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Raízes da tristeza contemporânea

 

Hoje vou continuar a conversa que começamos ontem. Aqueles que leram meu último texto (clique aqui para ler) sabem que eu defendi que, apesar de tanto brilho e barulho, o mundo anda triste. Mais que isso, que o muito brilho e barulho são formas de esquecer e disfarçar a tristeza. Por que fiz questão de dizer isso? Porque acredito que o primeiro passo da cura é o reconhecimento de algo que está mal. O segundo é o diagnóstico da doença.

A tristeza não é a doença, é o sintoma. Mesmo a dor física normalmente
é apenas um sinal de um mal mais profundo. Quero pensar no que nos faz tristes, nos motivos que tornam a vida cotidiana de muitos uma espécie de hiato de insatisfação entre picos de euforia passageira.

Quais são os porquês da tristeza? Muitos de nós podemos apontar razões individuais. O rompimento de um namoro, a morte de um familiar, a doença de alguém querido. Todas essas razões nos atingem, mas não explicam o déficit de alegria e realização que a geração atual vive. A tristeza desse tipo sempre existiu. Coisas ruins sempre aconteceram… O drama atual não é termos motivos para sermos infelizes, mas sermos infelizes aparentemente sem motivo algum.

A explicação para o pano de fundo cinza por trás de nossas vidas ou para o abismo sobre o qual se erguem nossas personalidades tem que ser buscada não apenas em nossas biografias individuais, mas nos traços culturais do mundo em que vivemos. Tenho algumas desconfianças que desejo partilhar com vocês.

Somos tristes porque não temos passado nem futuro. Vivemos em uma sociedade que escolheu não se definir pela tradição. Reparem que palavras como antigo e conservador são utilizadas para desqualificar. Filhos frequentemente se dirigem aos pais dizendo que estes últimos não entendem o mundo de hoje e que estão ultrapassados.

Por um período largamos o passado para nos definirmos pelo futuro. A grande afirmação da modernidade foi que construiríamos um paraíso na terra. Marxismo, positivismo, liberalismo. Mesmo que você não saiba o que significa nenhum destes “ismos”, saiba que todos eles fizeram grandes promessas. E todos eles decepcionaram… Duas guerras mundiais, campos de concentração, pobreza crônica, diversas crises e a industrialização da morte são apenas algumas funestas concretizações de ideologias que tanto prometeram.

Reparem que esta decepção não é teórica, mas pode ser observada cotidianamente em nós e nos outros a nossa volta. Nossas ficções sobre o futuro são pessimistas. Quase todos acreditam que o mundo está piorando. Soluções são vistas como utopias…

Quando perdemos o passado e nos desesperamos em relação ao futuro só nos resta o imediato. A dor se torna insuportável quando não há crença em um futuro no qual essa dor passará. O prazer irrefreado não é um problema quando o amanhã não importa e as consequências pertencem a um futuro que pode não vir acontecer. Carpe diem quam mininum credula postero – Aproveita o dia e sê o menos confiante possível no futuro. Não sei o que Horácio diria ao ver seu adágio tal radicalmente aplicado ao mundo atual…

Somos tristes porque o consumo se tornou a categoria central da existência. Para confirmar essa tese basta olhar para nosso interior e perceber que grande parte de nossos sonhos são sonhos de aquisição de bens. Outra forma de provar tal ponto é perceber o frisson gerado por um novo produto que não será utilizado em sua totalidade e que estará obsoleto. Substituímos “o penso logo existo” de Descarte pelo “compro, logo sou” da publicidade.

Quem sou? Muitos responderão com a marca do tênis que calçam. Outros com o celular…

Somos tristes porque fugimos do sacrifício como o diabo foge da cruz. Na nossa sociedade de consumo o conforto e o prazer são imperativos. Nada maior que eles é buscado e, assim, nada maior é confortável. Uma vida confortável é algo bom, é claro, uma vida apenas confortável é bastante entediante.

Tudo que vale a pena cansa. Costumo dizer que na vida só existem duas grandes opções: o cansaço ou a frustração. Acredito não precisar frisar qual tem sido a mais escolhida…

Somos tristes porque não temos ideais pelos quais valha a pena dar a vida. Sem algo pelo que valha a pena morrer, não vale a pena viver. A alegria não é algo que vem quando buscada por si, mas que é encontrada quando nos perdemos ao buscar algo maior que nós.

Enfim…somos tristes. Poderia enumerar outras razões tão ou mais importantes que essas, mas paro por aqui. Só peço que não tomem este texto com um brado contra os outros, pois não é. Nele busco dar vazão a um exame de consciência e afirmo que estas tendências que estão no grande cosmos da sociedade se enraízam no microcosmos do meu coração…E sinto dizer: provavelmente do seu também…

Se este texto fosse minha palavra final, acredito que muitos poderiam me tomar por um desesperado. Se tudo é tão triste a solução mais óbvia parece realmente o se perder no agora mais intenso e irresponsável possível. Esta seria a resposta que eu daria se não acreditasse no homem e julgasse não existir uma reposta para nossa terrível e assombrosa sede de realização. No entanto eu acredito e amanhã volto aqui para dar razões da minha esperança.

Antes de encerrar quero mais uma vez deixar trechos de uma canção que refletem um pouco do que eu disse…Desta vez darei voz ao Cazuza, que é alguém de quem discordo das respostas, mas que parece ter vivido de forma angustiante as questões.

Meu partido
É um coração partido
E as ilusões
Estão todas perdidas
Os meus sonhos
Foram todos vendidos
Tão barato
Que eu nem acredito
Ah! eu nem acredito…

Que aquele garoto
Que ia mudar o mundo
Mudar o mundo
Frequenta agora
As festas do “Grand Monde”…

Meus heróis
Morreram de overdose
Meus inimigos
Estão no poder
Ideologia!
Eu quero uma pra viver
Ideologia!
Eu quero uma pra viver…

O meu prazer
Agora é risco de vida
Meu sex and drugs
Não tem nenhum rock ‘n’ roll
Eu vou pagar
A conta do analista
Pra nunca mais
Ter que saber
Quem eu sou
Ah! saber quem eu sou…

Sobre Alessandro Garcia

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Um comentário

  1. Anderson Dideco

    "(…) na vida só existem duas grandes opções: o cansaço ou a frustração."
    Perfeito, Alessandro. Mais uma vez, obrigado.

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