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Resenha – “Os Quatro Amores: Caridade”

Então, ao final de uma bela jornada no universo dos amores, Lewis nos presenteia com um aprofundamento sobre o que seria o “maior” de todos eles: a Caridade.

Os amores naturais que vimos até aqui não são suficientes. Sim, já começo com uma bomba! Mas essa afirmação só parece polêmica. Dizer que “não são suficientes” significa apenas que sozinhos eles não são capazes de trazer significado pleno às coisas amadas e aos amantes, e nem a eles mesmos! Ter atenção à realidade de cada coisa, de cada tipo de amor, e dizer o que ele pode e o que ele não pode fazer não é menosprezar – é indicar onde está a glória delas verdadeiramente. Lewis diz que “as ferramentas humanas (decência, bom-senso, etc.) não tem nenhum brilho ao lado da genialidade do amor, mas sua participação é indispensável” quando ordenadas de maneira correta, quando colocadas em seu lugar.

Cada um desses amores naturais é indigno de tomar o lugar do Amor de Deus, pois é quando se tornam deuses que os amores se tornam demônios. Cada um pode (e deve!) reinar em seu pequeno reino, na medida em que esses reinos se reportam o Imperador e o obedecem. Nesse sentido, os amores são mais altos quando se ajoelham sob a Caridade.

Bastante conhecida, a passagem do evangelho de São Lucas em que Jesus fala sobre “tomar a sua cruz e segui-Lo” deixa uma dica sobre como deve funcionar essa dinâmica do Amor em nós: “Se alguém vem a mim e não odeia/ama menos/deixa de lado/põe em segundo lugar seu pai, sua mãe, seus irmãos, sua mulher… não pode ser meu discípulo” (Lc 14, 26). Vemos aqui uma explicação do tal ordenamento. Jesus é bem claro ao dizer que devemos amar a Deus primeiro, e por isso amar as pessoas e as coisas.

Isso parece algo que nos trará segurança, pois colocar todo o nosso amor em algo que não seja eterno é pedir para sofrer por nada. “Se o amor é para ser uma bênção, ele deve ser dedicado à única pessoa que nunca morrerá”. Mas não é só isso! Não se trata de guardar todo o amor dentro do peito e não dar a nada nem a ninguém, dizendo que ama a Deus e se protegendo do sofrimento, pois quem ama vai sofrer. “Ame alguma coisa e seu coração certamente ficará apertado e possivelmente partido. O único lugar fora do céu à salvo de todos esses problemas é o inferno. ”

Novamente aqui, falamos de ordenação: aceitar os sofrimentos inerentes ao amor e oferecê-los a Deus é o que nos aproxima desse Amor. Colocá-los abaixo de Deus, e entendê-los como “desculpas” para amar mais a Deus, essa é a ordem correta do sofrimento que os amores podem (e vão!) trazer.

Então, abrir de dentro para fora essa prisão autocontida, autocentrada, e ser vulnerável às dores que esse movimento permite que aconteçam, é o que dá sentido ao amor, quando subordinado ao Amor. Mas como saber se essa subordinação está correta? Qual é o caminho para encontrar essa resposta? Dá para amar mais às coisas do que à Deus?

Lewis diz que os amores naturais, por insuficientes, não são capazes de amar algo ou alguém “demais” por si mesmos. Porém, a questão aqui não é a intensidade, mas, novamente, a ordenação. É a resposta à pergunta “A quem você serve? ”. Parece drástico, agressivo, mas é a maneira mais acertada de descobrir como as coisas estão ordenadas dentro de nós – melhor ainda seria ordenar as coisas para que a ocasião da escolha nunca precise chegar.

Por fim, voltamos ao começo. Ao falar da Caridade como Amor de Deus, o que ordena e comanda os outros amores se assim nós permitirmos, podemos nos perguntar como essa Caridade age de maneira prática – e nesse ponto voltamos aos amores tratados na introdução dessa série: amor-Necessidade e amor-Dádiva. Enquanto o amor-Dádiva se dá ao que achamos amável, a divinização disso, o amor-Dádiva sob o olhar da Caridade se permite doar ao que NÃO é amável. Essa é fácil de imaginar, concorda? Mais ainda, o amor-Dádiva divino nos permite (prepare-se!) amar a Deus dando algo pra quem não precisa de nada. Mas como? A resposta não poderia ser mais simples: Todo estranho que vestimos ou alimentamos é Cristo.

A Caridade vem divinizar o amor-Necessidade também: sabemos que precisamos uns dos outros, mas pela Graça, o reconhecimento pleno e sensato de que precisamos dos outros e de Deus não por sermos amáveis, mas por sermos dependentes disso. Há coisas em nós que não são amáveis em si mesmas, e descobrir-se necessitado de amor nessas áreas é tarefa para esse amor-Necessidade divino. Deus nos capacita a reconhecer-nos como crianças de colo diante de um pai amoroso.

Aqui percebemos como essa “entrada” do divino nos amores naturais atua como um eco da Encarnação de Jesus. “Como Deus se fez Homem ‘Não pela conversão da Divindade em carne, mas ao tomar a Humanidade em Deus’ (…) a Caridade não desaparece no amor natural, mas este é tomado por ela, e feito instrumento afinado e obediente do Amor de Deus”.

E esse processo, assim como a Encarnação teve uma morte para que houvesse uma Ressurreição, envolve também uma morte. Tudo que é desse mundo, que é natural, passará. Os amores naturais podem esperar a eternidade na medida em que se deixam tomar pela Caridade. O único elemento eterno nos amores todos é o Amor de Deus – Tudo que não é eterno está eternamente ultrapassado. Apenas a Eternidade pode dar conforto eterno, e apenas este. O Céu não pode dar conforto terreno, e a terra também não pode! No longo prazo, não existe conforto terreno.

O conforto que nos resta desejar e esperar e pelo qual lutar, por meio da ordenação dos amores naturais, é o de amar e ser amado na Eternidade pelo Autor de tudo isso, pois é quando vamos (literalmente!) matar a saudade de Deus – “Quando virmos a face de Deus, saberemos que sempre o conhecemos”. Como deixar as fotocópias e ficar com o Original, deixar de lado os riachos e ir na Fonte dessa Água – pois encontraremos tudo Nele.

Desejo a você, meu companheiro aqui no vale de lágrimas, entender que aqui tudo é perda e renúncia, é entender e amar o sofrimento, é colocar as coisas na ordem certa. É desejar de todo o coração o que não tem fim.

 

Adriano Reis – Oficina de Valores

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