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Resenha – “Os Quatro Amores: Eros”

 

Para utilizar a abordagem de C.S. Lewis sobre a temática de Eros, aplicando-a a uma sociedade marcada por amores desordenados e vazios de significado, precisamos deixar claro que o autor emprega dois termos distintos, Eros e Vênus, para identificar, ao longo do capítulo, sobre o assunto que ele está abordando. Ao discursar sobre o estado de estar apaixonado, falando sobre o amor típico entre os amantes, utiliza o termo Eros; já Vênus é caracterizado por dar significado a tudo o que é sexual, sendo o elemento carnal de Eros.

De maneira geral, o capítulo não trabalha a sexualidade humana enquanto tal, ou a semelhança que pode haver com os animais. Ela é explorada somente quando se torna “uma variante exclusivamente humana que se desenvolve no amor”. Por esse motivo, Lewis defende a ideia de que, diferente do que muitos acreditam, Vênus é consequência de Eros. Ao apaixonar-se, o que acontece primeiro é “uma prazerosa preocupação com a Amada – uma preocupação geral e indefinida com ela em sua totalidade. ” Muitas vezes a atenção não está voltada para Vênus simplesmente porque o apaixonado está ocupado demais pensando em uma pessoa. E, posteriormente, quando o elemento sexual for despertado, também será visto como algo que foi alcançado por Eros.

Diferente do desejo sexual, que almeja a coisa em si, Eros quer a Amada; ele faz com que um homem queira não uma mulher, mas uma mulher específica. De algum modo “o amante deseja a Amada mesma, e não o prazer que ela pode dar. ” Uma pessoa apaixonada não procura o amante porque fez uma estimativa e percebeu que seus abraços são mais prazerosos do que qualquer outro abraço. Se parasse para pensar, perceberia que de fato são. Mas pensar nisso já não faz parte do mundo de Eros. Sua marca é desejar a pessoa amada.

Nesse sentido, é possível perceber que Eros transforma um Prazer-Necessidade no mais apreciativo dos prazeres (para entender melhor sobre esses termos, clique aqui). No Prazer-Necessidade, vemos o objeto em relação à nossa necessidade. Em Eros, no entanto, a necessidade “vê mais intensamente o objeto como algo admirável em si mesmo, com uma importância que ultrapassa em muito sua relação com a necessidade do amante. ” O amado não é visto somente em relação a nossa necessidade dele, mas além dela, como algo admirável em si mesmo.

A essa altura podemos supor, através do que lemos ou das nossas aspirações e experiências, que Eros sempre aspira a felicidade. Mas se pararmos um instante para refletir, perceberemos que não é necessariamente assim. Provavelmente temos conhecimento de alguém que permanece num relacionamento infeliz, não porque não saiba da sua infelicidade, mas porque prefere viver assim do que deixar a outra pessoa. “Quando Eros está em nós, sua marca é justamente essa: preferimos partilhar infelicidade com a Amada que ser felizes de outro modo. (…) Essa é a grandeza e o assombro do amor. ”

É importante expor que Lewis não utiliza esse fato para incentivar o início de um mau relacionamento, afirmando, inclusive, que não há virtude nenhuma nesse feito. Ele se utiliza desse ponto para expressar que “é na grandeza de Eros que se ocultam as sementes do perigo. ” Ele pode levar tanto ao bem – desprendimento, doação, esquecimento de si –, quanto ao mal – uniões cruéis, desonestidade, traição, a infelicidade em nome do amor. Essa expressão, em nome do amor, faz com que Eros seja visto como uma autoridade; deduz-se que “Eros atenua os atos que ele provoca (…) Ele parece sancionar todas as espécies de atos que os amantes não ousariam cometer sob outras circunstâncias. ”

É inegável que Eros é, entre os amores, o que mais se parece com um deus, portanto é o que mais exige adoração. Ele tende a transformar o apaixonar-se em uma religião com normas próprias, seguida e incrementada por cada casal de apaixonados. Eros fala como um deus, mas não pode ser a própria voz de Deus. Desse modo, “não podemos prestar obediência incondicional à voz de Eros quando ele fala como um deus”, pois quando prestamos total obediência a sua voz, ele se torna um demônio. Para que Eros continue sendo Eros, “ele não pode, por si mesmo, ser o que apesar disso deve ser.” Para cumprir seu papel, precisa ser governado.

Há, no entanto, como nos apropriarmos dessa semelhança de Eros com um deus para estarmos mais próximos de Deus. Recebendo os louvores permitidos, ele poderá ser para nós um meio de acesso. “Seu total comprometimento é paradigma e exemplo do amor que devemos dedicar a Deus e aos homens. (…) Eros dá conteúdo a palavra caridade. É como se Cristo nos dissesse por meio de Eros: é assim, com essa mesma prodigalidade, sem pensar nos custos, que você deve amar a mim e ao menor dos meus irmãos. ” Para uma só pessoa, cumprimos o mandamento de amar ao próximo como a nós mesmos, sem pensar nos custos, de maneira abnegada e comprometida. Todos os apaixonados já tiveram essa experiência e nenhum de nós quer que ela acabe.

Ainda que haja esse desejo de eternidade, Lewis aborda Eros como “o mais mortal de nossos amores”, o que mais tem tendência a desaparecer. De fato, todos nós observamos e nos queixamos de sua instabilidade em relacionamentos que não duram para se tornarem um casamento e casamentos que, cada vez mais, terminam em divórcio. Mas, mesmo nessa realidade, Eros insiste em fazer juras de permanência, fidelidade e eternidade. Juras que não podem deixar de ser feitas, são sinceras! Somos convencidos, a cada nova relação, que agora é para valer, dessa vez vai. Rejeitamos a ideia de que pode ser algo transitório.

Acontece que Eros não pode cumprir sozinho essas promessas. Ele faz os votos, mas não podemos esperar que o mero sentimento faça por nós tudo o que for necessário porque seremos frustrados. Somos nós que temos que nos esforçar para cumprir essas promessas, para que nosso cotidiano se aproxime do que nos foi apresentado. “Todos os bons amantes cristãos sabem que esse plano de vida, por mais modesto que pareça, não pode ser cumprido senão com humildade, caridade e graça divina – que ele é, no fundo, a vida cristã inteira, vista de um determinado ângulo. ”

* As citações foram retiradas do livro “Os quatro amores” de C.S. Lewis.

 

Vitória Rodrigues – Oficina de Valores

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