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Quando olhar para o outro se torna uma rotina

Vista do Elevado do Joá em tarde nublada
 

Poucas coisas me animam mais do que quando um simples fato rotineiro me faz pensar sobre alguma característica humana. Um dia desses, a caminho da faculdade, percebi uma tendência minha que, depois de refletir, concluí ser mais uma tendência do ser humano.

Morei em Petrópolis quase a minha vida inteira, visitando o Rio em alguns raros finais de semana do ano. Há dois anos me mudei pra lá para estudar, e logo me encantei pela cidade. Dentre muitas coisas, algo chamou a minha atenção de imediato: o caminho que faria diariamente, de casa para a faculdade. Não sei se você, leitor, já teve a oportunidade de passar pelo Elevado do Joá, que liga a Barra a São Conrado. Mesmo não conhecendo um terço do mundo, me atrevo a afirmar que está entre as vistas mais bonitas.

Nos primeiros meses do ano, não houve um só dia em que a beleza da vista tenha passado despercebida por mim. Morando há cinco meses na cidade, parecia uma turista ao passar pelo local. Chegava ao ponto de virar o pescoço para conseguir apreciar um pouquinho mais. Olhar aquele horizonte me trazia paz, presença de Deus, e estímulo para ter um bom dia, que estava só começando.

O tempo foi passando, e a minha rotina no Rio sendo firmada. E junto da rotina, o costume. Sem que eu percebesse, a beleza do lugar foi deixando de fazer aquele efeito sobre mim. Eu, mais preocupada com o cansaço e os problemas, fui permitindo que a vista se tornasse secundária durante o percurso. Para piorar, alguns dias o tempo não era dos melhores. O céu nublado camuflava a beleza, o que contribuiu para que eu fosse deixando-a de lado, pouco a pouco. O auge disso foi num ônibus lotado, quando passei pelo local de costas e só fui me dar conta um bom tempo depois.

Perguntava a mim mesma: “tantas pessoas vindo do outro lado do mundo para terem acesso a essa vista, e eu, que posso tê-la todo dia, deixei de apreciá-la?” Depois de refletir um pouco, concluí não ser um problema só meu. Imagino que o morador de Paris, que passa todo dia em frente à Torre Eiffel, tenha sofrido o mesmo processo que eu.

Não que a vista seja essencial na minha vida, ou na vida do parisiense, e que seja um crime ter deixado de admirá-la. Mas isso me fez pensar sobre os relacionamentos humanos, e sobre o quanto é semelhante o processo quando se trata do essencial.

É que acredito ser esse um dos principais problemas que enfrentamos ao lidar com o outro. Os defeitos olhados de perto, a rotina começando a pesar, os dias nublados que todos em algum momento temos que enfrentar… Deixamos constantemente que tudo isso ofusque a beleza que um dia vimos no outro, fazendo parecer que perdeu a importância.

Entenda bem… Não digo que não exista a possibilidade de realmente perder a admiração, de perceber que aquilo na verdade não era tão belo assim. Claro que existe. Mas quero chamar atenção para o fato de que às vezes a situação não é essa, e que, nesses casos, buscar novas fontes de encantamento talvez não seja a atitude mais sábia.

Será que o viajante desesperado por buscar novas paisagens, por ter deixado de achar graça nos lugares por onde já passou, sabe de fato admirar a beleza? Será que o afobado por conhecer mais e mais pessoas, por não conseguir criar laços firmes com quem convive, sabe de fato gostar de alguém? Desconfio que só saibam encantar-se. E desencantar-se.

No meu caso, percebi que o valor da vista não dependia tanto do encantamento, que tem por costume ir e vir quando bem quer. A paz, a presença de Deus, e o estímulo para ter um bom dia que ela tinha o dom de me proporcionar, continuavam ali, no mesmo lugar. Os meus olhos que haviam mudado. Olhos acostumados, rotinizados, cansados. Como quem olha sem ver, como quem vê sem reparar.

Independentemente do meu humor, agora me forço a olhar demoradamente aquela vista. Com olhos de quem se lembra de cada detalhe e da potência de bem que aquilo ainda tem para mim. Talvez não com a empolgação do primeiro dia, mas com muito mais certeza. E, dessa vez, sem ao menos ter que forçar, me vem à cabeça: “caramba, como é bonito! Que sorte eu tenho!”.

Ironicamente, sem que seja a intenção, nesse instante me vejo encantada… de novo.

 

Nathalia Melo
Estudante de Jornalismo – Amiga da Oficina de Valores

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3 Comentários

  1. É como diz Dostoievski:"A Beleza salvará o mundo." Mais um bom texto, bacana msmo.

  2. Yasmin Medeiros

    MARAVILHOSO Nathi, amei muito o texto, muito bonito! Tá escrevendo muito hein? estou admirada!

  3. Realmente muito bom! Parabéns mais uma vez Nathalia… escreva mais para o blog! rs

    Um bju

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