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Por que não devo fazer tudo o que quero?

Mc Donald’s, iFood, Uber, WhatsApp, Pix, Burger King, Instagram, Tinder, Uber Eats e Telegram. Dessas dez palavras quantas você conhece? Se conhecer ao menos uma delas, venho te informar que você sabe, na prática, o que é imediatismo. Para começar, o imediatismo diz respeito a tudo aquilo que envolve uma simplificação na maneira de proceder, ou seja, é uma realização sem rodeios que oferece vantagem imediata. Podemos perceber nos dias atuais a forma rápida e simplificada com a qual resolvemos inúmeras coisas: comprar comida, pedir um carro para nos levar para diversos lugares, conhecer pessoas e conversar com elas, buscar livros, imagens e notícias. A internet e todas as tecnologias modernas possibilitaram a realização de coisas incríveis! Coisas sem as quais minha geração nem imaginaria como é viver. Porém, para a sua alegria ou tristeza, caro leitor, não entrarei no dilema dos prós e contras das tecnologias. Essa discussão pode ficar para outro momento. A reflexão que gostaria de propor hoje é a facilidade com que satisfazemos nossos desejos.

Fome, sono, tristeza, dor, angústia e solidão são algumas das sensações e emoções que não nos permitimos sentir por mais que trinta minutos. Tudo precisa ser sanado, resolvido e acabado imediatamente. São nesses momentos que recorremos aos prazeres imediatos: um momento de dor pode ser compensado por uma comida gostosa, uma roupa nova pode disfarçar a solidão, uma pessoa desconhecida pode esconder minha carência afetiva e por aí em diante. Prazeres estes que entendemos cada vez mais, muitas vezes de forma inconsciente e instintiva, como a única solução para a felicidade. O que percebemos, no entanto, são comportamentos cada vez mais ansiosos, depressivos, e uma maior dificuldade em lidar com frustrações e estabelecer relações saudáveis com outras pessoas. A constante busca pela satisfação dos nossos desejos pode intensificar nossas emoções e nos fazer entrar em um círculo vicioso pelo prazer. Passamos a agir por impulsos e tomamos as piores decisões. Jesus já nos alertava sobre isso ao questionar: “De fato, que adianta alguém ganhar o mundo inteiro, se perde a própria vida?” (Mc 8, 36).

Através deste texto, portanto, venho propor uma mudança para nós, uma mudança em nossos pensamentos e comportamentos para que nossa vida seja mais sóbria, serena e equilibrada. Mergulhado ou não nessa cultura imediatista, utilizando ou não as redes sociais, convido você a se desafiar, reduzindo a prática dos pequenos prazeres e a incluir na sua vida os pequenos sacrifícios. Antes de mais nada, quero deixar claro que não se trata de amar o sofrimento pelo sofrimento, se machucar ou causar algum tipo de dor propositalmente. Na verdade, quero te apresentar o valor de uma prática repleta de sentido: o da penitência. Se por um lado, a busca e prática dos prazeres é capaz de trazer dor, sofrimento e confusão, por outro, a prática da penitência tem o potencial de ordenar e acalmar as diversas esferas da nossa vida.

De acordo com o Catecismo da Igreja Católica, no parágrafo 1431, a penitência é “uma reorientação radical de toda a vida, um retorno, uma conversão para Deus de todo o nosso coração”, ou seja, a penitência é uma prática capaz de colocar um freio em nossa realidade desordenada. Propositalmente, hoje é o dia propício para estabelecermos penitências e o propósito dos pequenos sacrifícios. Quarta-feira de cinzas marca o início de um momento muito especial para nós: a Quaresma. Quaresma é tempo de direcionarmos nosso coração à paixão e morte de Cristo. É o momento de nos lembrarmos da morte para que, na Páscoa, nós possamos ver a vida! É exatamente por isso que a Quaresma é tempo de oração, penitência e caridade. Dessa forma, além de obedecermos aos mandamentos que a Igreja propõe para esse tempo, vamos pensar: quais são os sacrifícios que precisamos aderir em nossa vida para conseguirmos viver esse momento da melhor forma possível?

Primeiramente, precisamos estabelecer propósitos firmes de oração. Definir um cronograma de oração, rezar o terço todos os dias ou mais vezes durante a semana podem ser alternativas para alcançar novos níveis em nossa vida espiritual. Dedicar mais tempo para estar na presença de Deus é essencial para fortalecer o nosso espírito. São João da Cruz, porém, nos alerta que, para atingir o estado sublime de união com Deus, é indispensável atravessar a noite escura da mortificação dos desejos desregrados e da renúncia a todos os prazeres deste mundo. Para isso, então, iremos definir propósitos de acordo com nossos vícios e desordens tendo como objetivo principal não saciar imediatamente as nossas vontades. Se, por exemplo, tenho uma alimentação descontrolada, definir jejuns e abstinências de alimentos específicos podem me ajudar a ser mais consciente e a controlar a vontade de comer. O jejum e a abstinência nos ajudam a educar nosso corpo e nossos sentidos que muitas vezes se encontram desorientados. Se tenho sido muito consumista e penso em gastar dinheiro com muita frequência, posso passar a visitar menos os sites de compras e decidir não comprar coisas supérfluas durante a Quaresma. Se tenho gastado muito do meu tempo na internet, posso determinar horários e frequentar menos as redes sociais, e assim por diante.

Pensemos também em práticas de caridade que nos ajudarão a priorizar o próximo antes de nós mesmos: lembrar-se dos que estão doentes; ser fiel ao dízimo; dar mais atenção à família; ajudar nas tarefas domésticas; ouvir com atenção àquele que conversa comigo; doar alimentos, roupas ou livros àqueles que precisam. Esses são alguns dos propósitos que podemos e devemos cumprir como cristãos que querem amar. Por fim, não poderia deixar de falar dos acontecimentos que surgem em nossa vida e que exigem de nós sacrifício, oração, paciência e amor. Nós não escolhemos enfrentar nada disso, mas acabam se tornando grandes desafios. Devemos encarar estas situações como oportunidades para nos santificarmos ainda mais. Assim como disse São Francisco de Sales: “o que tem menos da nossa escolha é o mais agradável a Deus e proveitoso para nossa alma”.

Caro leitor, que nesta Quarta-feira de Cinzas, não nos esqueçamos de que devemos morrer para viver. Devemos morrer para os vícios, desordens, imediatismos e para tudo o que é carnal para que, ao final da Quaresma, nós encontremos a vida e a paz. São os sacrifícios realizados no presente que proporcionam edificações para o futuro e é somente pelo caminho da Cruz que alcançaremos a vitória. Que esse tempo nos faça recordar o que é eterno em nossa vida e que sem Deus nada somos.

“Lembra-te que és pó e ao pó voltarás.” (Gn 3,19)

Ana Carolina Peixoto
Oficina de Valores

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Um comentário

  1. CAROLLINE RAMOS DIAS

    Texto incrível! Realmente não podemos fazer tudo que queremos.

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