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Pensando a solidão

Desde a infância fui relativamente solitário. Tive poucos amigos… Também foi assim até o início da adolescência. Não escrevo isso lamentando minha meninice, afinal vivi muita coisa boa e lado a lado com esses momentos de solidão consigo citar situações de companheirismo. Começo contando esse fato apenas para dizer que não tratarei do tema de hoje como alguém que fala de um escritório sobre algo que nunca viu, mas com a vitalidade da testemunha. Reconheço que, mesmo hoje cercado de pessoas que considero bons amigos, tenho dificuldade em formar vínculos.

Chega a ser clichê falar que a solidão não é causada apenas pela falta de pessoas à volta e que é possível estar cercado por uma multidão e se sentir só. Um clichê, entretanto, normalmente só veio a ser lugar comum porque guarda um forte núcleo de verdade. Qualquer pessoa que já tenha se sentido de fato sozinha pode confirmar a veracidade de tal tese. Só é possível repetir uma fórmula porque, de alguma maneira, ela funciona e explica.

Se o fato de existirem pessoas ao nosso redor não faz com que nos sintamos acompanhados, a questão que se coloca é: Qual a causa da solidão? Ou em termos mais positivos: o que faz com que alguém seja de fato uma companhia?

Lembro que uma vez, quando ainda estava no ensino fundamental, um grupo de pessoas estava fazendo uma pesquisa buscando responder a primeira das questões acima. Como método eles entrevistaram diversas pessoas de diferentes idades e procedências. A turma em que eu estudava foi selecionada para responder a questão. Até hoje lembro de minha resposta: “solidão é a sensação de que ninguém no universo se importa com você”. Hoje julgo tal afirmação um pouco simplista, mas continuo achando que contém algo de verdadeiro.

A solidão tem algo a ver com a percepção, com o notar e com o ser notado. Alguém se sente só quando não é percebido, quando passa pelos espaços como anônimo. A solidão também dói quando se é percebido de forma pejorativa, como não digno; quando se é visto a partir de limitações reais ou fictícias que parecem fazer os outros sentirem asco. Às vezes não é preciso ir tão longe, basta que nada de especial seja percebido em nós para que nos sintamos pequenos e abandonados.

Essa ausência de percepção é fruto da falta de amor. Em suma: sentimo-nos sós quando não somos amados ou quando achamos que não o somos. Costumo dizer que o amor é a qualidade humana que nos permite enxergar de verdade o outro, enxergar alguém com olhos de Deus. Quando uma mãe afirma que seu filho é muito bom, mesmo que no momento esteja agindo de forma ruim, ela o faz não porque é cega, mas porque enxerga as potencialidades que só quem ama pode ver.

Ser olhado com amor é uma necessidade. Perceber que alguém julga o mundo melhor porque existimos é uma das maiores alegrias desse mundo. No entanto, mesmo pessoas muito amadas podem se sentir solitárias. Penso que meu caso era um desses… No fundo, no fundo, queria encontrar alguém que não apenas me amasse, mas que me entendesse. Sempre tive gostos um pouco diferentes de meus amigos e embora vários deles pudessem achar legais meus hobbies, eu sentia falta de alguém que se empolgasse com eles como eu me empolgava.

Lewis dizia que um amigo é alguém que enxerga a mesma verdade que eu, ou seja, alguém que se deslumbra com aquilo com que me deslumbro. Penso que sentimo-nos verdadeiramente acompanhados não apenas quando encontramos pessoas que nos amam (embora isso seja fundamental), mas quando encontramos aqueles que amam aquilo que amamos. Muitos têm poucos amigos porque não olham para nada além da própria carência. Não é possível que alguém enxergue o mundo da mesma forma quando me recuso a olhar para qualquer coisa além de minha necessidade de pertença e afeto.

Chego, por fim, no tipo mais triste de solidão. Falei até agora daquela que é experimentada pelos não amados, resta falar sobre a sofrida pelos não amantes. Há pessoas que são sozinhas não porque não encontrem aqueles que as percebam, mas porque não percebem ninguém. Vivem a vida como se todas as demais pessoas existissem não como fins, mas como meios. Reparem que vários destes solitários estão rodeados por pessoas e podem até ser, em certos momentos agradáveis, mas não são amigos…

A solidão de quem não ama é mais triste porque é mais difícil ser rompida. Quem assim é, normalmente culpa os outros quando, por algum motivo, se vê ignorado ou sofre com uma ferida narcisista que dói todas as vezes em que um limite é exposto. Quem ama sabe que o amor não é condicionado pela perfeição e que o amado não é menos querido por ter defeitos. Saber isso liberta…

Algumas vezes a melhor maneira de se conseguir companhia é oferecer companhia. Sair de si. Vejo um pouco pela minha história que passei a me identificar mais com as pessoas quando comecei a me abrir um pouco a elas. É verdade que a experiência de ser amado nos dá condições de amar. No entanto, a mão inversa também é um caminho necessário. Termino dizendo que a sensação de que ninguém no mundo se importa conosco pode ser fruto de que não nos importamos o suficiente com ninguém mais.

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