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Uma teia de poderes e responsabilidades

Não é raro ouvir alguém dizer sobre a histórias fantasiosas frases do tipo: “mas isso não tem valor. É tudo mentira”. Esse tipo de diagnóstico cai no erro de confundir a força com a fraqueza. O poder da ficção está justamente no fato de que ela não nos convida a acreditar, mas a experimentar. Não pede que creiamos naqueles mundos ou personagens, mas que finjamos que eles existem. E nesse fingir junto somos afetados. Vivenciamos sentimentos, visualizamos horizontes, experimentamos valores.

Esse poder da ficção não é algo abstrato. Acredito que todos, se pararmos um pouco para pensar, podemos perceber a força que as histórias têm sobre nós. Eu, com toda certeza, posso! Cresci mergulhado em histórias. Séries de TV, filmes, livros e histórias em quadrinhos são elementos fundamentais na minha trajetória.

Das inúmeras histórias e personagens que me ajudaram a formar uma gramática para ler a vida, alguns se destacam. Entre eles, está o bom e velho amigão da vizinhança. Sim, isso mesmo! O Homem-Aranha! Hoje adulto, casado e pai de dois filhos consigo ler minha vida e reconhecer que o personagem de Stan Lee e Steve Ditko, além de me proporcionar horas de empolgação e aventura, foi fundamental na construção de quem sou.

Sei que, quando falo assim, parece exagero. Que uso de um recurso retórico para criar impacto com o texto. Ou então que me falta maturidade. Bom, sobre esse último ponto, acho que não posso discutir aqui. Embora eu me considere razoavelmente maduro, ninguém é bom juiz em causa própria. Sobre o primeiro, posso assegurar que quem pensa deste modo está enganado. Super-heróis possuem poderes que transcendem aqueles que são fruto de aranhas radioativas ou de soros feitos para gerar supersoldados.

Em que o Homem-Aranha me influenciou? Em primeiro lugar,  é preciso dizer que tal influência não é algo mecânico nem imediato. Eu não li um gibi e decidi que seria um herói que lutaria pelos fracos e oprimidos. Admito que se isso tivesse acontecido, meu relato seria mais emocionante. No entanto, não foi assim… O efeito das histórias, no geral, vem a conta-gotas! Eu lia os quadrinhos continuamente e neles experimentava sentimentos e valores que, paulatinamente, foram sendo sedimentados em mim.

Com o Homem-Aranha, vi que a pessoa comum poder ser herói e que o heroísmo custa. Aprendi que nem sempre fazer a coisa certa traz reconhecimento, mas que ela deve ser feita mesmo quando os aplausos não vierem.  Com Peter Parker aprendi que o ódio ao inimigo faz com que você se torne como ele. Também tive a certeza que o maior herói do mundo não era aquele que todos julgavam ser.

Tudo isso veio não como lições explicitamente dadas ou explicadas; era algo que estava contido nas histórias que educavam minha imaginação e, pouco a  pouco, ajudavam a moldar meu universo interior.  Pegar um gibi do Homem-Aranha foi, e ainda é, um escape, um momento de lazer no qual busco me perder na história. Acontece que o mergulho na ficção não é algo inócuo. Nele somos tocados. Ou seja, nessas histórias que lemos (ou ouvimos, ou vemos) sempre aprendemos algo para a história que vivemos e construímos. E aprendemos mesmo quando não vamos a elas para aprender. Talvez até mais nesses momentos.

Disse tudo isso, para poder chegar ao fim e dizer que nossas vidas são histórias construídas dia após dia. E essas histórias possuem várias matérias-primas. Uma delas provém das histórias que, seja por qual meio for, entramos em contato. Estar consciente das narrativas que nos fazem ser quem somos faz com que tenhamos um pouco mais de liberdade. Saber quais são essas histórias pode  gerar também gratidão e autocrítica.

Enfim, minha gente… Histórias têm poder! E, se Ben Parker estiver certo, por causa disso possuem também responsabilidades.

Sobre Alessandro Garcia

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