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Tolkien e a teologia dos contos de fadas

 

Tolkien é um autor que marcou gerações. Isso mesmo. No plural! Seus livros dialogaram e dialogam com pessoas de idades muito diferentes e das mais diversas crenças e convicções.  É justamente o fato de conseguido ir tão longe de seu contexto próximo que o torna um grande autor. Seus livros “falam” várias línguas e são interpretados de muitas maneiras. Mas como Tolkien entendia sua obra? Que interpretação ele dava para O Senhor dos Anéis e para o Hobbit?

Tolkien falou muito sobre seus livros. Dialogou muito com aqueles que reagiram a eles. Há, no entanto um texto, anterior à publicação de O Senhor dos Anéis, no qual ele revela sua filosofia (ou será teologia?) acerca dos contos de fadas. Trata-se de Sobre Histórias de Fadas, publicado em 1947, mas que remonta a uma conferência proferida pelo professor em 1938.

Sobre Histórias de Fadas é um texto obrigatório para todo aquele que quiser entender Tolkien e sua visão de mundo. Pode-se dizer, sem exageros, que seus livros de ficção realizam o projeto que é ali exposto. Um projeto de alguém que possui grande veneração por contos de fada e por mitologia. Alguém que considera essas histórias a realização de uma potência humana que reflete uma característica divina.

Para o católico Tolkien, o ser humano foi criado como imagem e semelhança de Deus. Isso possui diversos significados, entre eles o fato de que homens e mulheres possuem a capacidade de criação, visto que foram feitos à semelhança de um criador. Essa capacidade humana, reflexo de um atributo divino, é também um telos, uma finalidade. Em outras palavras, ao criar, o homem realiza, por assim dizer, sua essência. Ou, ao menos,  uma dimensão dela.

Apesar de não negar outras possibilidades, a criação a que Tolkien se refere é a criação literária. E nesse contexto, os contos de fadas ganham destaque. Eles seriam uma expressão máxima dessa capacidade e desse anseio criativo. No conto de fadas, nas histórias de fantasia, são criados universos distintos do mundo real, ou, para usar as palavras de Tolkien,  do mundo primário. Esses universos fantásticos apresentam  situações e criaturas diferentes daquelas que qualquer ser humano pode encontrar.  Quando são apresentados, é preciso fazer com que sejam críveis. Tais mundos criados por mentes  carecem de verossimilhança e de leis de funcionamento. Leis que deverão ser dadas por seus autores. E ao criar tais regras de funcionamento, ao apresentar as causas e consequências para seu mundo fantástico, um escritor realiza uma subcriação e vive de modo intenso sua semelhança com o Deus que estabeleceu os limites do céu e da terra.

Os contos de fada, no entanto, não são apenas consequência da imagem divina no homem. Em certo sentido, eles também falam de Deus.  Ou, em outras palavras, a estrutura de tais contos pressupõe e anuncia uma metafísica da esperança.  O final feliz, que Tolkien chamava de eucatástrofe, é algo constitutivo dos contos de fadas…Tal final não é uma afirmação da não existência do mal, afinal nessas histórias coisas terríveis acontecem. Dizer “e viveram felizes para sempre” significa apenas afirmar que a própria realidade é fundamentada na bondade e na justiça.

Essa estrutura do conto de fadas é cheia de um poder consolador. Isso, no entanto, só será algo bom se essas histórias de alguma maneira falarem da realidade. Do contrário são apenas alienação.  É exatamente nesse ponto que a teologia de Tolkien se expressa de modo mais enfático. E isso por um duplo caminho. Ele lê o cristianismo a partir dos contos de fadas, mas também lê os contos de fada a partir de sua fé cristã. Para Tolkien, Deus está na origem de tais contos, é dele que vem a capacidade criativa. O homem cria porque espelha um Criador. Mas não apenas isso… Deus também está no fim de tais contos.  Essas subcriações de algum modo revelam a estrutura do agir divino. Em poucas palavras,  para Tolkien, no centro da história há um conto de fadas real. O trecho onde ele fala sobre isso é um dos mais bonitos de Sobre Histórias de Fadas e, penso eu, não há maneira melhor de encerrar essa tentativa de síntese do que citá-lo na íntegra:

“Eu me arriscaria a dizer que, abordando a História Cristã dessa direção, por muito tempo tive a sensação (uma sensação alegre) de que Deus redimiu as corruptas criaturas-criadoras, os homens, de maneira adequada a esse aspecto da sua estranha natureza, e também a outros. Os Evangelhos contêm uma história de fadas, ou uma narrativa maior que engloba toda a essência delas. Contém muitas maravilhas – peculiarmente artísticas, belas e emocionantes: “míticas no seus significado perfeito e encerrado em si mesmo – e entre as maravilhas está a maior e mais completa eucatástrofe concebível.  Mas essa narrativa entrou para a História e o mundo primário. O desejo e a aspiração da subcriação foram elevados ao cumprimento da Criação. O Nascimento de Cristo é a eucatástrofe da história do Homem. A Ressurreição é a eucatástrofes da história da Encarnação. Essa história começa e termina em alegria. Ela tem preeminentemente a “consistência interna da realidade”. Não há conto já contato que os homens mais queiram descobrir que é verdadeiro, e não há nenhum que tantos homens céticos tenham aceitado como verdadeiro por seus próprios méritos. Porque sua Arte tem o tom supremamente convincente da Arte Primária, isto é, da Criação. Rejeitá-lo leva à tristeza ou à ira”.

(Tolkien, J.R.R, Sobre Histórias de Fadas. São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2006.)

Alessandro Garcia

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