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Resenha – “Amigos de Deus”

Acostumai-vos a ver o extraordinário no ordinário

Pensar em um homem que difundiu uma espiritualidade que foi resposta às demandas do nosso tempo, principalmente pós Revolução Industrial, é escolher, entre alguns, São Josemaria Escrivá. Ele é sacerdote e fundador de uma prelazia chamada Opus Dei, que tem como missão a própria missão salvífica de toda Igreja Católica – mas com um carisma específico de santificação do cotidiano, qualquer que seja o trabalho e a situação de vida da pessoa no mundo. São Josemaria escreveu alguns livros e dentre eles usamos como base para este texto uma recompilação de dezoito de suas homilias. Esta tem por nome “Amigos de Deus” e por objetivo ajudar o leitor a viver uma amizade com Deus utilizando como referência uma série de virtudes humanas e sobrenaturais.

Para pontuarmos de início um pouco sobre a espiritualidade de São Josemaria podemos observar, despretensiosamente, como hoje há uma divergência de preferência frente à escolha entre viver algo extraordinário constantemente ou viver uma rotina ordinária. Enquanto uns optam por ter a semana permeada de surpresas, outros preferem a monotonia do que já é costumeiro. Essa diferença de gosto é muito justa e indigna de grandes argumentações, uma vez que cada ser humano difere um do outro fisiológica, psicológica e socialmente, por exemplo. Contudo, no meio dessa discussão existe ainda uma terceira possibilidade – mais, um convite! – inspirada por Deus e difundida pelo Padre: executar extraordinariamente o ordinário. Deus sendo Deus juntou aquelas duas divergências de preferência e nos mostrou, de tal modo que entendêssemos, que essa união do extraordinário com o ordinário é o Caminho. Jesus é o Caminho, a Verdade e a Vida (Jo 14, 6); por isso, comportando-nos com normalidade – como os nossos iguais – e com sentido sobrenatural, não fazemos mais do que seguir o exemplo de Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem. Reparai que toda a sua vida está cheia de naturalidade.

De fato, Jesus não possuía nenhum indício extravagante e não diferia de seus concidadãos. Inclusive Judas precisou combinar um sinal para identificá-lo – “aquele a quem eu beijar, é esse” (Mt 26, 48). São Josemaria descreve a vida normal de Jesus dizendo que foram anos intensos de trabalho e de oração, como a nossa, se o queremos, divina e humana ao mesmo tempo; naquela simples e ignorada oficina de artesão, como mais tarde diante das multidões, cumpriu tudo com perfeição. Assim, fica claro para nós que Jesus viveu extraordinariamente o ordinário, ao menos durante os trinta anos de sua vida oculta. Negligenciar a conduta do Nosso Mestre nesse longo período seria imprudente da nossa parte. Portanto, como imitadores de Cristo, somos chamados a santificar também todas as nossas ações – tanto as maiores quanto as menores, porque é próprio dos enamorados cuidar dos detalhes, mesmo nas ações aparentemente sem importância.

Sendo assim, entender que há um toque da Providência Divina em todas as nossas ocupações e ofícios é se voltar constantemente para o nosso grande chamado: a santidade. Possuir a Pátria Celeste não se reduz a um trabalho perseverante e maciço, uma vez que o próprio Adão, participante da vida divina em seu estado de santidade e justiça original – antes do pecado original – já deveria cultivar e guardar o solo (Gn 2, 15). Ou seja, o trabalho não é um castigo de Deus ao pecado, pois desde o princípio, nos planos do Senhor, o homem teria que trabalhar sempre, cooperando assim na imensa tarefa da Criação. Dessa forma, considerando como uma solicitação divina as nossas obrigações pessoais, como se cada dever diário tivesse por finalidade primeira o próprio Senhor, aprenderemos a terminar as nossas tarefas com a maior perfeição humana e sobrenatural de que formos capazes. Encarar umas horas de estudo como uma obrigação para si e para a instituição de ensino é muitíssimo justo e louvável; porém, acaso não nos dedicaríamos de forma diferente a este tempo de esforço se tomássemos a consciência de que ele é para Deus? “Pai, estou lavando esta louça para Ti”, “Jesus, farei bem este trabalho, porque é para o Senhor” ou “Espírito, esse sorriso foi para que Te conheçam” são pequenas formas de oferecimento dos nossos afazeres para Deus.

Entretanto, muitas vezes nos deleitamos na preguiça e na má vontade. No fim, acabamos por optar pelo famoso “jeitinho brasileiro” e executamos mal aquilo que o outro pôs esperança de que fosse bom.  Diante da nossa vocação universal, o outro não seria também Deus? O outro, conhecendo-nos como cristãos que zelam por uma boa conduta, não esperaria de nós um exemplo responsável? São Josemaria exorta-nos que, por amor à Deus e às almas, não escandalizemos para não causar nem a sombra suspeita de que os filhos de Deus são frouxos ou não prestam; e não sermos causa de desedificação. É falta de caridade com a Igreja nos autodeclararmos católicos e não nos esforçarmos para viver uma vida cristã autêntica. Repare que a expressão usada foi “esforçarmos para viver”, não somente “viver”, pois a luta contínua embasada na vontade humana é a marca da nossa perseverança. As pessoas identificam um coração com reta intenção de longe, um coração que se empenha para fazer o bem, mesmo que por vezes ele caia e erre. Dentro dessas pessoas, Deus está. Ele sonda a nossa vida e nos quer – “eu te redimi e te chamei pelo teu nome: Tu és meu!”, não roubemos a Deus o que é seu.

Quando compreendermos pouco a pouco que a nossa busca insaciável pela felicidade nesta Terra é obra divina, compreenderemos então que aí há um sentido. Deus sendo detentor de toda harmonia e ordem imprimiu em nossa natureza humana uma vontade que supera as realizações deste mundo. Por isso, fica claro para nós que viver tendo o Alto como objetivo é o que traz sentido à nossa existência. Fomos criados para o Paraíso. Dispormos do que somos e temos para o Reino Celeste é próprio do ser humano reconhecedor da filiação divina. Quem sabe que é filho, o sabe porque conhece os seus pais. Conhecemos a Deus e nos parecemos mais com Ele através de um encontro: a oração. Mais que um encontro, vários encontros. Porventura não observamos já que, nas famílias, os filhos, mesmo sem o perceberem, imitam seus pais, repetem os seus gestos, os seus costumes, adotam tantas vezes idêntico modo de comportar-se? A convivência faz parte da intimidade familiar. Considerando o Papa Bento XVI quando nos coloca que o cristianismo é um encontro com Cristo ressuscitado, e conforme todo o exposto neste texto, não entenderemos agora que em tudo que nos cerca há uma possibilidade de oração, de um encontro com Cristo? Portanto, sem dúvida, oferecer cada ato a Deus, como expressão da mais alta liberdade, é oferecer inteiramente a vida ao Céu; e oferecer a vida é de santos.

Acostumai-vos a ver Deus por trás de todas as coisas, a saber que Ele nos espera sempre, que nos contempla e reclama precisamente que o sigamos com lealdade, sem abandonar o lugar que nos cabe neste mundo.

Bárbara Salgado da Silva

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