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Vasco vice? Não para mim!

Por: Moco

imagem: divulgação


Vasco vice? Não para mim!

Havia uma festa na comunidade! Comemoração dos 10 anos de uma das crianças mais bajuladas daquela rua. O tema da festinha seria futebol, a vizinhança toda em polvorosa ornamentava-se com as cores pelas quais o coração batia mais forte. Eis que surge aí o primeiro grande dilema de um casal recém-casado. O pai vascaíno e a mãe flamenguista precisavam decidir a qual das duas equipes o filhinho de 1 ano de idade representaria. Foi tirado na sorte (ou azar) e deu flamengo! Pela primeira vez o Vasco era vice para aquele inocente bebê, que trajado de vermelho e preto aproveitou sua primeira festinha.

Não por acaso, Flamengo x Vasco é conhecido por clássico dos milhões, quase 100 anos de rivalidade que neste caso foram transpostas para esta família, o pai que havia perdido na sorte, revidou no convencimento. Era um domingo, um simples domingo no qual pai e filho brincavam de forma intensa no quintal de casa, ocasião perfeita para se fazer valer da referência paterna. O pai pergunta ao filho de 3 anos se este gostaria de ser como o pai quando crescesse, se gostaria de ter as mesmas habilidades que o pai, o menino prontamente respondeu que sim. Oportunamente foi convencido de que o segredo para ser esperto e habilidoso como o pai seria tornar-se vascaíno. O menino não hesitou em trocar a Gávea por São Januário prontamente. 

Novamente a comunidade encontrava-se em grande expectativa por uma festa infantil. Dessa vez o protagonista é o nosso querido amigo que agora comemora seus 6 anos de idade. Toda a rua se organiza para a festinha, o que poucos sabem é que para que ela acontecesse o menino foi submetido a uma cruel chantagem da mãe. Um belo dia, a mãe diz para o filho, de forma um tanto quanto despretensiosa: “se aproxima o seu aniversário de 6 anos, queria tanto te dar uma festinha”. Ao que o garoto inocentemente responde: “Oba! Eu quero a festinha, vamos fazer”. Sem pestanejar a mãe lança as suas segundas intenções: “Faria se você fosse flamenguista, uma festinha do flamengo”. Seduzido pela proposta, mais uma vez o menino encontra-se envolto de rubro negro.

“Vira-casaca” é um famoso termo no meio futebolístico, refere-se a pessoas que mudam de lado de acordo com a conveniência. Seria aquela criança uma vira-casaca? Talvez sim, afinal de contas, já tinha mudado de lado duas vezes, em seu favor tem a justificativa de que em nenhuma das vezes ela foi totalmente consciente e livre para escolher. Em meados da década de 90, por volta de 1997, 1998… O menino tomando consciência de sua paixão pelo futebol gastava grande parte de suas tardes jogando “altinha”, “dois toques”, “golzinho de praia” e “rebatida” com os amigos na rua (época boa!), nas noites de quarta o programa favorito era assistir aos jogos da Taça Libertadores da América com o pai. No ano de 1998 o Vasco tinha um grande time, Carlos Germano, Mauro Galvão, Juninho, Felipe, Pedrinho, Ramon, Donizete e Luizão eram alguns dos componentes desse elenco, se o leitor não os conhece uma breve visita ao Youtube será bem-vinda.

Acontece que o menino, já com 8 anos e ainda flamenguista em decorrência da decisão tomada aos 6 anos, rivalizava com o pai que acompanhava de forma vibrante cada jogo do Vasco na competição. Eram noites agradabilíssimas, a casa era pequena, a tv tinha 14 polegadas, narração marcada do famoso Galvão Bueno. Pai e filho dividiam uma mesma cama assistindo atentamente a cada detalhe das partidas. O pai tomado pela emoção de ver o Vasco a caminho de seu primeiro título de Libertadores, no ano do centenário. O filho, por sua vez secando com todas as forças o cruzmaltino, temendo ter um pai campeão de uma competição para a qual o flamengo nem havia se classificado. Por outro lado, o menino já se encontrava de certa forma seduzido. Pela qualidade técnica da equipe, pela torcida, pela companhia do pai. 

