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Resenha – “Os Quatro Amores: Afeição”

“Começo pelo mais humilde e mais amplamente difundido dos amores.”

 

Não é por acaso, e sim por total escolha que C.S. Lewis inicia a trajetória desta obra com o amor Afeição. A razão de tal empreitada apresenta-se em seu caráter simples, bastante presente e ordinário em nossa humanidade. E isso não quer dizer que tenha “um valor mais baixo”, pelo contrário, assim como todos os amores, tem sua magnificência.

A busca por compreender este amor nos inclina para sua etimologia: “os gregos chamavam esse amor de storge (…) ‘afeição, especialmente dos pais pelos filhos’; mas também dos filhos pelos pais.” É a característica imagem da mãe dando à luz e amamentando seu filho, o amor ao “cheiro da vida recente”. Um Amor-Necessidade dos filhos recém-nascidos, mas também do Amor-Doação da mãe. E dentro disso se encontra o paradoxo da Afeição: esta mãe dá à luz ao filho e amamenta-o não só para se doar, mas também pela sua necessidade de sobreviver e não sofrer, é um “Amor-Necessidade, mas que precisa dar. É um Amor-Doação, mas que precisa ser necessário.”

Contudo, este amor não se concentra apenas na relação entre mãe e filho, mas também na relação com qualquer tipo de coisa, pessoa ou situação. A sua parcialidade é a maior entre todos os amores e podemos dizer que quase todas as coisas, pessoas e acontecimentos podem ser objetos de Afeição, pois “ela ignora barreiras de idade, sexo, classe e instrução.” Nesta trajetória de pensamento “não é preciso haver nenhuma adequação aparente entre os unidos pela Afeição”, como a criança e o velhinho rabugento ou o professor rígido e a turma bagunceira da escola.

Porém, mesmo a Afeição sendo um amor tão aberto, é preciso seguir “seus critérios próprios”, o que nos leva a deixar de lado a preocupação do início de sua presença (como na Amizade e no Eros), pois “percebê-la é perceber que ela já existe há algum tempo”. Além disso, a “Afeição é modesta, ou mesmo furtiva e encabulada”. Diferentemente de uma amizade ou uma paixão em que há uma necessidade de as pessoas expressarem todo seu amor, o afeto entre as pessoas e as coisas se traduz nas situações humildes, particulares e discretas como “chinelos confortáveis, roupas velhas, piadas velhas”.

Há também uma característica bastante peculiar que é a de se envolver com os outros amores, de potencializá-los em suas experiências. Quando há uma combinação entre dois deles, como a Afeição e a Amizade, a experiência entre amigos se potencializa de um jeito que, mesmo estando afastados em alguns momentos da vida, há um clima de familiaridade, de “velho amigo”.

A Afeição, por não criar barreiras ou empecilhos, e adequar as diversas situações, acaba não discriminando pessoas e levando cada uma delas à convivência com as “pessoas menos promissoras”. Uma capacidade de unir pessoas que nunca estariam juntas por suas diferenças; ou aquelas que se não tivessem sido reunidas pelo destino, de modo algum conviveriam. Ela nos leva ao aprendizado de “apreciar a bondade ou a inteligência em si mesmas, e não apenas a bondade ou a inteligência condimentadas e servidas de um modo que agrade ao nosso paladar”. Quanto mais afetos carregamos em nossa vida, mais podemos expandir nossa mente para as coisas e pessoas, saindo da nossa zona de conforto. A Afeição nos ensina a “perceber, depois suportar, depois sorrir, depois gostar e finalmente a apreciar as pessoas que por acaso estão ali”.

Desse modo, podemos nos afobar e tirar a conclusão de que esse amor pode se assemelhar ao Amor-Absoluto, e não a um amor natural, pois sendo simples, inato e não discriminatório, nos leva a aceitar as pessoas, mesmo tão diferentes de nós. Contudo, diferentemente do amor divino, que é o puro bem, a Afeição carrega a característica de ser ambígua, podendo não levar à vivência das particularidades citadas até agora, pois “quando livre para seguir suas próprias inclinações, a Afeição pode aviltar e degradar a vida humana”.

A sua ambiguidade se apresenta, inicialmente, quando uma pessoa espera receber mais afeto do que dá-lo. Como um pai de família reclama da ausência de afeto de seus filhos para com ele, mas em raros momentos demostrou este afeto por eles. Isso se dá, majoritariamente, pela mentalidade errônea de que a Afeição é “algo pronto e acabado por natureza – ‘inerente’, ‘gratuita’, ‘cortesia da casa’”; que a simples presença em um lar, já me dá o direito de receber esse amor. A busca pela Afeição, no entanto, tem mais semelhança com a premissa: “se você quer ser amado, seja amável”.

Esse amor, por ser espontâneo e imerecido, exige menos formalidade em seu aspecto mais íntimo, presente, em grande parte, nos lares. O erro está em supor que a informalidade gera indelicadeza nas relações, quando, na realidade, “a Afeição, em sua melhor forma, exercita uma cortesia incomparavelmente mais sensível e profunda.” Esta cortesia exige uma etiqueta particular para cada relação, de maneira que poderemos falar ou fazer qualquer coisa para as pessoas sem “ferir, humilhar ou dominar”. Cada um de nós pode ter apelidos ou brincadeiras próprias com as pessoas da nossa convivência, mas isso tudo deve ter uma tonalidade certa e bem equilibrada.

Uma outra ambivalência da Afeição é em relação ao “velho” e “familiar”. Ao mesmo tempo que nos aproxima dos detalhes rotineiros das coisas e das pessoas, pode gerar um sentimento de “ciúme”, aquele de não querer que “os velhos rostos e hábitos familiares” mudem para novos; que aquela pessoa da família com um jeito único se transforme completamente; ou que aqueles finais de semana que tinham uma atividade própria se alterem. Toda essa novidade é vista pelos ciumentos com desinteresse, como pura bobagem. No final de contas, “a mudança é perigosa para a Afeição.”

A Afeição também pode desviar-se através do Amor-Doação. Tal situação é vista nos casos em que os pais transformam seus sacrifícios em uma “ilimitada” falsa necessidade de seus filhos por eles, ao invés de os deixarem assumir suas próprias responsabilidades, pois “a finalidade própria do ato de dar é deixar a pessoa que recebe num estado em que ela não precise mais de nossa doação.”

Deste modo, C.S Lewis nos ensina que “o amor, ao transformar-se num deus, transforma-se num demônio.” Com isso, se quisermos alcançar alguma bonança pela Afeição é necessário ter um “bom senso” com razão, pois o “mero sentimento não basta”;  uma “reciprocidade” com justiça, para “dar a cada um o que lhe é devido”; e uma “decência” com paciência, para sermos abnegados e humildes com aqueles que estão na nossa vida para permanecerem sempre nela.

 

* As citações foram retiradas do livro “Os quatro amores” de C.S. Lewis.

 

Ângelo Rodrigues – Oficina de Valores

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Um comentário

  1. Vitória Lopes

    Muuuuuito bom!

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