BIGtheme.net http://bigtheme.net/ecommerce/opencart OpenCart Templates
Home / Cristianismo / Uma vida pobre

Uma vida pobre

Quando falamos sobre pobreza, facilmente associamos a algo ruim, uma ausência de bens ou algum outro tipo de insuficiência. A temática desse texto, no entanto, será sob uma ótica diferente: a pobreza como uma escolha, uma decisão que demanda um desejo profundo de mudança de vida. Não se trata, portanto, de uma pobreza material, mas de uma pobreza de espírito que se apresenta a cada um de nós como uma possibilidade de melhoria.

No Evangelho de Mateus nos é apresentada a fala de Jesus sobre as bem-aventuranças:

Bem-aventurados os que têm um coração de pobre, porque deles é o Reino dos céus! Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados! Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra! Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados! Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia! Bem-aventurados os puros de coração, porque verão Deus! Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus! Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos céus! Bem-aventurados sereis quando vos caluniarem, quando vos perseguirem e disserem falsamente todo o mal contra vós por causa de mim (Mt 5, 3-11).

Como cristãos, provavelmente já lemos e ouvimos inúmeras vezes essas palavras e, como nos acostumamos muito facilmente às coisas, pode ser que não paremos para refletir sobre elas. Nesse texto teremos a oportunidade de nos aprofundarmos um pouco mais em pelo menos uma, a pobreza de coração, também chamada pobreza espiritual.

Essa pobreza espiritual é a primeira apresentada por Jesus como uma bem-aventurança, dando o Reino dos Céus como recompensa aos pobres. Por ser a primeira, ela é a origem de todas as outras, pois cada uma das seguintes exige certa forma de pobreza de coração, o que a torna essencial para qualquer pessoa que queira ter uma vida mais rica de significado. E o que é essa pobreza, afinal? Jacques Philippe, meditando sobre as bem-aventuranças em seu livro “A felicidade onde não se espera”, trata a pobreza de coração como a chave da vida espiritual. Ao nos aprofundarmos no tema, haveremos de concordar com ele.

Para nos tornarmos pobres de coração, antes de tudo, é preciso reconhecer e aceitar nossa pequenez e nossos limites, nossas imperfeições e fraquezas, colocando nossa esperança não em nós mesmos (o que será mais fácil quando, de maneira sincera, analisarmos nossas dificuldades), mas em Alguém perfeito; é preciso estar disposto a morrer para si e contar exclusivamente com Deus. Isso não significa, no entanto, que devemos nos negar a crescer ou nos acomodar em nossa pequenez, mas tirar proveito dos nossos limites para colocar no Senhor nossa esperança de mudança.

A pobreza de coração também exige desprendimento de nossos planejamentos, o que pode ser um grande desafio quando o que queremos é sempre controlar e ter domínio sobre tudo. O pobre de espírito é consciente de que não é possível ter domínio sobre as coisas e, por isso, não se frustra com as privações da vida, mas as aceita. Isso não significa que não temos poder de escolha ou que não devemos tentar reverter as situações negativas em que nos encontremos, mas que tudo isso deve ser feito baseado na aceitação das situações que estamos passando. E nem sempre as contrariedades serão penosas. Inúmeras vezes nos deparamos com situações que não desejamos, mas que no fim se mostraram grandes oportunidades.

Ao buscar viver a pureza de coração, precisamos entender que a experiência de reconhecimento e aceitação não diz respeito somente a nós, mas se estende aos que estão ao nosso redor. A pobreza espiritual exige de nós um olhar de misericórdia para com o outro, vendo-o como uma pessoa que também tem limites e imperfeições, como nós. Essa nova visão lançada ao outro possibilita uma maior abertura ao perdão e à generosidade. Aquele medo de ser julgado, a mesquinhez de calcular cada minuto dedicado a ajudar alguém ou a contabilidade de cada centavo doado são deixados de lado e, em todo esse processo, vamos nos aprimorando na virtude da humildade.

Outro ponto importante é o desprendimento de bens materiais. Isso não significa necessariamente viver com o mínimo, mas não fazer de nenhum bem uma segurança. Temos grandes exemplos de santos e santas que tinham condições financeiras bastante favoráveis, mas entenderam que sua segurança não estava nisso. Precisamos acolher o que nos é dado – bens materiais, formação, amizades, qualidades – mas não podemos fazer disso um suporte que sustenta nossa vida. Nossa segurança e apoio definitivos estão na misericórdia de Deus. Nesse sentido, é importante pontuar que pobreza não significa miséria. Tanto a miséria espiritual, quanto a material precisam ser combatidas e não romantizadas.

Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus podem ser palavras simples, muitas vezes repetidas e talvez até memorizadas por nós, mas isso não diminui em nada seu significado. Que possamos nos propor a mudar de vida e nos dediquemos para que, a cada conquista que tivermos nessa caminhada rumo a pobreza de coração, saibamos dar graças a Deus, lembrando sempre que tudo o que temos pertence ao Senhor, que não temos domínio sobre nada, e repetir humildemente que somos servos inúteis e fizemos o que devíamos fazer.

Finalizo com as conhecidas palavras de Santa Teresinha, que tão bem soube viver a pobreza, que resumem essa reflexão nos lembrando que o que agrada a Deus é ver-me amar minha pequeneza e minha pobreza, é a esperança cega que tenho em sua misericórdia.

Vitória Rodrigues

Oficina de Valores

Sobre Oficina de Valores

Veja Também

Doze Homens e um Grande Segredo

“Naqueles dias, Jesus foi à montanha para orar. Passou a noite toda em oração a ...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *