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Resenha – “Os Quatro Amores: Introdução”

Não seria exagerado dizer que as questões relacionadas ao amor ocupam um papel central na nossa cultura. Uma prova disso está no fato de um dos textos-chaves da tradição ocidental, O Banquete, escrito por Platão, por volta de 380 a. C., versar especificamente sobre o tema. Nessa obra, o autor narra os discursos feitos por pensadores ilustres como Sócrates e Aristófanes sobre a natureza e as qualidades do amor. Tais discursos ocorreram em meio a um banquete oferecido pelo poeta Agatón.

Se muito falaram acerca do amor, é certo que os gregos não esgotaram o assunto. O amor voltou a ser citado, inquirido e explicado em diversas obras de reconhecida importância. Mesmo na Bíblia o tema é mencionado em algumas ocasiões, chegando ao extremo de ser utilizado pelo apóstolo João para designar Deus – “Aquele que não ama, não conhece a Deus, porque Deus é amor” (1 João 4,8).

Muito tempo depois de Platão e João, foi a vez do escritor e teólogo C. S. Lewis, retomando aos escritos do filósofo e do apóstolo, versar sobre o amor. E Lewis faz isso de forma magistral, em livro intitulado Os quatro amores, que tivemos a oportunidade de ler no Grupo de Leitura.

Sob um título um tanto sugestivo, Lewis apresenta as quatro maneiras pelas quais o amor pode ser percebido e comunicado: Afeição; Amizade; Eros; e, por fim, Caridade. As três primeiras maneiras são apresentadas como amores naturais. Já a Caridade, é vista como um amor Divino.

Antes de versar sobre os diferentes tipos de amores, Lewis explica que há duas formas pelas quais o amor é manifestado. São elas: o amor-Necessidade e o amor-Doação (também traduzido como amor-Dádiva). Compreender essas formas nos ajudará a entender as diferenças entre Afeição, Amizade, Eros e Caridade, que serão individualmente analisados em outros textos.

O amor-Necessidade é aquele que um filho tem pelos pais, que “empurra a criança solitária ou amedrontada para os braços da mãe”. O amor-Doação, em contrapartida, é aquele característico do pai que se doa pela família, trabalhando, planejando e poupando para que os seus tenham a melhor vida possível.

O amor humano por Deus é predominantemente um amor-Necessidade, que se evidencia à medida que, como filhos amedrontados, recorremos ao Pai nos momentos de dificuldade; naqueles instantes em que buscamos auxílio, conforto ou até mesmo o perdão por nossas faltas. O amor de Deus para conosco é um amor-Doação. Deus não tem necessidade dos homens, mas ainda assim, em toda a sua generosidade, criou a todos nós para que pudesse nos amar.

Nesse ponto, é impossível não se lembrar da relação existente entre as fases mais difíceis das nossas vidas e a busca por estreitarmos os laços com Deus. Todos conhecemos (arriscaria dizer que em primeira pessoa) histórias nas quais os indivíduos negligenciam as dádivas de Deus em fases mais brandas da vida, mas se lançam aos pés da Cruz ao menor sinal de adversidade. Lewis não ignora esse nosso comportamento, que identifica como sincero, afinal, em apuros, pedimos socorro. Quem não faria isso? O autor irlandês vai além e chega a dizer que até o diabo buscaria Deus em um momento difícil. Diante disso, é precioso lembrar que Deus, em todo o seu amor-Doação, e não por possuir qualquer necessidade de nós, está sempre disposto a nos receber de braços abertos, como o pai que recebe o filho pródigo (Luc 15,20).

Ao comemorar a nossa chegada, Deus preenche um vazio existente em nós, sara nossas feridas e aquieta os nossos corações – “Fizeste-nos para Ti e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti” (Santo Agostinho, Confissões, I-1,1).

Nesses momentos de (re)encontro, vividos de forma clara e intensa por meio dos sinais visíveis – na “certeza do perdão” após uma boa confissão ou na Presença física de Deus que se dá na Comunhão – sentimos algo que vai além daquilo que Lewis chama de “prazer-Necessidade”.

Os “prazeres”, Necessidade e Apreciativos, são descritos por Lewis como prefigurações dos amores. São sentidos em relação às coisas e não aos seres. O primeiro deles, o prazer-Necessidade, tem por característica responder a um desejo ou a uma carência. É o prazer que sentimos, quando, com sede, bebemos água. Já o prazer-Apreciativo não requer qualquer preparo. É sentido quando, por exemplo, atravessamos um campo de flores e somos surpreendidos pelo mais belo perfume.

Apesar de o autor não propor estritamente essas relações, não é difícil imaginar certa continuidade entre esses pequenos prazeres temporais e a sensação de completude que sentimos ao buscarmos um encontro mais profundo com Deus. Só Deus pode suprir nossa necessidade dEle. Mas é importante que também consigamos sentir apreciar a presença de Deus em nossos dias mais rotineiros. Agradecer a sua companhia constante e por todas as suas dádivas que das quais nos permite usufruir. Um jeito prático de fazer isso é viver plenamente uma frase que, inspirada nas obras de Santo Inácio de Loyola, é comumente repetida pelas pessoas tocadas pela Oficina de Valores: “Ver Deus em todas as coisas e todas as coisas em Deus”. Isto é, nas dificuldades, levar a Deus nossas necessidades e confiar no seu amor-Doação. Nas alegrias, agradecer a Deus por seu amor-Doação e deixarmo-nos contagiar pelo mais intenso dos prazeres-Apreciativos.

 

Rhuan Reis – Oficina de Valores

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2 Comentários

  1. Vitória Lopes

    Adorando essa série!

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