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Resenha – “A Maturidade”

A maturidade ainda é necessária?

Quando começaram a surgir as primeiras responsabilidades que marcam o início da vida adulta comecei a tentar entender o funcionamento desse novo mundo. Ainda que involuntariamente, meu olhar se voltou para os meus pais, em como eles lidavam com o trabalho, com a vida financeira e, ainda, como manejavam habilmente questões que me pareciam desafiadoras.

Nesse processo, ouvi alguns de seus conselhos, mas outros me pareciam não aplicáveis, soavam estranhos ou rígidos demais. Por exemplo, atrasar no pagamento de uma conta é coisa a ser evitada com todo esforço. A sentença me parecia demasiado rígida e um tanto fora de época em alguns casos. Pensava eu “esse tipo de exigência fazia sentido no tempo dos meus avôs, que educaram meus pais e pra eles isso ainda faz sentido. Se eles não pagam em dia uma outra pessoa fica sem receber”. Não era necessário pagar tão em dia o meu cartão, não com a rigidez que eles exigiam. A imaturidade dos meus pensamentos me levava a concluir que os juros eram demasiados baixos para me preocupar daquela forma e, afinal, é o banco que fica sem receber, e não uma pessoa.

Não entendia que sua preocupação não era uma inocente preocupação com a saúde financeira do banco, mas sim um controle, não neurótico, mas coerente com suas responsabilidades. Tornar-se um relaxado com as contas que chegam muito provavelmente o tornará desleixado em outros pontos. Dom Rafael em seu livro sobre a maturidade nos chama a atenção para o fato de que o edifício do nosso caráter vai sendo erguido sobre as pequenas responsabilidades que se apresentam a nós. O compromisso com a palavra dada, o seguir o plano de estudos definido para o dia, acordar no horário que preciso para não me atrasar ou estar disponível aos outros que precisam de pequenas ajudas cotidianas.

Em todas essas ocasiões nos preparamos para responder à altura aos grandes desafios que são inerentes à condição humana. É simplesmente inútil ficarmos nos perguntando, como fiz em muitas ocasiões, se estaremos preparados para lidar com situações difíceis da vida como doenças, morte, exigências sacrificantes. A única coisa que realmente podemos e devemos fazer – sob pena de jogarmos nossas vidas fora – é nos prepararmos nos pequenos desafios do dia-a-dia. E acolher os grandes quando vierem.

A maturidade é essa capacidade de respondermos à altura e de maneira firme aos desafios e compromissos. E se não desenvolvemos essa capacidade em nós, ficamos a vida toda repetindo os nossos dias preguiçosos, egoístas, monótonos, onde o critério para a ação é o critério do mínimo esforço. Adiando os pequenos e grandes compromissos e perdendo as chances de felicidade. Chegar ao final desses dias – que todos nós já tivemos em algum momento – é frustrante: nada foi feito, nenhuma boa leitura, nenhuma conversa produtiva, nenhuma ajuda aos outros, mesmo que a situação tenha se apresentado. Frustração.

 Como amadurecer?

Dom Rafael, portanto, nos dá algumas pistas importantes no caminho do amadurecimento. Uma das mais importantes: saber guiar-se pelo exemplo dos mais amadurecidos que nós. Um ponto importante desse conselho é que nem todas as pessoas com mais experiências de vida (mais velhas) são capazes de transformar suas vivências em um aprendizado refletido, que procura entender os erros, os caminhos acertados, as virtudes necessárias para viver com mais excelência. Ou seja, maturidade não é uma questão meramente etária, trata-se de uma qualidade da alma.

Voltando ao ponto anterior, um esportista que treina e compete entre os melhores é levado a evoluir ainda mais sua técnica, um ambiente de trabalho com uma equipe qualificada nos faz avançar mais em nossos esforços e aprendizado. Do mesmo modo, uma das formas para o amadurecimento é estar em contato, com os ouvidos e olhos atentos, às pessoas que sofreram o processo de maturação.

