenas quis brincar com o fato de que facilmente se servem de palavras que são original ou literalmente neutras de maneira absolutamente retórica. Meu caso favorito: o antigo e o moderno – também nas versões “novo” e “velho”.

A aproximação de “antigo” e “antiquado”, por exemplo, é tal que se as tratam como fossem a mesma palavra. São no máximo gêmeas (parecem o mesmo, mas não são), e bivitelinas. Que algo seja antigo, isso quer dizer pouco ou nada da sua qualidade: o amor é tão antigo quanto o ódio ou a inveja, com prováveis segundos de diferença no seu nascimento. O homicídio é antigo, a amizade também. Antigo e antiquado não são o mesmo: antiquado (retrógrado, arcaico, obsoleto) é o antigo que deu errado ou não se enquadra mais: deveria ter morrido. Mas há – muito – o que seja antigo e bom.

A regra vale para “novo” (“moderno”, “atual” e afins). Não vou perder tempo explicando, se você entendeu o parágrafo anterior, entende o que quero dizer aqui. Fico apenas com o exemplo: bombas atômicas e aviões são invenções do mesmo século. Foram, incrivel e terrivelmente, associadas; mas são de qualidades totalmente diferentes.

Nem vou entrar no mérito da relatividade do tempo – para que algo de 30 anos atrás seja considerado velho e algo de 3 séculos atrás seja moderno, depende apenas da referência.

Dito isso, eu quero apenas alertar: da próxima vez que alguém argumentar contra ou a favor de algo valendo-se de que seja antigo ou moderno, velho ou novo, devolva a pergunta: “tudo bem, mas é bom ou ruim, e por quê?”. Precisamos de critérios mais objetivos que o tempo.

Sobre Gustavo Lima

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