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Vamos de novo!

Dificilmente acolhemos bem uma dica para a nossa vida se não pedimos por ela. Costuma soar mal. A internet criou esse super efeito de que precisamos opinar e dar dicas em tudo, então encontramos aqui um monte delas, de todos os tipos e “sabores”. Mas em compensação perdemos dicas preciosas por estarmos enjoados de recebê-las, as quais não pedimos. Se você começou a ler esse texto é porque está aberto a ouvir algo, mesmo que seja uma dica. Porém espero fazer uma reflexão mais profunda, que também cabe a mim.

Durante essa longa estadia em casa, por causa da pandemia, em inúmeros dias eu tive a sensação de estar vivendo um dia igual ao anterior. Em tantos outros eu nem sabia em qual dia me encontrava, os dias ficaram monótonos. Apenas eu que me senti assim? Claro que isso não aconteceu no princípio, mas sim depois de algum tempo repetindo o modelo de vida novo, que se tornou velho agora depois de um ano, sem mudanças bruscas e alterações – não só de maneira externa, a vida foi perdendo o tempero, tornando-se morna para mim em alguns dias.  Já comeram comida de hospital sem sal? É horrível! Com a vida não poderia ser diferente. Não nascemos para viver uma vida sem sentido, na inércia, nossa vida é movimento.

O que estou fazendo aqui não é uma crítica ao monótono, mas sim à monotonia dentro de nós, pois se temos um sentido para onde caminhar, não tem porque ficar parado, é perda de tempo. Vou apresentar um trecho de um livro do G. K. Chersteton, “Ortodoxia”, que vai ilustrar bem onde eu quero chegar:

“Uma criança balança as pernas ritmicamente por excesso de vida, não pela ausência dela. Pelo fato de as crianças terem uma vitalidade abundante, elas são espiritualmente impetuosas e livres; por isso querem coisas repetidas, inalteradas. Elas sempre dizem: ‘Vamos de novo!’; e o adulto faz de novo até quase morrer de cansaço. Pois os adultos não são fortes o suficiente para exultar na monotonia”.

Ciclicamente na liturgia católica chegamos de novo na Quaresma, tempo em que somos chamados à mudança e conversão, o total oposto daquela vida apática e sem sentido que se acostumou com o mesmo. Todo ano repetimos, de forma inalterada, esse período como alerta para observar se estamos na direção certa, para voltarmos atrás, talvez até a uma característica de criança, de quem se maravilha com a repetição de algo que ama fazer, de se maravilhar com a vida ou se estamos estagnados. Como viver bem esse período, que já vivemos há muito tempo, sem ser de forma morna?

A primeira resposta dessa pergunta já foi dada nesse texto. É preciso ter um sentido maior na nossa vida, ter um propósito pelo qual vivermos. Assim será fácil perceber em qual nova direção seguir, ou dar sabor ao caminho que precisa ser trilhado, para que voltemos a caminhar em direção ao nosso sentido maior. A seguir, é preciso analisar a nossa realidade, ver o que palpavelmente, na prática, deve e pode ser mudado. O nosso propósito maior sempre vai conduzindo a fidelidade dos pequenos momentos no nosso simples cotidiano. O que me lembra de uma frase de Santa, mãe e médica, Gianna Bereta Molla, que diz o seguinte:

“Não são as grandes penitências (propósitos) que fazem santas as almas; o verdadeiro sacrifício é aceitar a cruz com amor, com alegria e com resignação. Amamos a cruz e lembramo-nos de que não estamos sós a levá-la, mas Cristo que nos ajuda; com Ele que nos conforta, tudo podemos.”

Amor, alegria e aceitação. São essas as palavras que devem conduzir nossos propósitos diários, repetidos e felizmente monótonos. Aceitar nosso contexto: Não adianta eu querer viajar para os Estados Unidos dar esmola lá, quando aqui no bairro onde moro tem uma quantidade considerável de pessoas precisando de ajuda. Não adianta eu fazer um jejum de carne se sou vegetariana (o que é mentira no meu caso, rs). Não adianta eu fazer só mortificação de sorvete, se na verdade eu preciso também rezar mais ou mortificar as palavras (talvez até as opiniões na internet). Só quem poderá dizer isso é você. Depois de aceitarmos nosso contexto, devemos ter a alegre disposição para viver insistentemente uns poucos propósitos, pequenos e realizáveis, fazendo tudo com amor, dia após dia.

Em caso de falha, é necessário recomeçar.  E o que é o sentido da Quaresma se não exatamente esse? Jesus nos chama a conversão de novo: “Naquela hora, os discípulos aproximaram-se de Jesus e perguntaram: ‘Quem é o maior no Reino dos Céus?’ Jesus chamou uma criança, colocou-a no meio deles e disse: ‘Em verdade vos digo, se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, não entrareis no Reino dos Céus’” (Mt 18,1-3).

Uma longa caminhada para o sentido da nossa vida começa com o primeiro passo, mas para o caminho ter continuidade, todos os passos são igualmente importantes ao primeiro. E com frequência os mais difíceis serão aqueles após cair. Serão passos com menor empolgação do que o primeiro. A vontade, às vezes, será de não voltar a caminhar, de ficar naquela inércia, como eu me encontrava em alguns dias durante a quarentena. Porém é necessário fazer como as crianças e dizer: “Vamos de novo!”. Se começar um propósito é difícil, se a falha gera um sentimento de morte à continuidade daquilo, o recomeço, sempre será a ressurreição, a qual esperamos ansiosamente experimentar na Páscoa. O recomeço é a minha dica mais valiosa para essa Quaresma e para vida.

Carolline Ramos Dias

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