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Reflexão sobre o dia de Finados

Sinto saudades de um grande bispo, muito conhecido no Brasil, falecido há poucos meses. Dom Henrique Soares, há alguns anos atrás, por ocasião da Comemoração dos Fiéis defuntos abordou uma questão fundamental para nossa existência: a morte. Para ele, o nosso modo de enfrentar a vida depende muito do modo como encaramos a morte, e vice-versa. Lembro-me bem das quatros formas de abordar a morte, segundo a sua reflexão.

“Há aqueles – e não são poucos – que cinicamente a ignoram. Vivem como se um dia não tivessem que morrer: preocupam-se tão somente com esta vida: comamos e bebamos! Em geral, quando vão a um sepultamento, conversam o tempo todo sobre futebol, política ou quaisquer outros assuntos banais e rasteiros. São pessoas rasas, essas; pessoas que nunca pararam de verdade para se perguntar sobre o sentido da vida e, por isso mesmo, não vivem; sobrevivem, apenas! Estas, quando tiverem que enfrentar a própria morte, que vazio, que absurdo encontrarão! É o preço a pagar pelo modo leviano com que viveram a vida! Isto é triste porque quando o homem não pensa na morte, esquece que é finito, passageiro, fugaz e, assim, começa a julgar-se Deus de si mesmo e tudo que consegue é infernizar sua vida e a dos outros. São tantos os exemplos atuais…

Há ainda aqueles que diante da morte se angustiam, apavoram-se até ao desespero. A morte os amedronta: parece-lhes uma insensatez sem fim, pois é a negação de todo desejo de vida, de felicidade e eternidade que cresce no coração do homem. Estes sentem-se esmagados pela certeza de um dia ter que encarar, frente a frente, tão fria, tirana e poderosa adversária. Assim, querendo ou não, podem afirmar como Sartre, o filósofo francês – A vida é uma paixão inútil!

Há também um terceiro grupo: o dos otimistas ingênuos. Vemo-los nessas seitas esotéricas de inspiração oriental e em todas as doutrinas reencarnacionistas – esses afirmam que o mal, a doença, a morte, são apenas ilusão: a meditação, o autocontrole, a purificação contínua, podem libertar o homem de tais ilusões; o Espiritismo, proclama, bêbado de doce ilusão: A morte não existe. Não há mortos.

Há ainda um último modo de encarar a morte, segundo o saudoso bispo. Para o cristão, a morte existe sim; e dói e machuca! Não somente existe, como também marca toda a nossa existência: vivemos feridos por ela, em cada dor, em cada doença, em cada derrota, em cada medo, em cada tristeza… até a morte final. Não se pode fazer pouco caso dela: ela magoa e ameaça; desrespeita-nos e entristece-nos, frustra nossas expectativas sem pedir permissão. O cristão é realista diante da morte e sabemos: De morte, morreremos (cf. Gn II,17).

Há uma pergunta precisa a ser respondida hoje: Os seguidores de Cristo são pessimistas? A resposta é clara: Não! Sabemos que a morte é uma realidade, algo que não estava no plano de Deus, o homem não foi criado para a morte, mas para a vida. Deus não é o autor da morte, não a quer nem se conforma com ela:  enviou-nos o seu Filho, aquele mesmo que disse: Eu sou a Vida; eu sou a Ressurreição! Ele morreu da nossa morte para que nós não morramos sozinhos, mas morramos com ele e como ele, que venceu a morte. A morte, que era como uma caverna escura, sem saída, tornou-se um túnel, cujo final é luminoso. Isto mesmo: Cristo arrombou as portas da morte. Ela tornou-se apenas uma passagem, um caminho para a nossa Páscoa, nossa passagem deste mundo para o Pai: Ainda que eu passe pelo vale da morte, nenhum mal temerei, porque está comigo (cf. Sl XXIII)! Em Cristo, a morte pode ser enfrentada e vencida. Certamente, ela continua dolorosa, ela nos desrespeita; mas se no dia a dia aprendermos a viver unidos a Cristo e a vivenciar as pequenas mortes de cada momento em comunhão com Senhor que venceu a morte, a morte final será um “adormecer em Cristo”.

No angelus do dia 02 de novembro de 2014, afirma o Papa Francisco, segundo a tradição, a Igreja sempre exortou a rezar pelos finados, de maneira especial oferecendo por eles a Celebração eucarística: esta é a melhor ajuda espiritual que nós podemos oferecer pelas suas almas, particularmente, por aquelas mais abandonadas. O fundamento da oração de sufrágio encontra-se na comunhão do Corpo Místico. Como indica o Concílio Vaticano II: reconhecendo claramente esta comunicação de todo o Corpo Místico de Cristo, a Igreja dos que ainda peregrinam cultivou com muita piedade desde os primeiros tempos do Cristianismo a memória dos defuntos (Lumen Gentium – 50).

A comemoração dos finados, o cuidado pelos sepulcros e os sufrágios são testemunho de esperança confiante, radicada na certeza de que a morte não é a última palavra sobre o destino humano, porque o homem está destinado a uma vida sem limites, que encontra a sua raiz e o seu cumprimento em Deus. Desde os primeiros tempos da fé cristã, a Igreja terrena, reconhecendo a comunhão de todo o Corpo místico de Jesus Cristo, cultivou com grande piedade a memória dos mortos e ofereceu sufrágios por eles. Portanto, a nossa oração pelos defuntos é não só útil mas também necessária, enquanto ela não só os pode ajudar, mas ao mesmo tempo torna eficaz a sua intercessão em nosso benefício (cf. Catecismo da Igreja Católica – 958).

Também a visita aos cemitérios, enquanto conserva os vínculos de afeto com quantos nos amaram nesta vida, recordamos que todos tendemos para uma outra vida, para além da morte (Papa Bento XVI – 01/XI/2011). Por isso o pranto, devido à separação terrena, não prevaleça sobre a certeza da ressurreição, sobre a esperança de alcançar a bem-aventurança da eternidade – instante repleto de satisfação, onde a totalidade nos abraça e nós abraçamos a totalidade (Spe Salvi – 12). Com efeito, o objeto da nossa esperança é o júbilo na presença de Deus na eternidade. Jesus prometeu-o aos seus discípulos, dizendo: Hei-de ver-vos novamente, e o vosso coração alegrar-se-á, e ninguém vos privará da vossa alegria (Jo XVI, 22).

Que Maria, estrela da esperança, torne mais forte e autêntica a nossa fé na vida eterna e ampare a nossa oração de sufrágio pelos irmãos defuntos.

Pe. Bruno – Diretor espiritual da Oficina de Valores

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