Um segundo ponto importante é como utilizamos nossa memória. Um dom extraordinariamente natural que recebemos de Deus é a memória. É importante utilizá-la como ferramenta na construção de uma personalidade firme. É especialmente proveitoso ao fim de cada dia um momento de reflexão sobre a vivência dos nossos propósitos, nossa caridade, nossa oração. De outro lado, é importante perceber em que aspectos não fomos tão bem. Em que circunstâncias eu me deixei guiar pela preguiça? Em que momento lancei um olhar sensualizado e objetificador para as pessoas? Fui egoísta com o meu dinheiro ou meu tempo? Qual o caminho que percorri até me entregar ao vício que carrego e como não repetir esse processo amanhã?

O exame diário e apurado do meu dia, ao longo do tempo, ao longo dos anos, tem uma capacidade extraordinária de clarificar os aspectos mais importantes dos meus vícios e virtudes, da minha personalidade. Além disso, o diálogo com Cristo a partir desse exame – que na tradição católica é conhecido como “exame de consciência” – será capaz de lançar luzes sobre como fugir de determinados erros e avançar decididamente sobre aspectos que nos deixará felizes na medida em que nos aproxima de Deus, das pessoas e das minhas realizações humanas e espirituais.

Nossa história

O tempo é um dom precioso e o desperdício dessa riqueza que Deus nos dá gera frustração. O tempo perdido com aquele namorico nos impede de encontrar uma relação madura que realmente nos complemente. O tempo dispendido com o youtuber que fala obviedades revestidas com linguagem atrativa me faz perder as páginas do gênio literário que pode nos abrir um mundo de belezas e reflexões realmente profundas sobre minha condição humana. Quem entrega totalmente o seu tempo à meta de escalar profissionalmente jamais entenderá a profunda alegria de aliviar a dor de alguém, ou de contribuir minimamente para fazer o outro feliz e compartilhar dessa alegria que se multiplica na partilha.

Encarar a vida como um parque de diversões tem dessas desvantagens. A mulher e o homem maduros enxergam a vida como missão. Já compreenderam que a vida realizada se produz não por meio de uma satisfação egoísta, mas pela entrega da vida a uma missão de amor, em todas as suas facetas: em casa, nos relacionamentos amorosos, no trabalho, com o dinheiro, nas amizades e colocando seus talentos à serviço do outro. Missão é compromisso e este, por sua vez, é a realização que esperamos. O medo do compromisso é um dos dados alarmantes de nosso tempo, produz futilidades, superficialidades e inseguranças em larga escala.

Citando Viktor Frankl, sobrevivente dos campos de concentração e psicólogo, Dom Rafael nos lembra que o sentido de nossas vidas, a missão a que devemos responder com responsabilidade e compromisso, não é enxertada em nossa vida, como se fosse fruto de uma artificialidade e uma vontade nossa. Ao invés de uma injeção de sentido seria melhor que extraíssemos sentido de nossas circunstâncias cotidianas. Falando de maneira clara, o olhar atento para nosso dia-a-dia é capaz de nos fazer ouvir a voz de Deus. O povo de Israel entendeu desde muito cedo que Deus se manifesta ao homem dentro da história e nos fatos da vida. E é por isso que decidiu escrever sua história, por que ela também é o som da voz de Deus dirigida a um povo e a toda a humanidade.

As reflexões de Dom Rafael fazem arder nosso coração. Nos faz pensar sobre a vida e concluir: preciso amadurecer, urgentemente, não para mim, mas para os outros e para Deus!

Sobre Breno Rabello

Professor, mestrando em Sociologia pela UFRJ e integrante da Oficina de Valores desde 2008. Escreve para o blog especialmente quando “coisas ruins acontecem no mundo”, dizem as más línguas. Se assim o fosse verdadeiramente, seria o mais assíduo articulista. Ainda assim costuma desconfiar com gosto dos pessimismos exacerbados. Mas e Machado de Assis? Sim, por favor, e cada vez mais!

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