Aproximava-se o dia da semifinal. Os corações batiam forte, no Rio de Janeiro e em Buenos Aires, o confronto era entre Vasco e River Plate. Apesar da semelhança nos uniformes, as equipes se digladiavam por uma vaga na final. O River contava com uma geração tão talentosa quanto a do cruzmaltino carioca. Após uma sofrida vitória jogando em São Januário, um magricelo 1×0. A vaga foi ser decidida no estádio Monumental de Nuñez em Buenos Aires. Jogo extremamente tenso, típica decisão no contexto da Libertadores. Os olhos estavam vidrados na tv. Vez por outra, o pai fazia um trocadilho com os nomes dos jogadores do River (Bonanno, Sorín, Aimar) e ajudava a tornar o clima mais leve, o filho soltava aquelas gargalhadas gostosas. 

O OxO insistia no placar, apesar da pressão aplicada pela equipe argentina, a apreensão não passava. O pai reagia como se estivesse no estádio, gritava, levantava, brigava e elogiava os jogadores de acordo com o que faziam em campo. O menino a esta altura já torcia pela vitória do Vasco, não havia como negar. Mas ele mantinha as aparências, pensava que seria feio admitir que tinha sido cativado. Ocorreu-lhe a ideia de fazer uma aposta. Disse ao pai: “Duvido que o Vasco ganhe! Se vencer esse campeonato, eu viro vascaíno!”, “Feito!”, respondeu o pai. Foi fazer a aposta e o River abriu o placar. O menino entristeceu-se. Pensou em disfarçar provocando, mas percebeu que o pai estava tão envolvido que poderia não ser prudente fazê-lo. Seria o Vasco mais uma vez derrotado? A partida se encaminhava para as penalidades. A pressão era grande. O nervosismo tomava conta, dos jogadores, do pai e do filho. Falta, intermediária, já passava dos 30 e poucos do segundo tempo. 

Juninho na bola. Empurra-empurra na barreira… demora. Juiz apita, Juninho corre em direção à bola, bate e GOOOOOL!!! O Vasco empata a partida! É um empate que vale a classificação, é o gol que marca a primeira comemoração do filho com o pai naquela competição, o filho vai ao delírio, pela primeira vez solta o grito que estava entalado na garganta desde o início: VASCO!

Ainda restava a final, mas o menino quebrou o protocolo da aposta e declarou torcida antes. Daquela vez o Vasco não foi vice. Nem na Libertadores e nem para o menino! Na mesma noite, o Vasco conquistava a América e conquistava o inocente coração daquele menino que hoje vos escreve aos 25 anos de idade. Certo de que não foi vira-casaca quando criança, mas que teve a oportunidade de presenciar através das próprias escolhas que o Vasco é o time da virada, que o Vasco é o time do amor, que foi traduzido nos laços indissolúveis que aquela Libertadores ajudou a provocar entre mim e meu pai.
Daí por diante ainda tive muitas alegrias. Vi o Vasco conquistar uma Copa Mercosul, um Brasileiro, uma Copa do Brasil e alguns Estaduais depois. Confesso também que, por outro lado, tive motivos para chorar. Hoje em dia não temos mais Carlos Germano, Mauro Galvão, Juninho, Felipe, Pedrinho, Romário ou Edmundo. Hoje em dia não temos mais meu pai. Não disputamos a Taça Libertadores faz tempo e ainda por cima, fomos rebaixados duas vezes, há quem diga que nesse ano caminhamos para a terceira. Hoje as alegrias são memórias. O povo diz que o Vasco é vice e é de segunda. Pode ser para o povo, não para mim. Para mim, será sempre o time das viradas improváveis, será o gigante que me cativou, será o time do meu pai! O Vasco é para mim uma escolha e uma herança… E a cruz de malta é o meu pendão!

Rodrigo Moco

Psicólogo / Coordenador da Oficina de Valores

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